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#Romances#Literatura Brasileira

A Mortalha de Alzira

Por Aluísio Azevedo (1891)

Vagarosamente atravessou a sala e foi sentar-se numa velha cadeira, ao lado da tosca mesa de carvalho.

A criada e o hortelão acompanhavam-lhe os movimentos com um lastimoso olhar.

— Boas noites, tia Salomé, boas noites, mestre Jerônimo, disse ele, cumprimentando-os humildemente.

— Deus Nosso Senhor lhe dê as mesmas, senhor vigário! respondeu a criada, quase que ao mesmo tempo que o hortelão.

E a boa velha, pensando em Robino, que continuava a dormir a um canto, foi tratar de afastá-lo dali, para poupar a Ângelo o espetáculo daquela imoralidade. Mal, porém, lhe pôs as mãos em cima, 0 pequeno gritou acordando:

— É de virar! É de virar! Hup! Hup! Hurra!

— Que é isto?... perguntou Ângelo, voltando o rosto.

— Ora! Que há de ser?... explicou a criada, enquanto Jerônimo carregava o pequeno lá para dentro. É o mariola do Robino que está que se não pode ter nas pernas! Se não fosse o hortelão, ficaria aí estendido pelo caminho e talvez se afogasse na enxurrada, que vamos ter muita chuva! Seria bem feito!

— Coitado!... murmurou Ângelo.

— Coitado?! Ainda o Sr. vigário diz: "Coitado!"?... nunca vi cousa assim! Isto já não é bondade é tolerância demais! ter pena de um maroto que se vai meter na taverna do Bruxo até ficar a cair!... O Sr. vigário faz mal em proteger semelhante biltre, que para nada serve! Queria ver se o despedissem daqui, onde ele encontraria quem o aturasse!...

— Por isso mesmo não devemos despedi-lo... Observou o cura. Se ele não tem para onde ir, como quer a tia Salomé que o ponhamos fora de casa? Seria matá-lo de penúria!...

A criada abaixou a cabeça e disse, de si para si, a endireitar o seu avental:— E mesmo um coração de anjo! ...

— Ouça, minha boa Salomé... acrescentou Ângelo, pousando-lhe a mão no ombro; você às vezes finge-se má... aposto que, se eu expulsasse daqui o Robino, seu coração, minha irmã, sofria com isso mais CO que o dele próprio...

— Não digo o contrário, Sr. vigário, mas...

—Por que então há de fingir-se aquilo que não é?... por que há de dizer o que não sente?... por que fazer-se má, quando os seus sentimentos são humanos e compassivos?... Saiba, pois, que tanto se ofende a Deus com a falsa maldade, como com a verdadeira. Com a falsa ainda mais se ofende, porque a outra tem a sua absolvição na fatalidade dos instintos, ao passo que esta é toda produto do raciocínio, e como tal deve ser punida. Se Robino é um miserável, é um perdido, por isso mesmo devemos socorrê-lo; se não dispõe de ninguém por si, devo eu estar ao lado dele e, se eu também o abandonasse, ainda ficaria Deus, que não abandona nunca os desgraçados.

E prosseguiu, depois de uma pausa, deixando-se arrebatar no vôo do seu amoroso enlevo pelas cousas místicas:

— O santo missionário Francisco Xavier, quando percorreu a longa Índia com a sua esfarrapada sotaina, tocava uma campainha para atrair o povo, e entre este ia escolhendo os desgraçados de toda a espécie, para socorrê-los e dividir com eles a melhor parte do seu pão e do seu coração. Schwartz, Marshman, e quantos outros soldados de Jesus, afagaram toda a escala das misérias humanas, como se percorressem o doce teclado de um órgão, entoando hino de amor à Virgem Puríssima! Vicente de Paulo, reduzido à escravidão em Argel, humilhou-se de tal modo e com tamanha devoção, que acabou convertendo o seu herético senhor à fé católica. E mais tarde, em Marselha, ei-lo que desdenha a honrosa companhia do conde de Joigny, para ir coabitar com os galés, até chamá-los, a todos, um por um, ao caminho da moral e da religião de Cristo! Mas o próprio Cristo?... Não foi ele quem recolheu nos seus braços a pecadora das pecadores, a desgraçada repelida por todas as multidões? Não foi ele quem fez de Madalena o louro arcanjo da regeneração?... Não foi ele quem dela fez uma santa? Sim! Sim, Jesus, meu Mestre! toda a tua religião e toda a tua sabedoria se reduzem a esta palavra:—Amor!

E um longo suspiro saiu-lhe do fundo da alma.

Salomé, que do meio para o fim da divagação do presbítero se fora comovendo progressivamente dava agora repetidos soluços, limpando os olhos com ò avental.

— Perdoe-me!... gaguejou ela; perdoe-me, Sr. vigário!... Vossa reverendíssima tem toda a razão... Vossa reverendíssima é um santo... mas que quer?... Eu estava contrariada... Eu estou muito zangada! Tenho que ralhar!

— Por que, minha boa irmã?...

— Ora, porque! porque vossa reverendíssima pelo modo que vai, dá cabo de si!... Tem lá jeito! Levar até a estas horas com o estômago vazio, a andar por aí todo o santo dia, em risco de lhe acontecer como ao frei Ozéas!...

— E todavia não tenho fome...

— Mas há de sempre comer alguma cousa, senão é que me zango deveras!...

— Tenho é muito cansaço...

E assentou-se.

— Pudera não! Fazendo destas!... Isto até ofende a Deus!

E, de carreira, foi lá dentro em busca do que havia para cear.

Ângelo, mal se viu a sós, deixou pender a cabeça e pousou as mãos sobre os joelhos.

(continua...)

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