Por Bernardo Guimarães (1883)
Tiverão pois de atravessar toda a cidade na melhor marcha de seus cavallos sem poderem conversar em razão do tumulto das ruas. Felizmente não era extensa o trajecto da então pequena cidade, e logo que transpuzerão a ponte do Macú, e penetrarão no bairro mais silencioso e deserto de Sancta Iphigenia, Conrado, retardando um pouco o passo do animal, começou a dar conta a Frei João do ponderoso motivo que o levára a chamal-o para aquelle mistér. Narrou-lhe com toda a sinceridade e franqueza, como si estivesse no tribunal da penitencia aos pés do confessor, os factos capitaes que o leitor já sabe e constituem o assumpto desta historia, sem preterir circumstancia alguma importante. Contou-lhe com toda a lhaneza o amor que desde a infancia concebera pela filha de seu antigo patrão; os esforços sobre humanos que fizera para tornar-se digno della; a falta em que a cegueiro do amor, e a imprudencia e ardor da mocidade o fizera incorrer; a invencivel obstinação, com que o philaucioso velho manteve-se na negativa, perseguindo-o por esse motivo encarniçadamente e ató ameaçando-lhea existencia, pelo que vio-se obrigado c retirar—se por longo tempo de S. Paulo sem poder ter a menor communicação com sua amante; a ignorancia, em que até aquella data estivera, da existencia de sua filha, facto de que só na vespera tivera conhecimento por intermedio de uma escrava, que por um feliz acaso o descobrira; como essa filha fôra bap— tizada como escrava pela mulher, que Frei João ia confessar, e nessa condição se achava até aquella data tendo sido ultimamente, por um estranho capricho da sorte, vendida á sua propria mãe.
— Agora, —- concluio Conrado, — já o meu amigo comprehende o alto interesse que ligo á confissão dessa desgraçada velha, que por grande favor do céo ainda encontrei viva, e o motivo, por que o procuro, não só como sacerdote, mas tambem como amigo a fim de coadjuvar-me no desempenho de uma missão, que é para mim um dever sagrado. Conto que não só nesta confissão, como em outros passos que terei de dar para ser reconhecida a verdadeira maternidade de Rozaura, o meu amigo não me recusará o auxilio de suas luzes e de sua influencia.
O frade ouvio a narração de seu amigo com a maior attenção, e apenas o interrompera poucas vezes com interjeições de interesse e de sorpreza.
Por indifferente que me fosse a pessoa que reclamasse de mim um serviço dessa ordem, respondeo Frei João, não me era licito recusal-o, quanto mais a um amigo a quem tanto desejo ser util. Na verdade, a historia, que acaba de contar-me, é um drama contristador, e contem as mais severas e terriveis lições. Ainda bem que com o favor de Deus tenho esperança de leval-o a um desfecho feliz e satisfactorio para todos. É ainda um episodio palpitante de interesse e de triste originalidade, que nos vem mostrar bem ao vivo os singulares e funestos resultados a que nos póde arrastar essa deshumana e degradante instituição da escravatura, que para vergonha nossa ainda subsiste no paiz.
Entretanto noto que a divina Providencia como que tem querido proteger por um modo manifesto a sua Rozaura, dirigindo os acontecimentos por tal sorte que em breve se revelará em plena luz a verdadeira origem da menina. Repare o meu amigo como tudo vae se combinando, e como que conspirando para esse feliz resultado ! A venda de Rozaura á sua propria mão foi um facto providencial. Si Deus quiz por esse estranho meio collocar em contacto essas duas creaturas, que pertencião uma a outra, e conservar até hoje a vida a essa desgraçada mulher que reduzio a menina á escravidão, foi por certo para esse grande e misericordioso designio. Vamos, meu amigo, apressemos o passo. Estou ancioso por ver chegado a um prospero desfecho este singularissimo drama.
Neste ponto da conversação já estavão á vista da casa do taverneiro francez, onde forão apear-se.
CAPITULO XIII
Nha-Tuca e sua chronica.
Apenas apeárão-se, Conrado chamou de parte o francez, dono da taverna, e depois de ter sido por elle informado de que todas as suas ordens tinhão sido cumpridas, pedio-lhe que fosse assistir como testemunha a uma de claração solemne que a velha Nha-Tuca tinha de fazer em confissão publica para desencargo de sua consciencia. Pedio-lhe tambem que d'entre os circumstantes escolhesse para o mesmo fim mais duas pessoas que soubessem ler a escrever, e que gozassem de bom conceito.
Não só o desejo de servir a Conrado, que por sua generosidade e boas maneiras lhe tinha taptado a benevoleñcia, como tambem a curiosidade, que semelhante facto excitava, contribuirão para quo não só o taverneiro, como todos os seus numerosos freguezes se prestassem com a melhor vontade a tudo quanto delles exigia o cavalheiro. Vinte ou trinta testemunhas, que lhe fossem necessarios naquella occasião, com facilidade os acharia promptos por aquella vizinhança.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)GUIMARÃES, Bernardo. Rozaura, a enjeitada. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=43488 . Acesso em: 28 fev. 2026.