Por Franklin Távora (1878)
Então o porco selvagem fazia-se escravo da juruti meiga e naturalmente elegante. Voltava-se todo para ele e ficava como em contemplação ascética. Os cabelos abundantes e pretos, a rosto emoldurado em oval corretíssima, a cútis morena, fina e rosada, o nariz levemente erguido na ponta, a boca representante de altivez e bondade ao mesmo tempo, faziam de d. Damiana um como centro luminoso diante do qual o orgulhoso e duro João da Cunha sentia deslumbramentos.
A influencia, porém, que a mulher exercitava sobre o senhor de engenho, não era absoluta.
Quando João da Cunha tomava uma resolução sobre objeto grave; quando seu orgulho exigia dela o preenchimento de um dos seus caprichos, leis do seu caracter, nem o olhar, nem o sorriso, nem a meiguice, nem as lagrimas dela venciam a dureza marmórea do espirito, que de outras vezes parecia de cera.
XII
O engenho Bujari estava situado em um ponto de que inteiramente se perdeu a memória. O que se sabe ainda, pela tradição oral, é que, tendo ele ficado, pelo tempo adiante, todo em capoeira em conseqüência do longo desamparo, veio a confundir-se com a mata virgem. O engenho que traz hoje esse nome, fundou-se muito depois do desaparecimento do primeiro.
Nesse tempo – áureo período da vida do respectivo proprietário – era ele uma das mais importantes propriedades rústicas de Goiana, e a sua situação uma das mais formosas do termo.
O tempo, na forma do costume, não respeitou as prendas naturais e ainda menos as obras de grosseira arquitetura da grande propriedade de João da Cunha. No lugar onde foi a casa-de-vivenda – sobrado acaçapado de telhado enegrecido, que, por muito alto no centro, era a primeira parte da casa que se via de longe acima dos matos, com seis janelas quadradas, entre as quais se rasgava a porta, para onde se subia por uma escada de tijolos grosseiros – existe hoje seguramente uma renque de sicupiras colossais, cuja folhagem enche os vãos das duas salas fronteiras – uma reservada aos hospedes, a outra á família – agora desaparecidas. Mais para o centro, no lugar dos aposentos interiores, floresce o amarelo, o páo-d’arco, o jatobá. Na casa-de-purgar, que devia ficar á esquerda, nasceram cedros, que se mostram gigantes, cobertos de cipós, que, entrelaçando-se com a vegetação circunvizinha, formam galerias e abobadas naturais, onde não penetra luz e se acoitam durante o dia aves noturnas e cobras venenosas. Á direita, no lugar da capela, é agora uma elevaçãosita, de que se atiram aos ares uns sambaquis, umas maniçóbas, uns marmeleiros, umas cabuatãs, cujos ramos e folhas se entretecortam e amigam. Por onde corria a rua dos negros, composta de vinte a vinte e cinco casinhas de cada lado, vêm-se adjuntos de embiribas e jucás. A casa-da-moenda foi substituída por um grupo de colossais angicos. Enfim a atividade da grande propriedade passou, para dar lugar á serenidade, ao sossego, ao silencio majestoso e solene da mata virgem. As obras da arte substituíram-se as produções, desde as mínimas até as máximas, da natureza. Ao viver do homem sucedeu o do bicho bravio. Assim são as coisas deste mundo. No topo de uma civilização germinam latentes as raízes de uma barbaria.
Uma exceção destaca-se, para confirmar a regra geral, do circulo vicioso em que giram, após vidas, gerações, progressos humanos, os seres, ou antes, as forças indestrutíveis da matéria. Por entre uns paus secos aqui, umas moitas enredadas ali, umas arvores frondosas além, arrasta ainda a existência um ente contemporâneo de João da Cunha. Está mais selvagem, porém mais vivo e belo.
Suas forças não diminuíram, antes aumentaram. Em suas faces há risos continuados. Não lhe alvejam na fronte as cans da velhice. Esse ente é o rio Capibaribe-mirim, de que em 1711 passava por dentro do cercado do engenho Bujari, um braço cheio e vigoroso, o qual se estendia então sobre limpo e arenoso leito, enquanto hoje só o caçador ou algum viajor transviado o vê dilatar-se por entre matos e por baixo de frescas e amenas sombras. Semelhante ás cobras que rastejam em suas margens, ele serpeai desconhecido e caracola, ora brando e vagaroso, ora barrento e assanhado, atravessando os próprios pontos onde no século passado brincava com a luz do dia e recebia os beijos da franca viração dos descampados. As águas, com que refresca essa parte central da mata banham, antes de chegar ai, as povoações denominadas Mocós e Timbaúba, únicos pontos populosos por onde passam. Toda a restante região que elas percorrem, é solitária e erma. O morador do centro civilizado fez-se quase exclusivo habitante da solidão e da floresta.
O negro André, carreiro do engenho, tinha descarregado, no pátio da casa-de-vivenda muito antes do anoitecer do dia 23 de junho de 1711, vários carros de lenha destinada ás fogueiras de S. João. De dispor os grossos tóros de angico e cajueiro tinham sido encarregados três ou quatro parceiros daquele carreiro, de propósito dispensados com cedo do serviço diário para este fim.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)TÁVORA, Franklin. O Matuto. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1812 . Acesso em: 28 fev. 2026.