Por Bernardo Guimarães (1872)
- Nesta ocasião principalmente, meu amigo, prosseguiu o Major continuando a conversa, sinto especial prazer em ter mais uma testemunha, e da qualidade do senhor, da felicidade de minha filha, pois tenho a satisfação de participar-lhe que muito brevemente vai-se casar com o senhor Leonel, aquele belo e distinto cavalheiro que lá se acha junto dela.
- Já disso tive notícia, e dou-lhe os meus sinceros parabéns.
- É um excelente moço. Não há quem o veja, que desde a primeira vista não fique gostando dele. Quero ter a honra de desde já o apresentar a ele.
O simples do Major pensava que com esta formal declaração dava logo in limine golpe de morte a toda e qualquer esperança que ainda porventura Elias alimentasse a respeito de sua filha. Não tinha idéia da veemência das paixões enérgicas e profundas que, em vez de cederem, mais se inflamam diante dos obstáculos que se lhes opõem.
- Com muito gosto! vamos, senhor Major. Também desejo felicitar a noiva, disse Elias com um tom de amarga ironia que não escapou ao Major.
Este travou-lhe do braço, e o foi conduzindo para junto dos noivos.
-senhor Leonel, disse ele ao chegar defronte dos noivos, tenho a satisfação de lhe apresentar este meu patrício e amigo, que acaba de chegar de fora, o senhor Elias.
Leonel estremeceu, e olhou rapidamente para Elias. depois, reportando-se, fez um breve aceno com a cabeça, e o cumprimentou friamente.
Esta recepção fez ferver o sangue a Elias, que, resolvido a desmascarar aquele embusteiro, dirigiu-lhe resolutamente a palavra:
- Oh! senhor Leonel! . . . já não m conhece? . . . tenho infinito prazer em torna-lo a ver.
- Pois quê! exclamou o Major, então já se conheciam? . . .
Leonel levantou-se pálido, e com visível perturbação largou, ou, antes, deixou cair sobre a cadeira o violão que tinha nas mãos, e bastantemente enfiado balbuciou:
- O senhor é. . . quem? . . . não me lembro de todo.
- Pois deveras não se lembra de mim, continuou Elias em voz alta; veja lá. . . olhe bem para minha cara.
- Não; de todo não me lembro; tenho má memória, e lido com tanta gente, replicou Leonel recobrando aos poucos sua seguridade habitual.
- Pois não se lembra de Elias, o seu amigo, o seu protegido do Sincorá?
- Elias! . . . resmungou o baiano como que forcejando por lembrar-se, não sei. . . talvez com um esforço de memória. . . no Sincorá! . . . conheci e protegi tanta gente lá.
Aquela fatuidade e arrogância, aquele desdenhoso esquecimento, fosse real ou fingido, fez perder de todo a paciência a Elias, que bradou com toda a força de seus pulmões:
- Diga antes, senhor Leonel, enganei e roubei lá tanta gente!
- Insolente! gritou Leonel; senhor major, este homem ou é um doido, ou está bêbado; se o não fizer desaparecer imediatamente daqui, retiro-me d sua casa para nunca mais voltar. . .
- Cala-te, ladrão, bradou Elias; e, agarrando com mão de ferro o braço de Leonel, antes que ninguém pudesse estorvá-lo, em dois arrancos o arrastou para o meio da sala exclamando: És um ladrão, e hei de marcar-te na cara! . . .
Imediatamente se ouviu o estalo de uma bofetada nas faces do baiano. Um punhal reluziu na mão deste; mas já ambos estavam cercados e separados por uma turba imensa.
- Que desaforo, senhor Major! exclamava um; isto não se tolera! como admite em sua casa um doido destes!
- Prendam! prendam esse biltre, bradava outro. Se não é algum malvado, é algum doido, ou algum bêbado.
- Este rapaz noutro tempo mostrava ter juízo, dizia um terceiro, que conhecia Elias. Não sei como agora se lhe virou o miolo por sta maneira! . . . mande aferrolha-lo imediatamente; é um homem perigoso.
O Major dava aos diabos o momento em que se lembrara de apresentar a Leonel aquele endiabrado rapaz, e, entendendo que o despeito e o ciúme lhe tinham transtornado o juízo, tratou de dar providências para segura-lo bem.
Elias rodeado e segurado por uma multidão de esbirros oficiosos, que lhe dirigiam impropérios e baldões, foi dali arrastado para a casa da prisão, enquanto Leonel, cercado por seus amigos, brandia em vão o punhal, vomitando ameaças, e baforando vinganças.
Lúcia trêmula e atônita assistira àquela escandalosa cena sem dela nada compreender. Retirou-se como que assombrada para seu quarto; mas, naquele incidente, em que todos viam um deplorável e horrível desacato, ela entrevia como que um lampejo de esperança. Ela, e só ela acreditara nas palavras de Elias, e o julgava cheio de razão.
Leonel retirou-se para sua casa, respirando vingança, mas aterrado dentro d’alma com o aparecimento fatal daquele moço.
XI – DE MAL A PIOR
Elias tinha gasto cerca de quatro meses em sua viagem do Sincorá à Bagagem. Quando disse a seu hóspede que apanhara febres intermitentes na margem do S. Francisco, não tinha mentido, se bem que naquela ocasião nada sentisse que delas procedesse. Essas sezões que apanhou em caminho foram que, com grande desespero seu, demoraram-lhe a volta por mais de dois meses.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)GUIMARÃES, Bernardo. O Garimpeiro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1776 . Acesso em: 26 fev. 2026.