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#Romances#Literatura Brasileira

O Ermitão de Muquém

Por Bernardo Guimarães (1869)

A raiva, o pasmo, o ciúme de Inimá, vendo a sua adorada Guaraciaba transviada e fugitiva por aqueles desertos em companhia de um estrangeiro, que ele detestava, tinham-lhe ofuscado completamente o espírito, e extinguido em seu coração todo o sentimento nobre, todo o instinto de generosidade. Arrebatando um arco a um dos companheiros, que por fim vinham chegando de tropel, embebe-lhe uma flecha e a dispara contra Itajiba, porém com tal fúria e cegueira, que a flecha passou sibilando aos ouvidos de Itajiba, roçou pelo cocar de plumas de Guaraciaba, que se achava por detrás dele, e sem tocar em ninguém foi-se perder zunindo lugubremente na profundez da furna. Itajiba, que até aquele momento ouvira tudo com impassível serenidade, e só tratava de guardar-se a si e a sua formosa companheira da furiosa agressão do exasperado cacique, rompe enfim o silêncio:

— Inimá, brada ele, és um vil e um cobarde tu, que à testa de tantos guerreiros não te pejas de insultar a um estrangeiro só e sem outra defesa mais que as suas armas, e destilas de teus lábios o veneno da calúnia contra a filha de teu chefe, contra uma virgem adorável digna do respeito e do culto dos homens. És um vil e um cobarde tu, que voltas tuas armas contra aquele que há poucos instantes salvou-te a vida podendo te deixar morrer vilmente entre as garras de uma fera...

Inimá espumando de raiva não o deixou prosseguir, lança-se de um salto sobre Itajiba e atira-lhe um furioso golpe de tacape. Itajiba destro como a onça desvia-se rapidamente dando um pulo para trás, e com a faca em uma das mãos e o tacape na outra está pronto e em atitude de pelejar.

Aquela caverna ia ser testemunha de uma luta tão feroz e sanguinolenta como essa que Itajiba já tivera a sustentar ao chegar entre os Chavantes; mas ah! desta vez ele não quereria morrer, pois o prendia com os mais suaves laços ao mundo e à vida o amor da linda e inocente criatura que ali se achava testemunhando todas aquelas cenas de horror. Entretanto o combate era dos mais arriscados e desiguais; embora matasse Inimá, Itajiba teria de travar-se depois com os cinco ou seis guerreiros da comitiva daquele. Mas o ânimo não lhe franqueia, encomenda-se com mais fervor que nunca à celestial protetora e resoluto aguarda novo ataque de Inimá. Guaraciaba, porém, lança-se no meio dos dois contendores, e voltando-se para Inimá com ar altivo e senhoril exclama:

— Detém-te, Inimá! que furor te cega? é com esse procedimento atroz e indigno que esperas merecer um dia ter a teu lado, em tua taba, a filha do nobre e valente Oriçanga? é assim que pretendes tornar-te digno de comandar a heróica e generosa nação dos Chavantes?... no furor insensato que te alucina, ousas lançar injúrias e baldões contra a filha de teu chefe, e atentar contra a vida daquele que a acompanha e protege por estas solidões! sabes acaso o motivo que nos obrigou a procurar este abrigo, onde nos vieste encontrar? quem te disse que fugimos oculta e traiçoeiramente da cabana de Oriçanga?... Mas não é para contigo, Inimá, que devo justificar-me desta singular ocorrência. Guerreiros, continua ela dirigindo-se aos companheiros de Inimá, guiai-me a mim e a este estrangeiro às nossas tabas e conduzi-nos à presença de meu pai; a ele e a mais ninguém devo dar satisfação do meu procedimento.

Falando assim o peito de Guaraciaba ofegava de indignação, seus olhos cintilavam como diamantes entre as sombras da caverna, e seu talhe e colo elevavam-se garbosos como o da ema, rainha das campinas, quando irritada se ergue contra aquele que pretende roubar-lhe o ninho. Em seu orgulhoso porte, na altivez de sua nobre linguagem, revelava-se a descendente de heróicos caciques, a verdadeira princesa das florestas. A estas nobres e severas palavras de Guaraciaba Inimá sentiu gelar-se-lhe no coração toda a sua cólera, e esteve a ponto de cair de rojo a seus pés suplicando-lhe perdão; mas Itajiba ali estava, o orgulho o conteve e balbuciou apenas timidamente estas palavras:

— Perdoa-me, formosa filha de Oriçanga, se te ofendi com minhas rudes falas; a cólera, o amor, o ciúme me desvairam... Vai, gentil Guaraciaba , vai tranqüila recolher-te à sombra da taba, onde sem dúvida teu pai te espera na mais ansiosa inquietação. Mas esse vil forasteiro, que te acompanha, esse sedutor infame pertence-me; há entre mim e ele um pleito de vida e morte, o qual é forçoso que hoje mesmo fique decidido.

— Inimá, bradou ela com império, este estrangeiro acompanhou-me por vontade minha, e deve comigo voltar às tabas. Itajiba, acompanha-me; guerreiros, segui-me e guiai-nos à taba de meu pai.

(continua...)

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