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#Contos#Literatura Brasileira

Histórias e tradições da Província de Minas Gerais

Por Bernardo Guimarães (1872)

Eduardo, cujas pálpebras ardentes não se cerraram essa noite, esperava ansioso o alvorecer do dia. Paulina amanheceu mais tranqüila, posto que extremamente abatida e em tal estado de fraqueza, que não lhe permitia levantar-se da cama.

Eduardo quando saiu de seu quarto encontrou já na varanda o dono da casa debruçado ao parapeito e com os olhos na estrada de Uberaba, à espera de Roberto com o médico. Em sua impaciência não calculava que era ainda muito cedo para poderem chegar.

– Bom-dia, senhor Ribeiro; – disse-lhe cumprimentando-o... Como passou a senhora sua filha?

– Ah! já está de pé, senhor Eduardo?... replicou o fazendeiro voltando-se para ele. – Paulina... eu sei... teve ainda muita febre e delírio; mas agora está mais sossegada. Todavia acho que não está nada boa.

– Não faz idéia quanto me dói no fundo da alma o incômodo dela, senhor Ribeiro.

– Muito agradecido, senhor Eduardo... mas enfim... é vontade do céu... que se há de fazer... Deus que tenha piedade de nós.

– Mas ah! senhor Ribeiro, quando penso, – e tenho motivos muito fortes para pensar assim, quando penso, que sem o querer e por desgraça minha sou a causa dos sofrimentos de sua filha e de todos os seus incômodos, minha aflição toca ao desespero.

– Bem o compreendo, senhor Eduardo; e eu também... para que negar-lhe? penso do mesmo modo...

– Portanto já vê o senhor que não devo me demorar mais um instante em sua casa, visto que não lhe posso dar remédio nem alívio algum. Minha presença lhe faz mal, e antes que ela me veja outra vez, é meu dever retirarme.

– Pelo contrário; agora já que aqui veio, tenha paciência, há de ficar; o senhor é o único que poderá salvá-la nesta cruel conjuntura; perdoe esta franqueza de um pobre pai desatinado pela dor e em risco de perder sua única filha. Ela tem pelo senhor uma paixão louca, estou disso bem persuadido; aquele sucesso da onça a fez enlouquecer...

– Também assim o creio, senhor Ribeiro; porém... desgraçadamente em nada lhe posso valer.., tenho as mãos atadas...

– Que me diz?...ah!... já me lembro... desgraçado de mim!... onde anda esta cabeça!... essa senhora, com quem ia casar-se ou talvez já esteja casado...

– Nada disso, senhor Ribeiro; dessa loucura há muito estou desencantado, e por esse lado nada mais me estorva...

– Deveras!... pois então o que lhe impede?...

– Escute ainda, senhor Ribeiro; tenha paciência; devo dizer-lhe tudo; se naquele tempo eu tinha meu coração e minha palavra empenhada a uma mulher, hoje a tenho empenhada a um homem...

– Como assim?... não o entendo; tenha a bondade de explicar-se melhor.

– Pois não sabe o senhor Ribeiro, que num dia seu sobrinho tomado de ciúmes, sem que eu desse motivo algum, cuidando que eu fazia a corte à sra. d. Paulina, veio me tomar satisfações; e que eu para livrá-lo do engano e da aflição em que o via, em termos de fazer alguma loucura, protestei-lhe que não tinha o menor amor à senhora sua filha, – e não tinha, pelo menos eu então assim o acreditava, – e jurei-lhe pelas cinzas de meu pai que nunca serviria de estorvo ao seu casamento com a mesma senhora?...

– Não, senhor; nunca ouvi falar em tal coisa.

– Pois é a verdade desgraçadamente, e agora... tenho os braços atados.

– Mas que tem isso?... que importa esse juramento, se Paulina não quiser casar-se com ele?...

– Contanto que não seja eu que o estorve...

– E será ele tão mau, tão desalmado, que queira sacrificar sua prima?...

– Não sei, senhor. – A verdade é que dei-lhe o juramento; desse juramento só ele pode desobrigar-me.

– E que remédio terá ele, se nem eu, nem Paulina quisermos aceitá-lo?... Vamos, meu amigo, vamos ver a pobre menina; ela está sempre a falar no seu nome. Veja se a pode tranqüilizar. Engane-a mesmo, se tanto é preciso, dê-lhe uns toques de esperança. Viva ela enganada por algum tempo; que mal faz isso? depois quando estiver mais forte e bem disposta, com vagar e cautelosamente a irei desenganando.

– Ah! senhor Ribeiro, não sou capaz de enganar a ninguém, quanto mais a ela. Se me permite, irei dizer-lhe toda a verdade; irei dizer-lhe, que a amo muito... que a maior, a única felicidade minha neste mundo depende dela...

– Deveras, senhor Eduardo?... atalhou o velho com alegre sobressalto, – que estou eu ouvindo?... então a quer bem?...

– Muito, senhor Ribeiro, muito! mas... de que serve?...

– De que serve?!... não compreendo tal pergunta...

– E o juramento...

– Pelo amor de Deus, não me fale em tal juramento! Vamos, meu amigo, continuou Ribeiro com alegre sofreguidão, – vamos visitá-la.

Ribeiro tomou o moço pelo braço, conduziu-o até a porta do quarto de Paulina, que se achava sentada sobre a cama, impeliu-o de manso para dentro dizendo a sua filha: – Paulina; aqui está o sr. Eduardo, que vem fazer-te uma visita;– e retirou-se.

(continua...)

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