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#Crônicas#Literatura Brasileira

Os Romances da Semana

Por Joaquim Manuel de Macedo (1861)

É inutil dizer que nesses três dias fez elle tres novas caçadas ao monte, donde corria o arroio que ia lançar-se no lago do feliz bosque vizinho ; cumprindo, porém, entender-se que que ao compadre Baptista ficou reservado exclusivamente o empenho de matar as pacas, emquanto Luciano limitava o seu prazer a subir ao ingazeiro, ver a bella incognita sahir da cabana dos lavradores e dirigir-se para o lago, e, emfim, depois de tel-a contemplado de longe, correr para o lugar ditoso, donde escondido adorava em extase aquella formosa creatura.

A lembrança do projectado casamento com Dionysia já nem sequer por um só instante occupava o espirito do estudante : que lhe importava Dionysia ?... Se outr'ora revoltava-se contra a idéa d'aquelle casamento, sem um motivo real, desde tres dias nem mesmo admittio a possibilidade de sujeitar-se a um laço, que seria uma barreira eterna e insuperável levantada entre elle a bella incognita.

Dionysia estava positivamente condemnada ao esquecimento e o esquecimento é ainda muito mais fatal do que o odio ; o esquecimento é quasi a morte.

Mas tres dias passados em contemplação e em saudades não podião mais satisfazer o coração do estudante: Luciano precisava inebriar-se, escutando a voz e devorando com os olhos, os olhos d'aquella joven romanesca.

Na manhã do terceiro dia, quando no seu posto de extatica adoração estava elle contemplando a sua incógnita, chegou um momento em que, impellido por uma força irresistivel e sem pensar no que ia fazer, lançou-se de subito para a arvore, a cuja sombra descansava a bella moça, e cahindo de joelhos aos pés desta exclamou :

— Eu a amo !

A incognita deixou ouvir um grito de sor-presa e de susto, e levantou-se para fugir ; mas, tomada de subito tremor nervoso, deu apenas um passo e sentou-se outra vez, dizendo :

— Meu Deus !...

O estudante aproveitou o ensejo, e de joelhos com estava, tremulo também, inspirado porém pela paixão fez mil protestos de ternura e mil juramentos de amor.

Pouco a pouco a moça foi serenando : no ardente discurso que ouvia, o respeito dominava sempre o impeto do amor : reconheceu bem depressa que tinha a seus pés um escravo e não um seductor, e banindo de sua alma o receio, fitou no mancebo um olhar cheio de angelica doçura, e disse:

— Porque vem perturbar a paz do meu retiro ?... onde e como pude eu inspirar-lhe esse amor ?... e esse amor, se um dia eu o tivesse também, que me daria elle ?

Luciano quiz fallar.

— É inutil, continuou a incógnita com voz segura, adivinho tudo quanto quereria dizer-me. Ama-me, não é assim ?... porém como ? vio-me por acaso algumas vezes n'esta solidão, agradoulhe o meu rosto, achou-me bella talvez, impressionou-o o mysterio da minha vida, e vem cahir a meus pés. Que amor é esse ?... sabe se por ventura sou digna d'elle ?... se victima de um erro ou de um remorso vim aqui esconder o meu opprobrio ? .. sabe se eu mereço reprovação ou piedade ?...

— A pureza brilha no seu angelico semblante : não me enganei, não me engano.

— E quem sou eu ?

— É um anjo !

_ Também ha anjos decahidos, Sr. Luciano, disse a moça sorrindo-se.

— Sabe o meu nome... conhece-me... balbuciou o estudante.

__ Oh ! sim... conheço-o, e sei um pouco a historia de sua vida. Sei que desde tres dias procura descortinar o segredo do meu nascimento, do meu passado, e do meu futuro.

— E quem lh'o disse ?... perguntou Luciano sorprendido.

— Dionysia, respondeu a moça sorrindo outra vez.

O estudante levantou-se irritado, ouvindo o nome da sua pretendida noiva.

— Escute, continuou a incógnita : pronunciei este nome para lembrar-lhe um dever que tem esquecido.

— Nunca !

— Mas porque ?...

— Até ha tres dias porque não tolerava a idéa de casar-me com essa senhora, depois de tres dias porque a amo, e nenhuma outra mulher lera o meu nome.

— E seus pais ?...

— Meus pais hão de adoral-a desde o primeiro instante em que chegarem a vêl-a.

— E meus pais ?

— Oh ! diga-me quem são, e eu correrei a fallar-lhes... quem são ?...

— Não sei, balbuciou a moça abaixando vergonhosa a cabeça.

— Pois bem: terá por seus pais os meus e por defensor, amigo, escravo o mais apaixonado dos esposos.

— Não ; a minha vida está presa a um mysterio que eu mesma não comprehendo : eu nem devo, nem posso animar o seu amor.

— Entendo tudo, disse o estudante exaltandose ; Dionysia adivinhou o meu amor pela senhora, e tratou de perder-me no seu conceito.

— Eu menti ainda ha pouco, senhor, tornou a moça : não conheço a sua noiva... nada lhe ouvi... vivo longe de todos, e de todos me escondo.

— Como poude então saber que se projectára esse casamento que me repugna ?

— Fallou-me disso a mulher do lavrador em cuja casa me asylárão.

— E com que fim ?... a que proposito ?...

A moça descansou uma de suas mãos sobre o hombro de Luciano, que estremeceu a esse doce contacto : depois encarou o mancebo com um olhar mágico e suavissimo, sorrio com a mais encantadora graça e disse:

— Que lhe importa ?...

— Meu Deos !... exclamou Luciano cahindo outra vez de joelhos.

(continua...)

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