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#Romances#Literatura Brasileira

Senhora

Por José de Alencar (1875)

Do sogro, também já recebera a pobre viúva o desengano. Depois do falecimento do marido e logo que a dor lhe permitiu outros cuidados, escrevera ao Lourenço de Sousa Camargo, revelando-lhe o segredo do casamento, e implorando sua proteção para os filhos de seu filho. 

O fazendeiro, da mesma forma que os parentes de Emília, não acreditou na realidade de um casamento oculto até aquela época, e do qual não aparecia documento ou outra prova. 

A carta da viúva só lhe revelou a continuação de relações que ele supunha desde muito extintas. 

Atinado que fora a influência dessa mulher a causa da desobediência do filho, lançava-lhe a culpa da desgraça que sobreveio, esquecido de que ninguém sofrera tanto como ela; pois além da viuvez, a morte do marido deixava-lhe a pobreza e a desonra. 

Ainda assim, nessa disposição de ânimo, foi generoso o Camargo. Mandou entregar a Emília mil cruzeiros; dinheiro cru e seco sem uma palavra de consolo ou de esperança. A pessoa que o levou à viúva, fez-lhe sentir que tão avultada esmola devia livrar o fazendeiro de futuras importunações. 

O Emílio, que podia ser o amparo natural da irmã, quando viesse a faltar-lhe a mãe, não estava infelizmente nas condições de receber o difícil encargo. Ao caráter irresoluto do pai, juntava ele um espírito curto e tardio. Apesar de haver freqüentado os melhores colégios, achava-se aos dezoito anos tão atrasado como um menino de regular inteligência e aplicação aos doze anos. 

Reconhecendo sua inaptidão para alguma das carreiras literárias, Emília lembrara-se de encaminhá-lo à vida mercantil. Por intermédio do correspondente do marido e pouco tempo depois da morte deste, fora o rapaz admitido como caixeiro de um corretor de fundos. 

Por mais esforços que fizesse o pobre Emílio, não lograva destrinçar as efemérides financeiras do movimento dos fundos públicos e oscilações do mercado monetário. Isto que aí qualquer filhote de zangão, a quem não desponta ainda o bigode, avia em duas palhetadas, era para Emílio ciência mais abstrusa do que a astronomia. 

Chegava a casa com sua tábua de câmbios, o preço corrente, a cotação da praça e as notas que lhe havia dado o corretor. Sentava-se à mesa; preparava o tinteiro e o papel, mas não havia meio de começar. Seu espírito embrulhava-se por tal modo na meada, que não atava nem desatava. Ao cabo chorava de raiva. 

Corria então Aurélia a consolá-lo. Sabia ela já a causa daquele pranto, cuja explicação uma vez lhe arrancara à força de carinho e meiguice. Tirava-o do desespero, animava-o a tentar a operação, e para suster-lhe os esforços ia auxiliando-lhe a memória e dirigindo o cálculo. 

A natureza dotara Aurélia com a inteligência viva e brilhante da mulher de talento, que se não atinge ao vigoroso raciocínio do homem, tem a preciosa ductilidade de prestarse a todos os assuntos, por mais diversos que sejam. O que o irmão não conseguira em meses de prática, foi para ela estudo de uma semana. 

Desde então, o caixeiro que ia à praça receber as ordens do patrão e levar-lhe os 

recados, era o Emílio, mas o corretor que fazia todos os cálculos e operações, ou arranjava o preço corrente, era Aurélia. Assim poupava a menina um desgosto ao irmão, e o mantinha no emprego a tanto custo arranjado. 

Bem se vê pois que Emílio longe de prometer amparo à irmã, ao contrário tinha de ser, se já não era, um oneroso sacrifício para a menina, obrigada a consumir com ele o tempo e os poucos recursos, fruto de seu trabalho. 

Nessas circunstâncias, a mãe só via para a filha o natural e eficaz apoio de um marido. Por isso não cessava de tocar à Aurélia neste ponto, e a propósito de qualquer assunto. 

Se vinha a falar-se de sua moléstia que fazia rápidos progressos, dizia Emília à filha:

- O que me aflige é não ver-te casada. Mais nada. 

Quando lembravam-se que o dinheiro deixado por Pedro Camargo e a esmola do fazendeiro haviam de acabar-se um dia, ficando elas na indigência, acudia a viúva:

- Ah! Se eu te visse casada! 

Aurélia é quem suportava todo o peso da casa. Sua mãe, abatida pela desgraça e tolhida pela moléstia, muito fazia, evitando por todos os modos tornar-se pesada e incômoda à filha. Envolvera-se ainda em vida em uma mortalha de resignação, que lhe dispensava o médico, a enfermeira e a botica. 

Os arranjos domésticos, mais escassos na casa de pobre, porém de outro lado mais difíceis, o cuidado da roupa, a conta das compras diárias, as contas do Emílio e outros misteres, tomavam-lhe uma parte do dia; a outra ia-se em trabalhos de costura. 

Não lhe sobrava tempo para chegar à janela; à exceção de algum domingo em que a mãe podia arrastar-se até a igreja à hora da missa e de alguma volta à noite acompanhada pelo irmão, não saía de casa. 

Esta reclusão afligia a viúva, que muitas vezes lhe dizia: 

- Vai para a janela, Aurélia. 

- Não gosto! Respondia a menina. 

Outras vezes, ante a insistência da mãe, buscava uma desculpa:

- Estou acabando este vestido. 

Emília calava-se, contrariada. Uma tarde porém manifestou todo o seu pensamento. 

(continua...)

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