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#Romances#Literatura Brasileira

O Guarani

Por José de Alencar (1857)

— Não me façais lembrar, Loredano, disse Rui Soeiro abaixando um olhar rápido para o punhal, que há um meio de fechar para sempre as bocas que se obstinam a falar. 

— Isto quer dizer, replicou o italiano desdenhosamente, que me mataríeis no caso de que eu vos quisesse denunciar? 

— À fé que sim! respondeu Rui Soeiro com um tom que mostrava a sua resolução. 

— E eu pela minha parte faria o mesmo! Primeiro está a nossa vida que as vossas venetas, misser italiano. 

— E que ganharíeis vós em matar-me? perguntou Loredano sorrindo. 

— Essa é melhor! que ganharíamos? Achais que é coisa de pequena valia assegurar a sua existência e o seu descanso? 

— Néscios!... disse o italiano cobrindo-os com um olhar de desprezo e de piedade ao mesmo tempo. Não vedes que quando um homem traz um segredo como o meu, a menos que esse homem não seja um truão da vossa laia, ele deve ter tomado as suas precauções contra estes pequenos incidentes? 

— Bem vejo que estais armado, e mais vale assim, respondeu Rui Soeiro; será morte antes que homizio. 

— Direis melhor, execução, Rui Soeiro! retrucou Bento Simões. 

O italiano continuou: 

— Não são essas armas que me servirão contra vós; outras tenho eu que mais podem; sabei unicamente que vivo ou morto, a minha voz virá de longe, ate mesmo da campa, denunciar-vos e vingar-me. 

— Quereis gracejar, misser italiano? A ocasião não é azada. 

— A seu tempo vereis se gracejo. Tenho na mão de D. Antônio de Mariz o meu testamento, que ele deve abrir quando me saiba ou me julgue morto. Nesse testamento conto as relações que existem entre nós, e o fim para que trabalhamos. 

Os dois aventureiros tornaram-se lívidos como espetros. 

— Compreendeis agora, disse Loredano sorrindo, que se me assassinardes, se um acidente qualquer me privar da vida, se me der na cabeça mesmo fugir e fazer supor que morri, estais perdidos irremediavelmente. 

Bento Simões ficou paralisado como se uma catalepsia o tivesse fulminado. Rui Soeiro, apesar do violento abalo que sentia, conseguiu com um esforço recobrar a palavra. 

— É impossível!... gritou ele. isso que dizeis é falso. Não há homem que o fizesse. 

— Ponde à prova! respondeu o italiano calmo e impassível. 

— Ele o fez... estou certo... balbuciou Bento Simões em voz sumida. 

— Não, retrucou Rui Soeiro; Satanás não o faria. Vamos, Loredano: confessai que nos enganastes, que quisestes atemorizar-nos? 

— Disse a verdade. 

— Mentes! gritou o aventureiro desesperado. 

O italiano sorriu: tirando a sua espada estendeu a mão sobre a cruz do punho, e disse lentamente deixando cair as palavras uma a uma: 

— Por esta cruz e pelo Cristo que nela sofreu; por minha honra neste mundo, e minha alma no outro, juro. 

Bento Simões caiu de joelhos esmagado por este juramento, que não deixava de ter alguma solenidade no meio da floresta sombria e silenciosa. 

Rui Soeiro, pálido, com os olhos a saltarem-lhe das órbitas, os lábios trêmulos, os cabelos eriçados e os dedos hirtos, parecia a múmia do desespero. 

Estendeu os braços para Loredano, e exclamou com a voz trêmula e sufocada: 

— Pois vós, Loredano, confiastes a D. Antônio de Mariz um papel onde existe a maquinação infernal que tramastes contra sua família? 

— Confiei-o! 

— E nesse papel escrevestes que o pretendeis assassinar a ele e a sua mulher, e lançar fogo à casa se preciso for para a realização de vossos intentos? 

— Escrevi tudo! 

— Tivestes o arrojo de confessar que tencionais roubar sua filha e fazer dela, nobre moça, a barregã de um aventureiro e réprobo como vós? 

— Sim! 

— E dissestes também, continuou Rui no auge da desesperação, que a outra sua filha nos pertencerá, a nós que jogaremos a sorte para decidir a qual deverá tocar? 

— Não me esqueci de nada, e menos desse ponto importante, respondeu o italiano com um sorriso; tudo isso está escrito em um pergaminho, nas mãos de D. Antônio de Mariz. Para sabê-lo, basta que o fidalgo rompa os pingos de cera preta com que mestre Garcia Ferreira, tabelião do Rio de Janeiro, o cerrou na minha penúltima viagem. 

Loredano pronunciou estas palavras com a maior calma, contemplando os dois aventureiros pálidos e humilhados diante dele. 

Passou-se algum tempo em silêncio. 

— Já vedes, disse o italiano, que estais na minha mão; sirva-vos isto de exemplo. Quando uma vez se pôs o pé sobre o precipício, amigos, é preciso caminhar por cima dele, para não rolar e ir ao fundo. Caminhemos pois. Só de uma coisa vos advirto;— de hoje em diante obediência cega e passiva! 

Os dois aventureiros não disseram palavra; porém a sua atitude respondia melhor do que mil protestos. 

— Agora deixai essa cara triste e consternada. Estou vivo: e D. Antônio é um verdadeiro fidalgo incapaz de abrir um testamento. Criai esperança, confiai em mim, que breve alcançaremos a meta. 

A fisionomia de Bento Simões reanimou-se. 

— Falai claro uma vez ao menos, retrucou Rui Soeiro. 

— Não aqui; segui-me, que vos levarei a um lugar onde conversaremos à vontade. 

(continua...)

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