Por José de Alencar (1862)
Na véspera era feliz. Estava numa brilhante reunião, onde se achavam talvez as mais bonitas senhoras do Rio de Janeiro. Observando-as com o culto do belo e a religião da mulher, que é inata em mim, conhecia que em graça e atrativos não tinha que invejar ao mortal ditoso a quem elas abandonassem um dia os primores de sua mocidade. Mais linda que todas, uma mulher me esperava, que em troca da pureza que não tinha, me guardava seus imensos tesouros de voluptuosidade; ela me esperava cheia de mim; e para não deixar-me um instante, me acompanhara de longe com os olhos através do mundo que fechara-lhe as suas portas.
Bastou uma palavra, um sentimento de convenção, para que o meu orgulho destruísse a felicidade que as suas mãos delicadas tinham tecido com tanta paciência e esmero. E como remate da minha demência, depois de haver torturado aquela pobre mulher, depois de a ter insultado covardemente, acabava de entregá-la a um velho histrião, para agarrar-me à fralda da primeira saia que passava pelo meu caminho. E eu considerava isto a minha vingança!
Como tinha razão o poeta que chamou o homem um menino corpulento — puer robustus!
XIV
Foi uma noite horrível.
O baile terminara às duas horas. Lúcia assistira até o fim, o que ainda mais me irritou, porque eu desejava triunfar com a sua saída precipitada, depois do desprezo que lhe mostrara. «Se ela se retirasse, pensava eu, correria à sua casa para pedir-lhe perdão». Mas não acredite que o fizesse: procederia com o mesmo orgulho estúpido que me dominou no momento em que ela despediu o Couto e renunciou ao baile para ficar comigo.
Na retirada o velho esperava-a na porta, e partiram ambos de carro.
— Está acabado! disse comigo. Não pensemos mais nisto.
Porém não era coisa fácil apagar no meu espírito a profunda impressão que aí deixara gravada a imagem de Lúcia. Tomei o braço do Rochinha, que encontrei ao sair, e fomos cear no primeiro hotel que encontramos aberto. Em qualquer outra ocasião esse moço me enjoaria com a sua afetada decrepitude moral; nesse momento era um homem que podia falar-me de Lúcia e dizer mal dela.
Com efeito o Rochinha contou-me diversas anedotas escandalosas da vida de Lúcia; e concluiu dizendo:
— Não acredito ainda que esse Diógenes do Couto seja seu amante.
— Ouvi-a confessar esta noite mesmo. Saíram juntos do baile.
— Pois admira-me; porque há muito tempo que ele a persegue debalde. Lúcia tinha-lhe tal birra, que no dia em que o via, ficava de um humor insuportável.
— São coisas que passam. O velho abriu os cordões da bolsa; e o motivo da antipatia desapareceu.
— Pode ser que ela esteja agora em crise financeira; mas asseguro-lhe que a questão não era de dinheiro, não. O Couto, como todos os velhos gamenhos que compram o amor, à hora certa, é mais que generoso, é pródigo; vi-o oferecer a Lúcia somas fabulosas que ela rejeitava sempre e com desprezo.
Essas palavras me consolaram. Uma débil esperança espontou-me no coração; corri à casa de Lúcia.
A porta ainda estava aberta; Lúcia não tinha voltado! eram perto de três horas e meia, naturalmente estava em casa do Couto.
Pus-me a passear na calçada; ao surdo rodar de um carro que passava longe, aplicava o ouvido para conhecer se ele se aproximava; o rumor se desvanecia e com ele minha esperança, para ressurgir de novo, e de novo extinguir-se. Nestas alternativas sem repouso vi os primeiros clarões do dia.
Dirigi-me tristemente para o hotel e dormi, porque a fadiga me vencia.
Eis qual tinha sido a minha noite; o acordar não foi menos cruel. Sucede com as feridas d'alma o mesmo que às feridas do corpo: é quando elas esfriam, que a dor se torna aguda e lancinante. Lembrei-me do que sucedera; repassei uma a uma as circunstâncias do dia anterior; reconheci a minha grosseira imbecilidade; e a consciência de que eu tinha sido o mais culpado, devia dizer o único, exacerbava o meu sofrimento.
E essa pobre moça, a Nina, inocente da minha loucura, que talvez por meu respeito perdera o seu amante? Era a primeira vez, desde que a deixara, que me recordava dela. Devia-lhe uma desculpa; e como não tinha outra coisa que fazer, aproveitei esse pretexto para sair.
Pensava, chegando à casa de Nina, encontrar um rosto fechado, um momo despeitado, e um bom-dia atirado da ponta de um beiço desdenhoso. Qual não foi portanto a minha surpresa vendo-a precipitar-se para mim, abraçar-me com ímpeto, e atirar-me de repente pela testa e pelo rosto uma chuva de carícias que me azoou.
Afinal consegui desprender-me dos braços que me enlaçavam; ia pedir uma explicação, quando Nina atalhou-me:
— Estou muito zangada com o senhor! disse com um ar que exprimia inteiramente o contrário. Fazer-me esperar até não sei que horas!
— Confesso que cometi uma falta; mas há de me desculpar.
— Ah! Cuida que a pulseira que me mandou paga o prazer de sua companhia!
Enganou-se!...
— A pulseira! balbuciei sem compreender.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)ALENCAR, José de. Lucíola. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2047 . Acesso em: 21 jan. 2026.