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#Romances#Literatura Brasileira

O Moço Loiro

Por Joaquim Manuel de Macedo (1845)

Esta é que é a casta de primos mais perigosa no seio de uma família do que um doente de sarampo ou bexigas.

Félix, a quem de antes conhecemos, pois que já o encontramos almoçando com a família de Venâncio, é um primo do primeiro gênero; perdido de amores por sua prima Rosinha, tem mais ciúmes dela do que uma criança do colo de sua mãe; Rosa, que o vê com olhos de quem quer casar, e que além disso é moça entendida em negócios diplomáticos, o julga um moço que, por falta de outro, lhe poderá servir para marido; e por conseqüência, segundo a tática, que em outras pode ser observada, nem o despede, nem se deixa dominar; trá-lo atrás de si, como o seu gatinho; se o vê exasperado e disposto a fugir-lhe, sorri-se para ele, e assim o amansa, e o faz beijar-lhe os ferros; se o observa muito altaneiro e confiado em sua constância, não olha para ele um dia inteiro, e o põe com o juízo em voltas, e a esperança em alarma. Já se vê, portanto, que Félix pertence ao número dos tolos de amor.

Pois ele não se quis fazer anunciar: com toda a sua perigosa liberdade de primo, entrou pé por pé para a sala; vendo aberto o piano, em que tantas vezes tocava a sua querida Rosinha, o foi beijando tecla por tecla... já tinha lambido metade do teclado, quando se lembrou de causar um susto à prima, que, no fervor da sua conversa com a vizinha, não o tinha ainda percebido; mas não tardou a mudar de resolução, e, encobrindo-se atrás de um aparador, dispôs-se a escutar o que diziam as duas.

— Mas, o meu pensamento, perguntava nesse instante a vizinha, isso é sempre assim?... — Sempre assim de três dias a esta parte!... foi há três dias a primeira vez que o vi, e desde então tanto eu o amo como minha mãe o mostra aborrecer.

— Amar há três dias?... pensou o ciumento do primo; há três dias viu ela Otávio no teatro?... mas como é que a mãe o detesta, e o manda convidar para o sarau?...

E prestou dobrada atenção.

— Mas por que tanto ódio, meu pensamento?...

— Porque diz que é indigno de mim, e que eu me não devo ocupar com ele; oh! isto já me aborrece!... talvez que em breve vá descansar.

— Sim!... estimarei bem.

— Sou capaz de, em menos de dois meses, estar casada com meu primo Félix.

— E ele que te há de amar tanto!

— Por certo; morre por mim.

— Disseram-me que é excessivamente ciumento.

— Sim... sim... mas embora; ainda quando lhe não tivesse amor algum casar-me-ia com ele, só para ver-me livre do mau gênio de minha mãe; ora... só o ódio que ela vota ao meu querido...

— A quem?... a teu primo?...

— Não: quando eu digo meu querido deves adivinhar que não é a meu primo que me refiro.

— Ah!... disse a vizinha de D. Rosa; porém, como ainda me não disseste o nome...

— É que o seu nome não tem nada com o amor que eu lhe tenho.

Félix começava a sentir-se cada vez mais curioso.

— Pois bem, começou D. Rosa, como te eu dizia, minha mãe vota-lhe um ódio de morte; diz que por causa dele não coso, não bordo, e não estudo piano há três dias.

— Que injustiça!...

— É verdade! então ele, que gosta tanto de me ouvir tocar!... uma vez, quando levanteime do piano, ele estava ao pé de mim, sem que eu saiba ainda como pôde entrar na sala; e sabes o que fez?... beijou-me a mão.

— Que amor! disse a amiga.

Félix já estava realmente incomodado.

— Aí está! não diria isso minha mãe; não sei por que o detesta; ainda ontem, depois de ralhar comigo e de amaldiçoá-lo, perguntou-me, afetando um sorriso irônico: “por que te não casas com ele?...

— Que mau gênio de senhora!...

— Ainda mais, a todo o momento o chama desenxabido e feio.

— Outra injustiça, não é assim, meu pensamento?...

— Sem dúvida; e respondo chamando o teu testemunho: dize, meu pensamento, serão feios aqueles olhos vivos e travessos, será feio aquele rosto redondo e branco?... serão feios aqueles pés tão pequeninos, e feias aquelas mãos tão finas e tão macias?... oh!... como deixar de amá-lo?...

— Bem se vê que tens toda a razão.

— Sim!... eu o amo... amo-o e muito! será um capricho, uma loucura; mas não posso passar sem ele... eu dou-lhe os meus sorrisos de dia e sonho com ele de noite!...

— Que paixão, meu pensamento!...

— E o mais é que eu entendo que tenho todo o direito de amar a quem bem me parecer...

— Eu também sou da sua opinião, meu pensamento: a vontade do cidadão é livre. — Pois não é assim?... não se fala tanto em direitos e garantias?... quanto a mim, o direito e a garantia da mulher é amar a quem lhe agradar.

— Apoiado! meu pensamento, apoiadíssimo.

— Por conseqüência, minha mãe não me pode coagir a não amar o meu querido.

— Não, decerto; isso seria uma suspensão de garantias...

— E, portanto, hei de amá-lo sempre, e cada vez mais...

— E fará muito bem.

— Quando vier tocar piano, deixarei a porta da sala aberta para que ele venha ouvir-me... e beijar-me a mão...

— Isso... isso...

— Em todas as tardes, enquanto a minha mãe dormir a sesta, eu e ele havemos de comer, no mesmo prato, do melhor doce que tivermos em casa...

— Assim, assim, meu pensamento.

(continua...)

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