Por Joaquim Manuel de Macedo (1878)
Dois anos depois, em 1818, a Rua do Ouvidor fez muda, mas patente a confissão de exiguidade de recursos, não se tornando distinta, nem mencionada nos extraordinários espetáculos e festejos dados em honra da coroação do Rei D. João VI e de propósito demorados para o ensejo do casamento do Príncipe D. Pedro no mesmo ano celebrado.
As festas duraram três dias, e além do mais que houve, e que foi muito, produziu singular efeito, o espetáculo dos imensos e estupendos carros que se ostentaram no circo preparado no Campo de Santana, atual Praça da Aclamação.
O corpo do comércio apresentou o soberbo carro de Triunfo à Romana.
Os latoeiros e caldeireiros disputaram primazia com o seu pomposo carro da América.
Os ourives celebraram-se com o carro Triunfo do Rio de Janeiro.
Os marceneiros, carpinteiros e pedreiros distinguiram-se com seu muito aplaudido carro Emblemático.
Os alfaiates e sapateiros excederam a expectativa geral com o seu descomunal carro da Barra do Rio de Janeiro.
Ora, esses carros assinalavam (pelo menos alguns) ruas distintas; por exemplo: o dos ourives a rua do mesmo nome: o dos latoeiros e caldeireiros as dos Latoeiros, da Alfândega, etc.
E a Rua do Ouvidor ainda era tão pobre ou tão bisonha, que não fez farofa nas festas de 1818, e nem mesmo consta que fosse a elas em sege de aluguel!..
Mas era tempo!...
A carta de lei de 16 de dezembro de 1816, elevando o Brasil a reino, foi considerada de tanta importância política, que o príncipe regente D. João a fez solenemente comunicar aos governos das grandes potências da Europa, recebendo em resposta felicitações e aplausos.
Na cidade do Rio de Janeiro o corpo do comércio lembrou-se, bem inspiradamente, de festejar a elevação do Brasil a reino, oferecendo ao príncipe regente o produto de espontânea e avultada subscrição pecuniária para se fundar um instituto de artes e ciências na capital do novo reino e então da monarquia portuguesa.
O príncipe regente aceitou o oferecimento e determinou a fundação de uma escola real de ciências, artes e ofícios na cidade do Rio de Janeiro.
Escala de ciências, artes e ofícios era universo a criar; mas ainda bem que, embora as ciências e os ofícios ficassem de lado, vingaram as artes, pois que a subscrição do comércio e a deliberação do príncipe regente teceram o abençoado berço da nossa já gloriosa Academia das Belas-Artes, mãe de Porto Alegre, de Vitor Meireles, de Pedro Américo e de outras justificadíssimas ufanias do Brasil.
Mas em 1815 firmara-se no congresso diplomático de Viena a paz geral da Europa, e a França de Luís XVIII, tornada potência amiga, teve também abertos os portos do Brasil para o seu comércio.
Entretanto os franceses ainda abatidos pela guerra, pela opressão dos vitoriosos invasores do seu opulento e arruinado país, e pelos trabalhos de sua regeneração econômica, nem se lembravam talvez do Brasil.
Todavia tratando-se no Rio de Janeiro do Instituto das Artes, como a França gozasse fama de florescente em Belas-Artes, o Príncipe Regente, e logo Rei D. João VI, mandou engajar escolhidos mestres franceses, pequena que foi grande colônia de artistas pelo merecimento real e provado de alguns deles.
A 26 de março de 1816 chegaram esses artistas ao Rio de Janeiro, sendo os primeiros franceses que vieram estabelecer-se no Brasil depois da paz geral da Europa e dos tratados de Viena d'Áustria em 181S.
Os franceses entraram pois com o pé direito e três vezes com o pé direito no Rio de Janeiro.
Entraram pelas portas da paz.
Entraram trazendo por vanguarda célebre colônia dos artistas enobrecidos pelo seu merecimento.
Entraram amigos quando ainda fervia o entusiasmo pela elevação do Principado do Brasil à categoria de Reino.
Entraram, portanto, em regra, e três vezes com o pé direito.
Todavia a Rua do Ouvidor ainda teve de esperar cerca de cinco ou seis anos o começo de sua época de florescimento e de glória, e para mim a razão é muito simples.
Não foi de francesas, foi de franceses a colônia artística que chegou ao Rio de Janeiro a 26 de março de 1816, e não era a palheta do pintor, nem o buril do estatuário, era somente a tesoura das modistas que havia de levantar o monumento da Rua do Ouvidor.
Também não me consta que algum daqueles artistas fosse morar à Rua do Ouvidor; e que nela se estabelecessem alguns franceses negociantes que quase logo os seguiram, e que abriram de preferência na Rua Direita lojas de louça fina, de ornamentos de salas e de objetos de fantasia.
Eu ia fazer ponto final, quando lembrei que escrevi todo histórico e positivo este capítulo IX das Memórias da Rua do Ouvidor; e tão positivo e tão sério que me parece que ficou medonho.
Pois bem, vou pôr-lhe um ligeiro apêndice embora estranho à Rua do Ouvidor; dando, porém, notícia (hoje de poucos sabidas) da primeira francesa que teve certa nomeada na cidade do Rio de Janeiro.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)MACEDO, Joaquim Manuel de. Memórias da Rua do Ouvidor. Rio de Janeiro: [s.n.], 1878. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7544 . Acesso em: 4 jan. 2026.