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#Romances#Literatura Brasileira

A Moreninha

Por Joaquim Manuel de Macedo (1844)

— Pela minha parte não diga nada, assobiou d. Gabriela mirando-se no espelho; mas enfim… eu não sei se sou bonita, mas, onde quer que eu esteja, vejome sempre cercada de adoradores: hoje, por exemplo, tenho-me visto doida... perseguiram-me constantemente seis... era impossível ter tempo de mangar com todos a preceito.

— Mas, d. Gabriela, onde está o seu talento?...

— Pois bem, que se ponha outra no meu lugar.

— Alguns homens zombariam de doze de nós outras a um tempo... Houve já um que não teve vergonha de escrever isto em um papel:

Num dia, numa hora,

No mesmo lugar

Eu gosto de amar

Quarenta,

Cinqüenta,

Sessenta:

Se mil forem belas,

Amo a todas elas.

— Que pateta!

— Que tolo!...

— Que vaidoso!

— Essa opinião segue também o Augusto!

— Oh!... e esse paspalhão!...

Ei-las comigo... murmurou entre os dentes o nosso estudante, estendendo o pescoço a modo de cágado.

— Como lhe fica mal aquela cabeleira!... Assemelha-se muito a uma preguiça.

— Tem as pernas tortas.

— Eu creio que ele é corcunda.

— Não aquilo é magreza.

— Forte impertinente! Falando, é um Lucas...

— Há de ser interessante dançando!

— Vamos nós tomá-lo à nossa conta?

— Vamos; pensemos nos meios de zombar dele cruelmente... Pois pensemos...

Mas elas não tiveram tempo de pensar, porque, nesse momento, ouviu-se um grito de dor, ao qual seguiu-se viva agitação no interior daquela casa, onde ainda há pouco só se respirava prazer e delícias. As quatro moças levantaram-se espantadas.

— Pareceu-me a voz de minha prima Carolina, exclamou d. Joaninha.

— Coitada! Que lhe sucederia?...

— Vamos ver.

As quatro moças correram precipitadamente para fora do quarto.

Augusto, que não estava menos assustado, saiu do seu esconderijo, vestiu-se apressadamente e ia, por sua vez, deixar aquele lugar, em que se vira em tantos apuros, quando deu com os olhos na carta do sr. Joãozinho, que, com a pressa e agitação, havia d. Gabriela deixado cair.

O estudante apanhou e guardou aquele interessante papel, e com prontidão e cuidado pôde, sem ser visto, escapar-se do gabinete.

Um instante depois foi cuidadoso procurar saber a causa do rumor que ouvira. O grito de dor tinha sido, com efeito, soltado por d. Carolina.

CAPÍTULO XIII

Os quatro em conferência

Ninguém se arreceie pela nossa travessa, O grito de dor foi, na verdade, seu; mas, se alguém corre perigo, não é certamente ela. O caso é simples.

Morava com a sra. d. Ana uma pobre mulher, por nome Paula muito estimada de todos, porque o era da despotazinha daquela ilha, de d. Carolina, a quem tinha servido de ama. Os desvelos e incômodos que tivera na criação da menina lhe eram sobejamente pagos pela gratidão e ternura da moça.

Ora, todos se tinham ido para o jardim logo depois do jantar mas o nosso amigo Keblerc achara justo e prudente deixar-se ficar fazendo honra à meia dúzia de lindas garrafas das quais se achava ternamente enamorado: contudo ele pensava que seria mais feliz se deparasse com um companheiro que o ajudasse a requestar aquelas belezas: era um amante sem zelos. Por infelicidade de Paula, o alemão a lobrigou a entrar num quarto. Chamou-a, obrigou-a a sentar-se junto de si, mostrou por ela o mais vivo interesse e depois convidou-a a beber à saúde de seu pai e sua mãe e sua família.

Não havia remédio senão corresponder a brindes tão obrigativos. Depois não houve ninguém no mundo a quem Keblerc não julgasse dever com a sua meiga língua dirigir uma saúde, e, como já estivesse um pouco impertinente, forçava Paula a virar copos cheios. Passado algum tempo, e muito naturalmente, Paula se foi tornando alegrezinha e por sua vez desafiava Keblerc a fazer novos brindes: em resultado, as suas garrafas foram-se. Paula deixou-se ficar sentada risonha e imóvel, junto à mesa, enquanto o alemão, rubicundo e reluzente se dirigiu para a sala.

Quando daí a pouco a ama de d. Carolina quis levantar-se, pareceu-lhe que estava uma nuvem diante dos olhos, que os copos dançavam, que havia duas mesas, duas salas e tudo em dobro; ergueu-se e sentiu que as paredes andavamlhe à roda, que o assoalho abaixava-se e levantava-se debaixo dos seus pés; depois... não pôde dar mais que dois passos, cambaleou e, acreditando sentar-se numa cadeira, caiu com estrondo contra uma porta. Logo confusão e movimento... Ninguém ousou pensar que Paula, sempre sóbria e inimiga de espíritos, se tivesse deixado embriagar, e, por isso, correram alguns escravos para o jardim, gritando que Paula acabava de ter um ataque.

A primeira pessoa que entrou em casa foi d. Carolina que, vendo a infeliz mulher estirada no assoalho, caiu sobre ela, exclamando com força:

— Oh, minha mãe!... Foi este o seu grito de dor.

Momentos depois, Paula se achava deitada numa boa cama e rodeada por toda a família; porém havia algazarra tal, que mal se entendia uma palavra.

— Isto foi o jantar que lhe deu na fraqueza, gritou uma avelhantada matrona, que se supunha com muito jeito para medicina; é fraqueza complicada com o tempo frio… não vale nada... venha um copo de vinho!

(continua...)

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