Por Joaquim Manuel de Macedo (1869)
No sétimo dia de tratamento o doutor logo que entrou acompanhado dos meus três adoráveis e estremecidos parentes, despediu as malditas sentinelas, declarou que não eram necessárias e que pelo contrário deveriam ter sido dispensadas desde o segundo dia.
Ficamos no quarto, o doutor, o mano Américo, a tia Domingas, a prima Anica e eu.
—Ora pois! disse o médico, dirigindo-se a mim, o senhor esta bom, e hoje venho despedir-me do seu tratamento.
Desfiz-me em agradecimentos, que me saíram do coração.
—Muito bem, tornou ele; quero por em prova imediata a sua gratidão.
—Que quer de mim? mande, doutor.
—Todos falam da sua luneta mágica; o senhor pretende que por meio dela pode ler no livro intimo dos sentimentos dos homens: é isto verdade?
—f: verdade, doutor.
—Otimamente; eu duvido de tudo isso e quero que dissipe as minhas dúvidas: dá-me palavra de honra que há de dizer em alta voz tudo quanto ler e encontrar nos arcanos da minha alma, fixando em mim sua luneta?
—Doutor!
—Eu o exijo.
—Oh! não!... eu lhe devo muito...
—Eu o exijo. Dá-me palavra de honra?...
—Dou-lha; é a pesar meu; mas dou-lha.
—Fite pois em mim a sua luneta: ela! venha a experiência.
Com ímpetos de curiosidade, talvez de insensata saudade da visão do mal, tremendo porém de grato medo, fixei a luneta mágica no rosto do médico, que imóvel e inabalável se deixou observar. Vi e fui dizendo o que via.
—Cabelos castanhos e crespos, fronte soberba, olhos pequenos, mas brilhantes e incisivos no olhar, nariz aquilino, faces pálidas, lábios grossos e eróticos, pouca barba, mãos finas e delicadas, corpo bem feito, e... oh!...
—Que é isso?...
—A visão do mal!... exclamei.
—Venha ela!
—Não! não! não!
—Deu-me a sua palavra de honra: cumpra-a!
—Não!
—Eu o exijo.
Obedeci e falei tremendo e a pesar meu.
—Bela inteligência, e estudo profundo desvirtuados pela ambição do ganho, e pelo embotamento da sensibilidade! O senhor desperta à meia-noite ao chamado anelante de um pobre, cuja esposa lhe dizem que agoniza, e responde friamente: "procurem outro médico: se a mulher agoniza, não vou lá"; e conchegando ao corpo os lençóis, dorme sem remorsos; o senhor faz pacto de aliança com as moléstias dos ricos que pagam, prolonga os tratamentos para multiplicar as visitas, e dobrar os lucros... o senhor é materialista e incrédulo, não admite alma, espírito ri da vida eterna, admira o acaso, e não reconhece Deus, criador do universo, criador do homem, Deus do castigo do mau que não se arrepende, Deus do perdão do pecador contrito!... O senhor é o homem da Inteligência, raio do céu, e da ciência Incompleta, vaidosa e corrompida da terra! O senhor é uma fonte de erros e de abominações, o senhor é perverso!...
O médico desatou em estrondosas gargalhadas, talvez para disfarçar a confusão em que sem dúvida ficara, e saiu do quarto, rindo-se cada vez mais estrepitosamente em seguimento de meu Irmão, de minha tia e de minha prima que fugiram espantados do testemunho tremendo da visão do mal.
XLVI
A luneta mágica tinha caído no meu colo e eu me abismei mais tristes reflexões.
Ainda um desengano, o ultimo! O doutor que fora tão bom, tão leal para comigo, que se me afigurara tão escrupuloso no tratamento da minha moléstia, que com tanto acerto combatera, o médico que usando da sua autoridade proibira que empregassem a menor violência para me arrancarem a minha luneta, esse homem que eu quisera que fosse uma exceção entre os homens, era como os outros e mais do que muitos outros, Indigno da minha estima pelo seu ruim caráter.
Os seus escrupulosos cuidados tinham tido por fim demorar a cura para ganhar mais dinheiro!
. . .
A defesa da minha luneta fora devida à incredulidade materialista, que o levava até o selvagem extremo de negar a existência do espírito que anima o homem, e de Deus sempiterno e onipotente!...
Isso porém não me espantou: afligiu-me, aflige-me; mas eu já estava preparado para o desengano cruel; a meu despeito, a despeito dos impulsos da gratidão, eu já desconfiava do médico.
O que me preocupa agora, o que me atormenta é a negridão do meu futuro, e a incerteza terrível dos tormentos que me esperam.
Que será de mim?... que vou eu sofrer?... por que provações vou passar?...
XLVII
Não posso mais ser feliz: é impossível.
Aborreço a todos, e todos me aborrecem.
Sou um contra todos, a sociedade toda está em guerra aberta contra mim. Não pode haver luta, vou sucumbir; cairei ao primeiro golpe.
O grito do primeiro garoto, a pedrada do primeiro menino malcriado será o anúncio do meu sacrifício
A voz geral brada que estou doido.
O médico que me tratou protesta que não estou doido; mas confessa que estou maníaco. A distinção não me salva.
Ficarei para sempre fechado neste quarto, ou, se aparecer na rua, gritarão mil vozes: "o doido! o doido!''
E arrastarão o doido para o hospício dos alienados...
E me arrancarão à força a minha luneta mágica, e hão de quebrá-la, destruir o poder da visão do mal!...
Oh! é horrível esta situação.
XLVIII
E de que me serve mais esta luneta fatal?...
(continua...)
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