Por Euclides da Cunha (1909)
Abriram-se caminhos demandando a opulenta zona fluvial; planearam-se, a despeito de sucessivos malogros, colônias militares e agrícolas, reatou-se, na revivescência das missões apostólicas, a tradição admirável dos jesuítas de Maynas; engenhou-se uma vasta regulamentação de terras; construiu-se o Pôrto de Iquitos, e, para aviventar-se o povoamento, aboliram-se todos os impostos, agindo o homem aforradamente na terra feracíssima. Ao mesmo tempo as expedições geográficas, iniciadas em 1834 por P. Beltran e W. Smith, em que tanto se ilustraram depois F. de Castelnau, Faustino Maldonado, A. Raimondi, John Tucker e hoje G. Stiglich, rumaram a todos os quadrantes, ininterruptas e pertinazes, na tarefa complexa que era uma espécie de levantamento expedito de uma nova pátria.
Aos caudilhos irrequietos contrapuseram-se os exploradores tranqüilos. No litoral revolto pelas sedições e guerrilhas sistematizava-se a incapacidade crônica dos governos revolucionários, e, derrancados os melhores estímulos da recente campanha pela liberdade, os bravos salteadores do poder desmandavam-se num militarismo pernicioso que ali, como em toda parte, era a fraqueza irritável da nação enferma. Nos desertos floridos da montaña ao arrepio ou à feição dos rios ignorados, remoinhando nos giros estonteantes das muyunas, canoas despedidas, de frecha, nas correntadas céleres dos pongos, ou embatendo nas travancas abruptas das cachoeiras - os geógrafos, os prefeitos e os missionários demarcavam novos cenários à pátria regenerada e, apurando em tirocínio de perigos os mais nobres atributos da sua raça, reconstruíram o caráter nacional que se abatera, e davam àqueles rumos, secamente definidos por traçados geométricos, um prolongamento inesperado na História.
Porque o problema do Oriente, afinal, incluía nas suas numerosas incógnitas os destinos do Peru inteiro.
Reconheciam-nos os próprios caudilhos esmaniados. Não raro no estavanado e vacilante de seus atos, entre dois fuzilamentos ou entre dois combates, acertavam de considerar por momentos as paragens insistentemente aneladas, e muito deles, de golpe, transfiguravam-se patenteando lúcidos descortinos de estadistas.
A este propósito poderiam citar-se numerosos casos delatadores da política bifronte, do mesmo passo reconstituinte e demolidora, que com o rigorismo de um decalque retrata na ordem moral do Peru o contraste físico entre o Ocidente obscurecido, onde as energias se quebrantam malignadas pela história emocional epidêmica dos pronunciamentos - e o Levante resplandecente, onde alvorecem as esperanças renascidas.
Aponte-se um exemplo.
Em 1841 a República estava a pique das maiores catástrofes. Imperava D. Agustín Gamarra. Aquele zambo cesariano refletia nos atos tumultuários os desequilíbrios de seu temperamento instável, de mestiço, ferrotoado dos temores e das impaciências de um prestígio improvisado, à ventura, nos sobressaltos das guerrilhas.
O seu governo — governo de quem inaugurou no Peru o regime das deposições apeando o virtuodo La Mar — foi naturalmente agitadíssimo. O restaurador imposto pelas armas dos chilenos, de Bulnes, sobre os destroços da efêmera confederação perúvio-boliviana, assediado pelas ambições contrariadas, pelas exigências dos condutícios incontestáveis e pelas ameaças dos conspiradores recidivos, tonteava na vertigem daquela eminência, onde chegara desprendendo-se da parceria dos cholos e pisoando todos os melindres aristocráticos da terra que sobre todas herdara a sobranceria tradicional da Espanha. Nas conjunturas prementes dependeu-lhe, por vezes, a fortuna, até do gesto de uma mulher - a sua própria esposa, amazona gentilmente heróica, que não raro travando de uma espada e precipitando-se, à espora feita, a cavalo, pelo campo das manobras ou no mais aceso dos combates, ia eletrizar com a presença encantadora os coronéis embevecidos e os regimentos vacilantes...
Assim não se poderiam exigir à vida em tanta maneira perturbada e romântica, daquele presidente, ponderosas medidas administrativas. Acompanhamo-la apenas com o interesse artístico de quem segue a urdidura de imaginosa novela sulcada de episódios alarmantes, ou dramáticos, até desfechar no sacrifício, inútil e glorioso, do protagonista, sucumbindo sob uma carga furiosa dos lanceiros bolivianos nas esplanadas de Viacho...
Mas no volver de uma das páginas salteia-nos esta surpresa:
"El cidadão Agustín Gamarra — Gran mariscal restaurador del Perú, benemérito a la patria in grado heróico y eminente, etc.
"Considerando que para promover la navigación por vapor en el rio de Amazonas y sus confluentes és necessário proporcionar facilidades y ventagens que indemnicen a los empresários...
"Decreta: 1º Se concebe al ciudadano brasileiro D. Antonio Marcelino Pereira Ribeiro el privilegio exclusivo de navegar por buques de vapor en el rio Amazonas, en la parte que corresponde al Perú e todos sus afluentes.
"... 3º Los buques de vapor levarón el pabellón brasileiro...
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)CUNHA, Euclides da. À Margem da História. 1909. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16624. Acesso em: 17 jun. 2026.