Por Adolfo Caminha (1895)
Aleixo não disse que sim nem que não. Espreguiçou-se todo, contorcendo-se num espasmo incompleto, sentindo um friozinho bem, extraordinariamente bom, uma comoçãozinha maravilhosa percorrer-lhe as fibras, descendo pelo espinhaço e espalhando-se por todo o organismo.
A portuguesa foi depressa lá cima, ao sobrado, e voltou, sem demora, com a face radiante.
Quis ela mesma despir o rapaz, tirar-lhe a camisa de meia, tirar-lhe as calças, pô-lo nu a seus olhos. Bom-Crioulo já lhe havia dito que Aleixo “tinha formas de mulher”.
Depois começou a se despir também...
O tanque estava cheio a transbordar. Via-se-lhe o fundo claro através da água límpida e fresca.
Ninguém os via naquela nudez primitiva, frente a frente — o corpo largo e mole da portuguesa em contraste com as formas ideais e rijas do efebo —, escandalosamente nus, pecadoramente bíblicos no silêncio do quintalejo ao abrigo do sol que vibrava em torno do pequeno alpendre a sua luz de ouro fulvo!
O que eles fizeram, antes e depois do banho, ninguém saberá nunca. Os muros do quintal abafaram toda essa misteriosa cena de erotismo consumada ali por trás da Rua da Misericórdia num belíssimo dia de novembro.
D. Carolina realizara, enfim, o seu desejo, a sua ambição de mulher gasta: possuir um amante novo, mocinho, imberbe, com uma ponta de ingenuidade a ruborizar-lhe a face, um amante quase ideal, que fosse para ela o que um animal de estima é para o seu dono — leal, sincero, dedicado até ao sacrifício.
Aleixo remoçava-a como um elixir estranho, milagrosamente afrodisíaco. Sentia-se outra depois que se metera com o pequerrucho: retesavam-se-lhe os nervos, abria-se-lhe o apetite, entrava-lhe n’alma uma extraordinária alegria de noiva em plena lua-de-mel, toda ela vibrava numa festiva exuberância de vida, numa eclosão torrencial de felicidade — o corpo leve, o espírito calmo... Aleixo pertencialhe, enfim; era seu, completamente seu; ela o tinha agora preso como um belo pássaro que se deixasse engaiolar; tinha-lhe ensinado segredinho de amor, e ele gostara imenso, e jurara nunca mais abandoná-la, nunca mais!
O grumete, por sua vez, experimentava o que experimentaria qualquer adolescente — uma tendência fatal para a portuguesa, um forte desejo de possuí-la sempre, sempre, a toda hora, uma vontade irresistível de morde-la, de cheira-la, de palpa-la num frenesi de gozo, num grande ímpeto selvagem de novilho insaciável.
A tarde passou rapidamente. Depois do jantar (sopa, cozido e bananas de S. Tomé, fora o vinho fornecido pelo açougueiro) dirigiram-se à sala da frente. Aleixo quis ver o álbum de retratos; a portuguesa trouxe-lho. E sentado no velho sofá, num quase abraço — ele muito curioso, desejando saber de quem eram as fotografias, ela meio derreada, o cabelo úmido e solto, explicando minuciosamente cada figura, paisagens da Europa, trechos de Portugal e das ilhas —, esperaram a noite.
Escureceu. D. Carolina foi acender o bico de gás, queixando-se do calor, “que a sua vontade era não sair d’água, viver dentro d’água, morrer n’água, flutuando...”
Aleixo riu, achou graça, lembrando-se, talvez, da semelhança que havia entre a portuguesa e uma grande corveta bojuda...
— Ora, dize uma cousa, ó pequerrucho, tu me queres bem mesmo ou isso é uma esquisitice, uma pândega?
E risonha, sentando-se:
— Mas olha, dize a verdade! Vê lá me vens com história...
Ele então disse que estimava-a do fundo do coração e tornou a jurar que havia de morrer junto dela, na mesma cama — juntinho, lado a lado...
— E se morreres a bordo, no mar?
— Paciência, murmurou o grumete num tom de tristeza.
Mas, arrependida, ela o cobriu de beijos:
— Não, ele não morreria no mar. Brincadeira, brincadeira...
Havia no rosto imberbe e liso do grumete uns tons fugitivos de ternura virginal, o quer que era breve e delicado, a branca melancolia de certas flores, o recolhimento ingênuo e discreto de uma educanda; e era isso justamente, esse quê indefinível, essa poesia inocente derramada no semblante de Aleixo, que provocava a portuguesa, ferindo a corda sensível do seu coração abandonado e gasto. Era uma pena, decerto, ver aquele rosto de mulher, aquelas formas de mulher, aquela estatuazinha de mármore, entregue às mãos grosseiras de um marinheiro, de um negro... Muita vez o pequeno fora seduzido, arrastado. Ela até fazia um benefício, uma obra de caridade... Aquilo com o outro, afinal, era uma grossa patifaria, uma bandalheira, um pecado, um crime! Se Aleixo havia de se desgraçar nas unhas do negro, era melhor que ela, uma mulher, o salvasse. Lucravam ambos, ele e ela...
Mas Aleixo não podia esquecer Bom-Crioulo. A figura do negro
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)CAMINHA, Adolfo. Bom-crioulo. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16513 . Acesso em: 27 mar. 2026.