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#Romances#Literatura Brasileira

O Missionário

Por Inglês de Sousa (1891)

Padre Antônio desceu do púlpito, e pôs-se a andar às pressas para casa, suado, rubro, cansado, mas feliz, convencido de que possuía a alma daquela gente para todo o sempre. Para que o encontro com alguém não o forçasse a despir a fria e severa atitude com que descera do púlpito, correu a encerrar-se no seu quarto, donde não saiu todo o dia, recusando-se a receber as pessoas principais da terra que o vinham felicitar pelo esplêndido sermão que proferira.

Macário saiu da igreja radiante de entusiasmo e de amor-próprio. Sim, senhores, aquele macavelismo tinha sido bem achado, a surpresa do povo fora completa, o triunfo seria certo. E a cara do Mendes da Fonseca, e o desapontamento do Mapa-Múndi e do Costa e Silva, e a zanga do professor Aníbal Brasileiro, que se fora embora, em meio do sermão, aborrecido por ter faltado ao juramento que fizera! À porta da Matriz, satisfeito, sentindo no peito o orgulho do pai que ouve os aplausos ao filho vitorioso, Macário andou de grupo em grupo, e depois saiu pelas ruas, de loja em loja, sondando, provocando e dirigindo a opinião:

— Que tal esteve o sermão, hein? Já se ouviu em Silves uma coisa assim? — Padre Antônio é ou não um pregador digno da catedral do Pará?

E respondia, ele próprio, que a vila devia orgulhar-se de ter um vigário que, além de ser um padre modelo, casto e sério até ali, dispunha dum talento oratório capaz de meter inveja a todos os padres do Amazonas. Ele aconselhara a S. Rev.ma a aproveitar aquele dia para o sermão, que ninguém esperava, mas cujo tema o Macário conhecia desde a véspera, pois fora combinado entre os dois, às oito horas da noite, na sala de jantar.

E corria as ruas, falando às janelas, onde as senhoras passavam aquele domingo perfumado e alegre:

— Gostou do sermão, D. Cirila? Que tal, D. Dinildes? Que me diz a isto, D. Prudência?

Aos homens perguntava o que mais lhe agradara em toda a oração, se o princípio, o meio ou o fim. Indagava: Gostou daquela chamada de judeus, seu capitão Fonseca? E quando ele falou da eternidade, hein, seu Costa e Silva? E quando ele, no princípio, falou nas ovelhas do Senhor que abandonam o serviço de Deus para irem para os castanhais apanhar castanhas e fazer porcarias?!

O sermão agradara geralmente, e agora, cá fora, na calma da recordação, os homens elogiavam-no. Alguns faziam observações ligeiras.

À noite era o baile em casa do Bernardino Santana para festejar o casamento do filho. Ao sair da igreja o Cazuza Bernardino dissera ao sacristão, amavelmente:

— Olhe lá, seu Macário sacristão, não farte. Vá espiar um mocadinho o baile.

E o sacristão fora, de rodaque de alpaca, porque a sobrecasaca de lustrina reservava-a para as grandes solenidades do dia. Padre Antônio ficara encerrado no quarto, lendo ou meditando.

A casa do Bernardino Santana estava toda iluminada com lampiões de querosene, e cheia de gente. Estava ali toda a sociedade seleta da vila, não faltava uma só pessoa grada. Vinham uns pelo Neves Barriga, presidente da Câmara, homem bom, que vivia fartamente no sítio de Urubus, sem inimigos. Outros vinham pelo Bernardino que tinha lá a sua importância. Os rapazes acudiam ao convite do Cazuza, que, apesar de tenente, era um bom rapaz, muito pândego. A sala, pequena, clara e florida, estava cheia de senhoras, e pelo corredor, pelas alcovas, transformadas em gabinetes e pequenos salões, pela sala de jantar, e até pelo copiar da cozinha, os convidados espa1havam-se, fumando, bebendo, conversando, passeando, uns sérios e sisudos, sentindo o peso da sobrecasaca sobre os ombros acostumados à liberdade do rodaque branco, outros, alegres, joviais, querendo desforçar-se naquela noite de festa dos longos dias sensaborões da vida sertaneja. As senhoras novas, sentadas nas cadeiras e canapés alinhados na sala, vestidas de claro, coradas de emoção, tinham os olhos em alvo. Pelos cantos as velhas negrejavam, cochichando. Um calor forte, impregnado do cheiro acre de petróleo, de suor, do perfume de patchuli e manjerona, vinha da sala e assaltava a garganta dos recém-vindos. Um pó sutil levantava-se do pavimento recentemente varrido. A sala, nua, espaçosa, posto que pequena, tinha um ar alegre de festa, com as paredes brancas, as telhas vermelhas a descoberto, o chão de ladrilho, e os vestidos claros, enfeitados e engomados das senhoras.

(continua...)

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