Por Domingos Olímpio (1903)
Surgia no horizonte o Cruzeiro rutilante, reclinado nos coxins nebulosos da Via-Láctea e a bafagem morna da madrugada parecia o arfar da terra extenuada, sucumbida de cansaço, quando, interrompendo a conversa, as duas se entreolharam espantadas: tinham percebido algo de suspeito, estalidos de galhos secos, rumor de passos precavidos, vozes abafadas, sumidas, muito perto da casa, na direção das touceiras de mandacarus que defendiam, com intransponível cerca de espinhos, o pequeno quintal abandonado.
— Ouviu? - perguntou Luzia.
— É talvez – respondeu Teresinha, que escutava atenta – o barulho do terral nos galhos, algum animal roendo o mandacaru.
— Não é a primeira vez que ouço esses passos furtados, fora de horas, ali pela cerca e no terreiro... Parece que alguém nos espia.
— Tens medo, fracalhona?...
— Não tenho medo, não; mas é melhor irmos lá para dentro. — Pois sim. Não se me dava de ver o que é.
Recolheram ao quarto. Luzia abeirou-se da rede onde, encolhida como uma criança, a velha ressonava tranqüila. Teresinha ficou a espreitar, cozida à porta entreaberta em estreita fenda; com um aceno de alvoroço, chamou a outra, e viram, ao lusco-fusco, um grupo.
— Parece que são soldados – observou-lhe Teresinha. — Talvez a ronda... – balbuciou Luzia.
Não: são dois homens e uma mulher. Espera... Olha: estão conversando... Então, muito juntas e apavoradas, ouviram:
— Eu não dizia que estão dormindo?!...
— Qual – teimou uma voz feminina – estão acordadas. Juro que ouvi, ainda agorinha, falação de gente no alpendre...
— Também ouvi – afirmou outra voz mais clara e forte - Deixemos de histórias. É melhor não teimar. Elas botam a boca no mundo e estamos perdidos... Nada. Aquilo, aquela bruta, não é mulher de brincadeira...
O conselho foi aceito pelo grupo, que se esgueirou sorrateiro, apressadamente.
— O diabo roncou-lhe na tripa – disse Teresinha triunfante, mostrando a Luzia, a lâmina nua do grande canivete de mola Era tocarem na porta, eu fisgar logo um deles, para não ser atrevido.
— Parece que ouvi a voz de Crapiúna.
— Pode ser; mas não estava fardado. Só queria saber quem foi a safada que veio com eles...
— Que intenções teriam? Olha, Teresinha, não é a primeira vez que ouço esses passos suspeitos. Há muito tempo, desconfio que andam rondando a nossa casa.
— Também ouvi, mas não imaginei que fosse gente. Não maldei nada.
— São capazes de tudo.
— Lá isso é verdade.
— Várias noites, Crapiúna e Belota andaram a cantar fora de horas, aqui por perto...
— Só me dá que pensar a mulher... Será possível que viessem botar feitiço? E... não é outra coisa; é mandinga...
— Outro dia, quando abri a porta de manhã cedo, topei, mesmo na soleira, um saquinho com penas de galinha pretas arrepiadas...
— E não o abriu para ver o que continha?...
— Deus me livre. Eu não. Tive nojo e varri tudo com o cisco para dentro daquele buraco, cheio de carrapateiras e que foi barreiro.
— Pois eu não resistia. Havia de revistar tudo, pegasse-me, embora, o malefício.
— E você acredita nisso?...
— Não sei o que é, se feitiço ou obra do cão; mas, tenho visto casos de pôr tonto o juízo da gente. Há malefício para abrandar coração, curar ciúmes e até para produzir moléstias. Lá em casa havia um velho, que curava bicheiros dos bezerros pelo rasto...
— Abusões...
— Busões?!... Conheci um moço que foi enfeitiçado por uma rapariga, embelezada por ele. A criatura, de repente, ficou toda torta, como se lhe desse o ar... Ave-Maria; foi murchando, secando até ficar pele e osso. Parecia mais um defunto em pé, que gente viva. Desenganado de remédios de botica, foi se receitar ao padre João Crisóstomo; chupou chave de sacrário do Santíssimo, mandou fazer orações fortes... Foi bobagem... A felicidade dele foi topar uma cigana, que lhe deu contra-feitiço, uns poses para beber com leite de peito... Santo remédio, menina! ...
Uma coisa é ver outra é dizer, como ele se levantou, já tendo os pés na cova.
— Bem, fecha a porta e vamos dormir que é quase de madrugada.
— É mesmo... E eu que estou moída... Parece que levei uma surra...
Fechada a porta com precaução para não despertar a doente, Teresinha despiu-se rapidamente; coçou o vinco do cordão das saias na cintura; enrolou, espreguiçando-se, em gestos felinos, os cabelos; persignou-se e derreou-se na esteira.
Lentas passaram as horas para Luzia, sentada na rede, estremecendo ao menor ruído do vento nas folhas da latada, e aguardando, ansiosa, o quebrar das barras, com os primeiros fulgores da aurora. Seu olhar compassivo flutuava entre a doente, a moça adormecida e a candeia a crepitar melancólica, no caritó enfumaçado.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)AZEVEDO, Aluísio Azevedo. O touro negro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7415 . Acesso em: 25 mar. 2026.