Por Aluísio Azevedo (1880)
Suspendeu-se a amarra, guindou-se a vela grande. O barco começou a embalar-se, como se tivesse acordado naquele instante, parecia mesmo que se espreguiçava; logo, porém, cedeu ao leme de Sombra da Noite, virou a favor do mar e entrou a navegar com vento em popa.
Partiram.
CAPÍTULO IV
O barco atravessava descuidado o perigoso mar de Sicília, em demanda das praias napolitanas.
Quem o governava? O nordeste? O leme? O braço do pescador? A bússola? Uma estrela? Algum farol? A fé em Deus? O capricho do mar? Nada! Nem o braço mesquinho do homem, nem o dedo poderoso de Deus, nem a vontade de um, nem o querer o outro. Governava-o sim, um coração apaixonado.
O barco estremecia com o pulsar deste coração boêmio; o seu verdadeiro comandante era o amor, esse que não conhece tempestade nem bonanças, esse que é tranqüilo no sofrer e desensofrido na ventura, esse que sempre triunfa! O amor!
Parecia demandar os portos de Nápoles, mas em verdade o que demandava ele era tão somente a mais forte das fragilidades humanas, a mais heróica das fraquezas divinas, o mais diabólico dos anjos terrestres, o mais angélico demônio celeste: a mulher!
Esse conjunto do que há de santo e do que há de tentação, esse amplexo do bom com o mal, esse beijo de Deus no homem, essa lágrima doce e venenosa de piedade e ciúme, esse motivo do inferno, esse mesmo inferno e esse paraíso, essa mocidade, essa riqueza, esse tudo, esse nada: a mulher!
Ia em demanda de uma mulher, isto é, ia naufragado; uma mulher é sempre uma ilha desconhecida.
Entretanto, navegavam; entretanto, o vento e a noite corriam favoráveis e tranqüilos; a natureza é verdadeiramente fidalga, boa e orgulhosa; dá indiferentemente, não olha para quem recebe; favorece e passa distraída.
O barco corria rápido e macio, as enxárcias esticadas, a vela gorda de vento, a proa alta de cortadora, o casco trêmulo de ligeiro.
Miguel, de pé, esbelto, pensativo, com a rabeca em punho, quebrava da noite o silêncio encantado, com as vibrações harmoniosas de seu instrumento; gemia o arco apaixonado e as vagas levantavam-se, convulsas e encapeladas, para o ouvir e admirar, e logo depois recaíam, deslocando-se magnéticas sobre as suas molas quebradiças.
E o barco embalava-se como um berço de gigante: e a música fugia com o vento, e Nápoles vinha pouco a pouco se aproximando.
CAPÍTULO V
Mal chegados, atracou o barco e saltaram os viajantes, seguidos do cão.
Sombra da Noite, por maior segurança, escolhera para desembarque uma praia de pescaria, das muitas que possui Nápoles, e disfarçadamente vestido de pescador, carregava cantando à moda destes, o peixe que apanhara durante a viagem.
Seriam, quando muito, dez horas da noite, hora essa de se prepararem os pescadores para a pesca noturna em alto mar.
Tudo estava pronto; viam-se as redes esticadas, amontoados os archotes e cheias as borrachas.
Dirigiram-se os dois e Castor para uma tasca fronteira à praia; aí, segundo o costume, esperavam os pescadores, com as competentes mulheres e filhos, a vez da maré, entretidos a cear ou a beber. Os recém-chegados, que, a despeito da vontade e do disfarce, chamavam a atenção geral, foram-se sentando com a afetada indiferença e bebendo com sofrível vontade.
Sombra da Noite tratou logo de se desfazer do peixe, arranjar pouso para a noite e ajustar preços; feito isto, saiu com o companheiro da tasca e, sempre acompanhado de Castor, desprezaram a praia e entranharam-se pela cidade.
Miguel não conhecia Nápoles e, carregado da sua rabeca, deixava-se ir acompanhando o guia; assim palmilhavam muitas ruas, a princípio tomando para a esquerda, seguiram depois transversalmente, ora atravessavam uma rua estreita e deserta, ora uma larga e concorrida, até que afinal chegaram a um lugar espaçoso e arborizado; depois de ligeira hesitação, venceram o largo e meteram-se por uma bonita rua, larga, bem calçada e mais concorrida que as outras.
— É esta, disse o pescador sem parar. Miguel levantou os olhos para uma tabuleta e leu: Rua de Toledo. O coração bateu-lhe mais apressado.
Continuaram a andar, silenciosos. À proporção que o faziam, diminuía o número de transeuntes, era a noite que se adiantava. Uma vozeria confusa e alegre partia dos cafés e dos grupos rareados.
Castor, de cauda interrogativa e focinho baixo, ia na frente, farejando sofregamente as pedras estranhas para o seu faro.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)AZEVEDO, Aluísio Azevedo. Uma lágrima de mulher. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16538 . Acesso em: 25 mar. 2026.