Por Aluísio Azevedo (1881)
— Soltam-se balões de pape! fino; cruzam-se moças aos pares; giram aos pares os janotas; vendem-se roletos de cana, sorvetes, garapa, cerveja, doces, pasteis, chupas de laranja; sentem-se arder charutos de canela; gastam-se os últimos cartuchos; esvaziam-se de todo as algibeiras e, finalmente, com grande jubilo geral arde o invariável fogo de artifício. Então rebentam todas as bandas de música a um só tempo, levanta-se uma fumarada capaz de sufocar um fole, e, no meio do estralejar das bombas e do infrene entusiasmo da multidão, aparece no castelo, deslumbrante de luzes, a imagem de Nossa Senhora dos Remédios. Foguetes de lágrimas voam aos milhares pelo espaço; o céu some-se. Todos se descobrem em atenção à santa, e abrem o chapéu-de-sol com medo das tabocas. Há uma chuva de luzes multicores; tudo se ilumina fantasticamente; todos os grupos, todas as fisionomias, todas as casas, tomam. sucessivamente as irradiações do prisma. Durante esta apoteose o povo se concentra numa contemplação mística, terminada a qual, está terminada a festa!
E Freitas tomou fôlego. Raimundo ia falar, ele atalhou:
— De repente, o povo acorda e quer sair! Cone, precipita-se em massa à Rua dos Remédios, aglomera-se, disputa os carros, pragueja, assanha-se! Cada um entende que deve chegar primeiro a casa; há trambolhões, descomposturas, gritos, gargalhadas, gemidos, rinchos de cavalos, tabuleiros de doce derramados, vestidos rotos, pés esmagados, crianças perdidas, homens bêbados; mas, de súbito, como por encanto, esvazia-se o largo e desaparece a multidão!
— Como? por quê?
— Daí a pouco estão todos recolhidos, sonhando já com a festa do ano seguinte, calculando economias, pensando em ganhar dinheiro, para na outra fazer ainda melhor figura!
E o Freitas resfolegou prostrado, com a língua seca.
— Mas por que diabo se retiram tão depressa?... perguntou Raimundo.
Freitas engoliu sofregamente três goles de água e voltou-se logo.
— E porque este povinho, por fogo de vista, é pior que macaco por banana!
Tirem-lhe de lá o fogo que ninguém se abalará de casa!
— Com efeito! E é muito antiga esta festa, sabe? — Bastante. Ela já tem seu tempo. Ora espere!
E o memorião atirou logo o olhar para o teto.
— No tempo dos governadores portugueses, disse, depois de uma pausa, era ali o convento de São Francisco; isso foi... poderia ser... em.. em mil, setecentos... e dezenove! Chamava-se então a ponta, que forma hoje o Largo dos Remédios, “Ponta do Romeu”. Ora, os frades cederam esse terreno a um tal Monteiro de Carvalho, que fez a ermida, como se pode calcular, no mato. Uma ocasião, porém, um preto fugido matou nesse lugar o seu senhor, e os romeiros, que lá iam constantemente, abandonaram receosos a devoção. Só depois de cinqüenta e seis anos, é que o governador Joaquim de Melo e Póvoas mandou abrir uma boa estrada, a qual vem a ser hoje a nossa pitoresca Rua dos Remédios. A ermida caiu em ruínas, mas o ermitão, Francisco Xavier mandou, em l8l8, construir a que lá está presentemente; e daí data a festa, que tive a honra e o gosto de descrever-lhe.
— De tudo isso, aventurou Raimundo, o que mais me admira é a sua memória: o senhor com efeito tem uma memória de anjo.
— Ora! O senhor ainda não viu nada! Vou contar-lhe...
O outro ia disparatar sem mais considerações, quando, felizmente, acudiram todos à varanda. Criou alma nova.
— Apre! disse Raimundo consigo, respirando. É de primeira força!...
Serviu-se o chocolate.
O cônego vinha a discretear para Manuel em voz sotuna:
— Pois é o que lhe digo, compadre, fique você com as casas e divida-as em meias-moradas que rendem?...
— Acha então que vou bem, dando quatro contos de réis por cada uma...
— Decerto, são de graça!... Homem aquilo é pedra e cal - construção antiga! deita séculos! Além disso, as casinhas têm bom quintal, bom poço e não são devassadas pela vizinhança... verdade é que não deixam de ser um bocadinho quentes mas...
— Abrem-se-lhe janelas para o nascente, concluiu o negociante.
E, assim, conversando, chegaram à varanda, onde já estavam à mesa.
José Roberto e Sebastião Campos serviam às senhoras acompanhando com uma pilhéria cada prato que lhes ofereciam. Raimundo pediu dispensa do chá, com medo do Freitas que lhe abrira um lugar ao lado do seu.
Ouvia-se mastigar as torradas e sorver, aos golinhos, o chocolate quente.
— Doutor, exclamou o cônego, procurando espetar com o garfo uma fatia de um bolo de tapioca. Prove ao menos do nosso “Bolo do Maranhão”. Também o chamam por ai “Bolo podre”. Prove, que isto não há fora de cá... é uma especialidade da terra!
— Não é mau... disse Raimundo, fazendo-lhe a vontade. Muito saboroso, mas parece-me um tanto pesado...
— E de substância — acrescentou Maria Bárbara. Faz-se de tapioca de forno e ovos.
— D. Bibina! chamou Ana Rosa, apontando para os beijus. São fresquinhos...
Amância, com a boca cheia, dizia baixo a Maria do Carmo:
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)AZEVEDO, Aluísio Azevedo. O mulato. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16537 . Acesso em: 25 mar. 2026.