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#Romances#Literatura Brasileira

O Livro de uma Sogra

Por Aluísio Azevedo (1895)

Com prazer notei que o belo moço, assim em alto trajo, mais belo ainda me parecia. Tinha aparado a barba, os dentes luziam-lhe como se fossem de um metal branco e polido, e os seus grandes olhos de safira pareciam jóias coruscantes. A casaca assentava-lhe muito bem, desenhando-lhe a cinta esbelta, fazendo sobressair o seu busto altivo, e deixando em desembaraço a rica musculatura das coxas. E a comoção enriquecia-lhe mais o rosto com uma austera palidez de mármore consagrado pelos séculos.

Depois que o meu espírito atingiu o seu pleno desenvolvimento, sempre achei o homem mais belo que a mulher; ou por outra: achei que a beleza do homem era mais valiosa que a beleza feminina, como de resto se observa geralmente nas várias espécies de animais inferiores.

A mulher tem encantos, mas o homem tem real beleza. Nos encantos da mulher há todos os perturbadores mistérios da volúpia terrestre, mas na serena e máscula beleza do homem há sempre um quê de divino e sagrado. Nenhum homem será capaz de impressionar-se pelos encantos físicos de uma mulher, sem que nisso entre o concurso dos seus sentidos; ao passo que qualquer mulher pode admirar um homem belo, sem desejá-lo sensualmente. É assim que nós mulheres amamos Jesus Cristo; e se Maria, a formosa Virgem Santíssima, não tivesse, para resguardar a sua enamorada e frágil boniteza de mulher, a celestial e sacrossanta auréola de mãe de Deus, o que seria de ti, ó doce, poético e venerando prestígio do Catolicismo?...

Cristo atravessa os séculos, todo nu, de braços abertos para a humanidade, e a sua nudez de homem jamais trouxe rubor de pejo às faces da donzela, nem acordou desejos no peito das mulheres.

Mas se despissem Maria das castas vestimentas que lhe escondem o divino corpo, ela deixaria de ser a piedosa e cândida rainha dos céus, e seria Vênus, a deusa do amor e do pecado.

Estas considerações fi-las eu defronte do homem a quem minha filha chamava, de braços abertos e lábios postos em beijo, através das alvas e rendilhadas pétalas do seu leito virginal — grande lírio branco, embalsamado e puro, que franqueava a sua urna de amor ao resplandecente inseto fecundante.

Palmira tinha inteira razão em chamá-lo e desejá-lo com tamanho amor: um homem perfeito como aquele é a melhor obra de Deus. A mulher, essa lhe é tão inferior, em todos os sentidos, que não chega a ser o seu par, mas um simples complemento dele. A perfeição da mulher não é absoluta, como a do homem, é relativa. Se o homem tivesse sempre a compreensão justa do seu próprio valimento e da superioridade, havia de ser para a pobre mulher muito melhor do que é com efeito; seria verdadeiramente o seu protetor moral, o seu bom e paternal amigo, e não o seu egoísta e sensual adversário. E quando um homem se colocasse, como muita vez sucede, ao nível da fraqueza de uma mulher, para enganá-la de igual a igual, teria vergonha e remorsos de haver com isso cometido a mais degradante

covardia que é possível no seu sexo. Se esse poderoso, belo e adorado animal, que tem forma de Deus, e que nos governa brutalmente, compreendesse a responsabilidade da sua força — quando um homem de trinta anos conseguisse iludir uma rapariga de quinze, ele, e não ela, é que ficaria desonrado.

— Minha senhora... balbuciou Leandro, afinal, vergando-se para falar-me de mais perto.

E eu interrompi meus pensamentos, para escutá-lo. E inclinei-me também, dizendo a meia voz:

Estou às suas ordens, amável senhor. Pode dizer qual é o motivo da sua visita...

CAPÍTULO XIII

— Antes de falar, minha senhora, no delicado objeto que aqui me traz...

principiou Leandro, com a voz um pouco alterada, preciso da prévia garantia do seu perdão, sem o que não teria ânimo de cometer semelhante atrevimento...

Autorizei-o a que falasse e prometi a minha indulgência.

— Imagine, minha generosa senhora, continuou ele, imagine como devo tremer em sua presença... Juro-lhe que, se o meu amor não me merecesse todos os sacrifícios e não me tivesse roubado a razão, não cometeria eu a loucura, a temeridade, o crime talvez, que estou agora perpetrando...

— Continue, acudi, sem modificar a minha fisionomia.

— Imagine, minha senhora: eu, que nada sou; um pobre diabo sem passado e sem futuro, filho de uma união irregular, atrevo-me a vir pedir-lhe me conceda tudo o que há de melhor no mundo; tudo o que há de mais puro, de mais belo, de mais ideal! Imagine que eu, um desgraçado, tenho o desvairamento de pedir-lhe a mão de...

Hesitou, abaixando os olhos. Compreendi que, a menor palavra de recusa, o pranto rebentaria deles com violência.

— O senhor está autorizado por minha filha a fazer-me semelhante pedido?

perguntei-lhe depois de uma pausa, em que ouvia a larga respiração dele.

— Sim, minha senhora.

— E, no caso que obtenha o meu consentimento, estará o senhor disposto a fazê-la feliz, como eu o entendo?

— Juro! exclamou o rapaz.

— Não! não jure ainda, sem primeiro responder-me, se já sabe como é que tem de a fazer feliz...

(continua...)

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