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#Romances#Literatura Brasileira

O Coruja

Por Aluísio Azevedo (1895)

Enquanto a não abandonara a esperança de conquistá-lo, empregou para isso todos os recursos de sua ternura; depois, certa de que nada conseguiria, resignou-se às migalhas do amor que ele lhe atirava de vez em quando, como para a esfaimar ainda mais.

A infeliz já se não queixava e já nem sequer procurava disfarçar o seu cativeiro; entretanto, um dia em que lhe apareceu na porta uma mulher alta, bonita, vestida com um certo exagero de moda, a perguntar muito desembaraçada se era ali que morava Teobaldo, ela disparatou:

- Pois até mulheres já queriam entrar também na patuscada? Era só o que faltava!

E, fechando-lhe a porta no nariz:

- Procure-o na rua, se quiser!

Depo2s, meteu-se no quarto e pôs-se a chorar, como uma desesperada.

Às três horas, quando Teobaldo chegou de fora, ela foi-lhe ao encontro e, mais branca do que a cal da parede, os beiços trêmulos, as feições estranguladas de ciúme, disse-lhe quase sem poder falar:

- Isto não pode continuar assim!

- Assim, como?

- Nesta desordem em que vai tudo! O senhor está um perdido!

- E a senhora que tem a ver com isso?

- Quero desabafar!

- Pois desabafe, mas que saia longe daqui!

- Cínico!

- Não me aborreça!

E Teobaldo galgou a escada do segundo andar.

Ela seguiu atrás.

- O senhor precisa mudar de vida! exclamou penetrando no quarto.

Ele com a certeza de quem é amado a ponto de lhe perdoarem tudo, pôs-se a cantarolar, tirou o paletó e estendeu-se sobre o divã.

- Até aqui, prosseguiu Ernestina, sem poder conter a cólera; até aqui suportei e suportei muito! O senhor transformou esta casa em uma república, mas agora a coisa é outra; agora até as mulheres querem entrar na pândega!

- Hein? fez Teobaldo, voltando-se para ela.

- Sim, senhor! Veio aí uma mulher à sua procura.

Teobaldo deu um pulo da cama.

- Uma mulher? exclamou. Ah! eu bem contava que ela havia de vir!

E, voltando-se vivamente para a rapariga:

- Uma mulher alta, não é verdade? Pálida, de olhos pretos!...

- Vá para o diabo que o carregue! respondeu Ernestina virando-lhe as costas e saindo do quarto furiosa.

- Então ... . disse consigo Teobaldo, esfregando as mãos; voltou ou não voltou?... Ah! logo vi que Leonília havia de voltar !...

Leonília era a mais formosa criatura que empunhava nesse tempo o cetro do amor boêmio.

Teria então pouco menos de trinta anos e parecia não haver ainda orçado pelos vinte.

No poema de sua vida, poema caprichoso e fantástico, escrito au jour le jour, ora com lágrimas, ora com champanha, Teobaldo representava talvez a página mais sentida e com certeza uma das mais recentes e palpitantes.

Mas, que diabo tinha consigo aquele rapaz para enfeitiçar desse modo as mulheres de toda a espécie? Que fluido misterioso espalhava ele em torno de si, com a ironia de seus risos, com o desdém de seus olhos, com a fidalguia de suas maneiras, para as render tão cativas e arrastá-las a seus pés, como Cristo antigamente?

Leonília vira-o uma noite, por acaso, no teatro, desejou-o logo e pediu a um amigo comum que lho apresentasse.

Teobaldo tratou-a com o mesmo sedutor e natural desinteresse que costumava usar para as mulheres desse gênero; mas depois, quando a conheceu mais de perto e teve ocasião de compulsar-lhe o espírito, principiou a distingui-la entre todas as outras com certa preferencia.

Leonília, porém, no solipsismo da sua paixão, não se contentou com isso e quis amor, amor tão bom e tão ardente como o que ela lhe dava.

Louca! Teobaldo não era homem para essas transações e, à primeira cena de ciúmes que lhe fez a amante, tomou o chapéu e desertou da alcova dela, sem lhe atirar ao menos uma palavra de despedida.

A loureira apanhou entredentes a afronta e resolveu lançá-lo à vala comum dos seus amores esquecidos; mas tal energia só durou enquanto durou a esperança de ver Teobaldo regressar aos seus braços; e, logo que se convenceu de que o ingrato não voltava, calcou no coração todos os reclamos do orgulho e foi ao encontro dele.

O adorado moço consentiu em tornar à abandonada alcova, mas consentiu friamente, como por mera condescendência, e fazendo-se rogar aos seus carinhos.

Leonília submeteu-se. Precisava daquele demônio para a sua ventura; que diabo havia de fazer? Todavia, a uma palavra de ressentimento que lhe escapou uma ocasião ao jantar, Teobaldo soltou-lhe, em cheio no rosto, uma tremenda bofetada e desapareceu de novo. Foi depois deste episódio que ela o procurou em casa pela primeira vez. E não o fez esperar muito, visto que já calculava com experiência que o rapaz não voltaria por motu proprio.

Ernestina, coitada, é que ficou brutalmente ferida no seu amor próprio. Ao sair do quarto ia tonta, estrangulada de raiva; mas, ferida por uma Idéia voltou logo ao segundo andar, fechou-se por dentro e disse a Teobaldo, que nessa ocasião se aprontava para sair de novo:

- Você não há de agora sair de casa!

- Por quê? perguntou o rapaz, atando a gravata de fronte do espelho.

- Porque não quero!

- Não quer? Tem graça!

- Verá!

- Veremos!

E, quando ele deu por finda a sua toilette, aproximou-se de Ernestina:

(continua...)

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