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#Romances#Literatura Brasileira

Casa de Pensão

Por Aluísio Azevedo (1884)

— V. Ex.ª parece gostar muito do Brasil...

— Habituei-me a isso com o meu segundo marido...ele era louco por este país! Quantas vezes, depois que caiu doente e que os médicos lhe recomendaram que viajasse, quantas vezes não o aconselhei a que liquidasse aqui os seus negócios e fôssemos viver para a Europa...Já não havia sombra de perseguição política, (porque foi uma perseguição política que o atirou ao Brasil), não havia razões por conseguinte para não voltar à pátria, não havia razões para se deixar morrer aqui, como morreu!...Pois bem; sabe o senhor o que ele me respondia sempre? Dizia-me: “Bebê”.(era assim que me tratava.) “Bebê, compreendes um homem apaixonado por uma mulher, a ponto de não a poder deixar um só instante? Compreendes um escravo, um cão?... assim sou eu por esta natureza. Não a posso abandonar! — estou apaixonado, louco! ” Entretanto, — veja o Dr.! — Hipólito, aqui, nunca foi devidamente apreciado e compreendido; nunca recebeu a mais insignificante prova de gratidão do governo deste País, que ele idolatrava daquele modo! Trabalhou muito para o Brasil, e de graça! Estão aí as empresas, os jornais, as sociedade que fundou! Pois o governo, — nem uma palavra, nem uma consideração, nem um “muito obrigado!” Se o pobre homem não tivesse posto de parte algum dinheiro, ficava eu na miséria, perfeitamente na miséria!

Amâncio principiava a desconfiar que aquela francesa era nada menos que um formidável “cacete”.

— Uma verdadeira paixão!...insistiu ela. — Uma paixão que o prendia aqui!

Porque, senhores, Hipólito, se quisesse, podia representar um invejável papel na Europa! Tinha lá o seu lugar seguro, e...Foi interrompida pelo César que entrara de carreira, mas estacara de repente ao dar com Amâncio. Coqueiro havia se afastado para mandar servir alguma coisa.

— Este é o meu César, meu último filho, elucidou Mme. Brizard. E gritou logo: — Vem cá, César! Vem falar com este moço!

César aproximou-se, vagarosamente, com o silêncio de quem observa um estranho. — Lindo menino! Considerou Amâncio, puxando-o para junto de si.

— E não calcula o senhor que talento! afirmou a mãe, em voz baixa e grave, estendendo a cabeça para o lado da visita :Uma coisa extraordinária!

— Já fez uma poesia! acrescentou João Coqueiro, que, nessa ocasião, junto ao aparador, enchia copos de cerveja.

— Mas, coitado! prossegui Mme. Brizard — não se pode puxar por ele; sofre muito do peito! O médico recomendou que não o fatigassem por ora; é preciso esperar que ele se desenvolva mais um pouco.

— É pena! disse Amâncio com tristeza, afagando a cabeça de César.

— Nunca vi uma criatura para aprender as coisas com tanta facilidade! Nada vê , nada ouve, que não decore logo! que não repita — tintim por tintim!

— Sim?... perguntou Amâncio , com um gesto cerimonioso de pasmo.

— E então para a música?...Aprendeu a escala em um dia! E já toca variações de piano...tudo de ouvido!

— É admirável! Repetia Amâncio, para dizer alguma coisa. Deve estar muito adiantado nos estudos!...— Ah! estaria decerto, se pudesse estudar, mas, coitado, ainda não sabe ler!

— Ah! fez Amâncio, sem achar uma palavra.

— Mas, também, quando principiar...

— Irá longe! concluiu Amâncio, satisfeito por ter enfim uma frase. — Deve ir muito longe!

E afiançava que, pela fisionomia de César, logo se lhe adivinhava a inteligência.

— Esta fonte não engana! Dizia a suspender-lhe o cabelo da testa. — E é travesso?...

Mme. Brizard soltou uma exclamação: — Não lhe falassem nisso! Só ela sabia o capetinha que ali estava!

César abaixou o rosto com uma risada, e Amâncio declarou que “a travessura era própria daquela idade!”

E, porque o moleque se aproximava com uma bandeja na mão, cheia de copos, ergueu-se para oferecer um a Mme. Brizard e outro a Amélia.

— Muito agradecida, disse esta, sorrindo. — Sou um pouco nervosa; a cerveja faz-me mal.

— Ah! V.Ex.ª é nervosa?

— Um pouco. E quem neste mundo não sofre mais ou menos dos nervos?...

E riu de todo, mostrando a sua dentadura provocadora.

Amâncio considerou intimamente que a achava deliciosa. – Um mimo!

E, de fato, Amélia nesse dia estava encantadora. Vestia fustão branco, sarapintado de pequeninas flores cor-de-rosa. O cabelo , denso e castanho, prendiase-lhe no toutiço por um laço de seda azul, formando um grande molho flutuante, que lhe caía elegantemente sobre as costas O vestido curto, muito cosido ao corpo, enluvava-lhe as formas, dando-lhe um ar esperto de menina que volta do colégio a passar férias com a família.

Era muito bem feita de quadris e de ombros. Espartilhada, como estava naquele momento, a voltas enérgica da cintura e a suave protuberância dos seios produziam nos sentidos de quem a contemplava de perto uma deliciosa impressão artística.

Sentia-se-lhe dentro das mangas do vestido a trêmula carnadura dos braços; e os pulsos apareciam nus muito brancos, chamalotados de veiazinhas sutis, que se prolongavam serpeando. Tinha as mãos finas e bem tratadas, os dedos longos e roliços, a palma cor-de-rosa e s a unhas curvas como um bico de papagaio.

(continua...)

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