Por Aluísio Azevedo (1897)
— Por ora, tens duzentos milréis por mês... disse este; não te podemos dar mais... Porém em breve ganharás o duplo e terás interesse na empresa!...
Alfredo ouvia estas palavras como se despertasse ao toque de uma alvorada celestial.
— Pois sim! pois sim! balbuciava o infeliz; mas do que se trata?
— É uma empresa que estou criando com meu pai...
O nome do pai era quase sempre o fiador das patranhas do Reguinho.
Ainda te não posso dizer abertamente qual o fim da nossa empresa, ajuntou este; mas descansa, que a cousa é decente e lucrativa. Sabes que o velho não se meteria, se o negócio me ficasse mal!... Enfim, meu Bessa, seremos três: ele, eu e tu. O velho fornece os cobres, eu agencio cá por fora os nossos interesses, e tu te encarregas do escritório e da caixa, farás férias aos empregados, serás o gerente. Hein? servete? Espero que me não digas não!
— Ao contrário! já te não largo! Ó meu Deus, foi uma fortuna encontrarte! Vou daqui ao Raposo, dizerlhe que em breve principio a darlhe por mês alguma cousa por conta do que lhe devo, mandarei depois fazer um fato, que este é uma vergonha!..
— Um fato! Havemos de fazer o diabo! dizia o Reguinho em ar de mistério. — Queremos dinheiro, sebo! tu entras só com o teu serviço. Querse é zelo e inteligência!... Quanto a considerações e escrúpulos — nada! Tudo para o fundo da gaveta! Queremos dinheiro, sebo!
Mas afastouse, correndo atrás de um sujeito que passava na ocasião.
— Até logo! gritou para o Marmelada. Preciso falar àquele rapaz. Ó Lima! Ó Lima!
E desapareceu.
Alfredo não pôde seguir logo, tão grande comoção se havia dele apoderado.
Entretanto, tudo o que dissera o Rêgo não tinha o menor fundamento.
O outro tipo a apontar da roda do comendador Moscoso, era Melo Rosa; moço da mesma idade do Reguinho. Vivia este da esperança de umas tantas peças dramáticas que havia de escrever com muito talento, desde que tivesse de seu um bom bocado de tempo.
Falava nesses trabalhos, como se já os houvera realizado. Surgia sempre, com um rolo de papeis debaixo do braço, a singrar, muito apressado, por entre os magotes da rua do Ouvidor. Quem o não conhecesse de perto, diria que ele levava uma vida cheia de cuidados e fadigas.
À noite, chovesse ou não, encontravamno impreterivelmente na caixa dos teatros. Tinha neles entrada franca e davase com todos os artistas do Rio de Janeiro.
Alguns destes o tratavam com uma liberdade grosseira, batiamlhe no ombro e diziamse chufas. Era entretanto, considerado pelas atrizes como tipo útil. Tinha intimidade com muitas; viamno às vezes acompanhar alguma delas para o ensaio, prestandolhes os mais solícitos serviços; encarregavamno de fazer compras, confiavamlhe dinheiro, com que ele regateava nos armarinhos, mercando luvas, fitas, rendas e chapéus. O dinheiro nas mãos do Melo chegava para tudo! Dava para comprar o objeto e ainda para um troco, que o tipo levava religiosamente à dona da encomenda.
E, por isso e outras cousas, era bem tratado pelas mulheres. Comia, bebia e fumava com elas, sem que nenhuma lhe exigisse tributos de outra espécie.
Este, como Reguinho, apresentava a melhor aparência deste mundo — fraque, chapéu alto, lunetas e bigode.
Foi o Reguinho quem o apresentou em casa do comendador Moscoso, impingindoo como autor de várias peças literárias e colaborador de vários jornais.
O comendador afirmou que já o conhecia muito de nome, e certa noite, em que o Melo apareceu mais cedo para o cavaco, aquele o tomou pelo braço e disselhe ao ouvido:
— Você é quem me podia prestar um serviço...
— O que quiser, comendador!
— Você é um moço inteligente, e estou convencido que será capaz de guardar um segredo...
Meio compôs o ar e respondeu:
— O comendador já tem tempo para apreciar o meu caráter!...
— Sim, mas olhe que o negócio é muito sério!...
— Pode confiar de mim sem receio!
— Promete então guardar segredo?
— Doulhe a minha palavra de honra!
— Pois vamos cá ao gabinete, e você ficará sabendo do que se trata...
E os dois encerraramse no grave escritório do comendador Moscoso.
XIII
AS VÍTIMAS DO COMENDADOR
— Eu sou o autor daquelas mofinas contra o coronel Pinto Leite... segredou o comendador, fechando a porta.
O Melo, por única resposta, deu um longo assovio e estalou os dedos no ar. O comendador aproximouse mais dele e disselhe ao ouvido:
Precisamos esfregar em regra aquele sujeito!...
— Schit! fez Melo, cheio de movimentos misteriosos.
E, depois de uma pausa, o comendador contou uma história muito engenhosa a respeito de vícios, da maldade e da hipocrisia do pai de Gaspar.
— Ora, que tipo!... dizia de vez em quando o homem dos rolos de papel; e passava a lembrar planos soberbos e meios ardilosos de estigmatizar o coronel. Continue a atacálo pelo ridículo! Ataqueo pelo ridículo, e verá o efeito! Olhe! lembrame até agora uma cousa. Caricaturas! Não seria mau caricaturar o birbante!...
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)AZEVEDO, Aluísio. A Condessa Vésper. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2124 . Acesso em: 8 mar. 2026.