Por Franklin Távora (1879)
— Mas, então, alguma coisa lhe aconteceu depois. Verdade é que ele tinha na mão uma carta, que acabara de ler. E quer saber, mamãe? Ele perguntou se a senhora estava no engenho, se tinha saído, se alguém a procurara. — Que carta era essa? - disse Maurícia, empalidecendo.
E instintivamente levou a mão ao seio mais morta do que viva. Não achou aí a carta que lhe dera Ângelo, debaixo da árvore. Pulara-lhe do seio na carreira da palhoça abandonada para o laranjal.
Pode-se compreender, mas não dizer, o tropel de pensamentos que passaram pela cabeça de Maurícia naquele momento. Que lhe teria escrito Ângelo? Ela não leu a carta; trazia-a fechada ainda; mas calculava que devia ser largo documento contra eles dois. Devia tratar da fugida, dos meios de realizá-la. Bezerra não podia dever ao acaso mais forte arma para atravessar-lhe o coração do que esse malfadado. Se o mostrasse a Albuquerque, talvez fosse o bastante para que este retirasse a sua promessa de consentir no casamento de Paulo com Virgínia; se o mostrasse à Martins, este e a mulher talvez a considerassem indigna de entrar dali por diante em sua casa.
— Oh! que infelicidade! — exclamou Maurícia.
O seu desejo de vingança, há pouco tão cru e exaltado, esfriou inopinadamente; foi substituído pelo terror. Os papéis trocaram-se. Era ela que estava agora nas mãos do marido. Ainda quando Maurícia referisse o que vira, ninguém acreditaria em suas palavras; Bezerra já não estava no mesmo caso; tinha consigo uma prova material da sua culpa; podia esmagá-la, atirando simplesmente o papel sobre a mesma, como se esmaga uma cobra, atirando-se-lhe uma pedra sobre a cabeça.
Passados alguns instantes, disse consigo:
— Mas, quem sabe se não está nisto a minha salvação? Quero crer que esteja; não é possível que Bezerra, lendo semelhantes revelações de um coração altamente apaixonado, queira ainda que eu vá viver com ele. Virá, talvez, à terra, o formoso castelo que acabo de erigir para Virgínia; mas o meu infortúnio terá encontrado o seu termo. Entre mim e o meu indigno marido, ter-se-á levantado uma barreira eterna, que ele não transporá nunca mais. Estarei livre, embora com uma nota, que o tempo há de apagar.
Como se tais idéias lhe ocorressem por intuição sobrenatural, Maurícia sentiase reanimada. Onde um momentos antes estivera a sombra da morte, estava agora suavíssimo bálsamo de consolação tão grande que apagou toda a sua mágoa.
Chegou ao espelho, alisou o cabelo e encaminhou-se com Virgínia para a porta.
Já a vinham chamar por parte de Albuquerque.
Não foi sem pronunciada palidez que entrou na sala. Estavam aí, sentados ao lado de D. Carolina, perto do sofá, Albuquerque e Bezerra, e ao pé de Alice, junto da porta que dava para o terraço, Paulo e Martins. Este havia chegado um minuto antes de Maurícia entrar.
Quando ela apontou na porta, Bezerra levantou-se e foi pressuroso ao seu encontro. Fazia três anos que a não via. Abraçou-a respeitosamente diante de todos. Maurícia sentiu-se, então, enfraquecer novamente. Conheceu que estava ameaçada de dobrada desgraça; A sua prevenção fora enganosa. O seu tirano não se deu por achado. Isto queria significar que aos seus olhos ela havia de ser inevitavelmente vítima de dúplice vingança.
Bezerra estava pálido, mas mostrava-se satisfeito. Tinha risos que à sua mulher se afiguraram infernais. Raras vezes a hipocrisia representou melhor o seu papel.
Maurícia, entretanto, no meio do turbilhão de idéias contrárias que lhe enchiam a imaginação, não podia esquecer-se de Ângelo. Quando seu marido a abraçou, entre expansivo e reservado, ela teve desejos de lhe fugir. Pareceu-lhe que o direito de aconchegá-la ao seio já não lhe pertencia, e tinha passado ao homem que se mostrava louco de amor por ela. Aquele era indigno de seu corpo; estava ao nível da Janoca da Januária, perdia-se abaixo dos seus pés.
Compreendendo que Bezerra premeditaria contra o seu rival desapiedada vingança, começou a sentir por este tormentos imaginários. Jurou morrer ao lado de Ângelo, caro objeto de seu exclusivo amor. A presença do marido, longe de a prender na sala, apartou-a em espírito para fora desse estreito âmbito onde mal cabia as paixões despertas. Ela ia em busca do bacharel, nas asas de uma saudade imensa. Parando no ponto onde uma hora antes se tinham separado, perguntou a si mesma, no deserto, que testemunhara o seu colóquio: “Onde estará ele? Que pensamentos terá agora?”
Ângelo, entretanto, volvera ao Recife, levando em sua alma a vaga impressão da felicidade, que o embriagara com alguns momentos, e que era o resultado das palavras que ouvira de Maurícia, do amplexo que parecia tê-la ainda aconchegado ao corpo, do beijo que ele sentia perfumar-lhe os lábios.
Chegara cedo à estrada, e não saíra mais.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)TÁVORA, Franklin. O Sacrifício. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16632 . Acesso em: 28 fev. 2026.