Por Bernardo Guimarães (1869)
Itajiba transportado de amor enlaçou ao peito a fronte radiante de Guaraciaba; já seus lábios se tocavam nas delícias do primeiro beijo de amor... súbito um rumor, que se avizinha, chega-lhes aos ouvidos; ouvem-se gritos selváticos, latir de cães, sons de borés e tropear de caçadores. Este estrugido se avizinhava de mais em mais; um instante depois um ligeiro rumor se fez sentir mesmo ao pé da entrada da furna; Itajiba e Guaraciaba sobressaltados olham para aquele lugar e levantam-se de súbito dando um grito de terror . Uma enorme canguçu negra se apresenta parada á porta da gruta com os olhos chamejantes, rosnando e mostrando as agudas presas como que pasmada e indignada de encontrar em seu covil aqueles estranhos hóspedes. Tão perto deles se achava a fera, que Itajiba não tendo espaço suficiente para enristar a flecha, brandiu contra ela o seu formidável tacape. O monstro surpreendido por aquele brusco ataque recuou dois saltos e de novo voltou a face ao seu agressor; este em pé à porta da gruta já de arco feito procurava segurar a mira no coração da onça, quando cheio de pasmo dá com os olhos em um guerreiro, que em pé sobre a esplanada exterior da furna a uns dez passos de distância por detrás da fera, igualmente de arco encurvado também a encarava com assombro, e parecia como que a sua sombra ou o reflexo de sua figura. Era Inimá, que seguido de alguns companheiros perseguia aquela onça e de flecha feita igualmente fazia a mira... contra ele ou contra a fera, que se interpunha entre os dois na mesma direção? Não o pôde saber Itajiba, que em seu assombro esqueceu a fera, que diante dele rugia apresentando as presas ameaçadoras e agitando a comprida cauda a estorcer-se e bater-lhe os flancos como uma jararaca enfurecida. Tendo em frente dois inimigos igualmente ferozes como que hesitava em qual dos dois empregaria o primeiro tiro e aguardava o que primeiro atacasse. Inimá porém, que entre as sombras da gruta entrevira Guaraciaba, espumava e batia os dentes de furor, e na sofreguidão de sua cólera com tal fúria esticou o arco, que este partiu em suas mãos, e a flecha caiu-lhe inerte aos pés. A este rumor a onça, cujos olhos até então estavam constantemente fixos em Itajiba, volta-se rapidamente, em dois pulos se precipita sobre Inimá, tomba-o de costas, calca-lhe o peito com as enormes patas, e apresenta aos cães, que começam a assaltá-la, a boca escancarada guarnecida de buídos dentes, à semelhança de um riso de feroz escárnio. Os companheiros de Inimá, não podendo acompanhar de perto seu infatigável e valente chefe, ainda não eram chegados; mais um instante só e Inimá teria terminado ingloriamente a existência às garras daquele feroz animal. Estava nas mãos de Itajiba o ver-se para sempre livre de seu poderoso rival, sem que sua morte pudesse por maneira alguma ser-lhe imputada. Mas tal pensamento nem por sombra lhe passou pelo espírito, que a isso se recusava absolutamente seu coração leal e generoso. Uma bem despedida seta partiu de seu arco e voou silvando ao coração do monstro, que expirou estrebuchando em seu sangue. Inimá levantou-se desfigurado e torvo, com o peito sangrento lacerado pelas unhas da terrível canguçu. O peito lhe arquejava com violência e seus olhos sangüíneos e desvairados procuravam Itajiba; apenas o avista, grita-lhe com voz convulsa:
— Bem lançada flecha, guerreiro!... cumpriste com destreza o teu dever. Quando o canguçu acossado encontra-se com o jaguar, este o mata, e oferece assim dobrada presa ao caçador. O jaguar se refugia na toca do canguçu, onde o caçador o veio surpreender. É pois forçoso agora que pelejemos. Miserável forasteiro, que vieste trazer a zizânia e a discórdia a nossas tabas, desta vez não me escaparás. Dize-me, insolente e traidor imboaba, como ousaste roubar à taba do cacique essa virgem que te acompanha? Contavas acaso conduzi-la a salvamento para o teu covil tenebroso?... Mas tu vês; Tupá é justiceiro; foi ele que em seus ocultos desígnios dirigiu para aqui meus passos, dando-me por guia essa fera, que acaba de morrer às tuas mãos, como tu morrerás às minhas em punição de teu infame atentado. E tu que fizeste, desgraçada Guaraciaba, incauta pomba, que te deixaste enlear nos laços da astuciosa serpente? como te animaste cobrir assim de vergonha e opróbrio as cãs veneráveis de teu pai?... tu que eras o manitó tutelar de nossa tribo, serás de hoje em diante a sua ignomínia, e verás teu nome pronunciado com horror!...
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)GUIMARÃES, Bernardo. O Ermitão de Muquém. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16584 . Acesso em: 25 fev. 2026.