Letras+ | Letródromo | Letropédia | LiRA | PALCO | UnDF



Compartilhar Reportar
#Contos#Literatura Brasileira

Histórias e tradições da Província de Minas Gerais

Por Bernardo Guimarães (1872)

Saíram imediatamente a receber o hóspede. Paulina os acompanhou. Tinha apenas introduzido o recém-chegado na sala de jantar e trocava com ele as primeiras palavras de cumprimento e civilidade, quando Paulina que se conservara em pé, trêmula e arquejante, a um canto desviado, deu um grito agudo, e sentou-se de chofre, ou antes caiu sobre uma cadeira.

– Que é isto! que tens, Paulina – bradou o pai atirando-se para ela. Eduardo e Roberto acudiram ao mesmo tempo.

– Paulina! Paulina! – gritava o pai sustendo-a no braço, e agitando-a; – era debalde; a infeliz não podia ouvi-lo. Pendurada no braço paterno a fronte branca pendia-lhe para trás como lírio esgalhado, o corpo alquebrava-se lânguido e inerte, e as pálpebras transparentes e cerradas eram como lâmpadas de alabastro, onde a luz acabara de extinguir-se. Estava profundamente desmaiada.

– A cavalo já, Roberto! a cavalo e depressa! – gritou o velho. Pegue no melhor animal que aí houver, corra já a Uberaba e traga-nos um médico.

Roberto, que em outra qualquer ocasião teria afrontado fadigas, coriscos e raios, e teria ido ao inferno para servir a Paulina, desta vez, apesar da gravidade do caso, hesitou e prestou-se de mau humor. Seus antigos ciúmes renasciam, e suspeitas cruéis lhe atravessavam o espírito, suspeitas que para outro qualquer mais perspicaz há muito teriam tomado o caráter de certeza. Não seria aquele maldito hóspede a causa dos sofrimentos de sua prima, e do vágado de que acabava de ser vítima?...

– Nesse caso ele que vá! – pensava ele. Quem as armou que as desarme. No estado de irritação, de que se achava possuído contra o recémchegado, esteve a ponto de dizer estouvadamente: – Aqui o sr. Eduardo, que acaba de chegar e ainda está com o animal selado, bem nos pode fazer esse favor. Mas o amor, que consagrava a Paulina, e o respeito, que tinha a seu tio, prevaleceram em sua alma.

Daí a alguns instantes Roberto galopava à rédea solta através da escuridão da noite, vomitando pragas e amaldiçoando a hora em que aparecera em casa de seu tio aquele maldito sr. Eduardo.

Capítulo XI

Delírio e amor

O delíquio de Paulina durou cerca de um quarto de hora.

Quando voltou a si e abriu os grandes e negros olhos, encontrou o rosto de Eduardo que, bem próximo ao seu, quase que a bafejava, observando-a com ansiosa inquietação enquanto o pai com os braços a sustinha sobre a cadeira.

– Ah! o senhor ainda está aqui! – exclamou ela, tapando os olhos com a mão. Sr. Eduardo... por piedade! fuja, fuja... não posso vê-lo!...

– Desastrado aparecimento o deste homem hoje! – refletia o amargurado velho. – Mas porventura posso me queixar dele?... tem ele a culpa de nada?... Infeliz Paulina!...pobre de minha filha! tão boazinha, tão linda, tão criança, e já sabendo o que é a desgraça... e mais desgraçado de mim ainda, que nada posso fazer por ela!... Só esse homem, que já uma vez salvou-a, poderia salvá-la ainda, pois não há a menor dúvida, a pobrezinha tem uma paixão louca por esse moço... ah!... se fosse possível... que me importa o Roberto?... tratei com ele, é verdade; mas será ele tão bruto e tão desalmado, que não tenha pena desta infeliz?... será tão estúpido, que não veja que não deve, nem pode casar-se com Paulina?... mas que loucura a minha!.., ele não pode – já está comprometido e quem sabe se já casado com outra... Pobre da minha Paulina!... é agora que sinto a falta, que te faz tua mãe... só ela poderia entrar no segredo desse coração tão maltratado, e dar-lhe algum conforto e consolação... mas, eu... pobre de mim! que posso eu fazer senão chorar contigo, filha de minha alma!...

E as lágrimas corriam em fio pelas faces do velho na solidão da noite, cujo silêncio só era interrompido pelos delírios de Paulina, que entregue a um sono letárgico, murmurava sons confusos entre os quais vinha freqüentemente o nome de Eduardo.

Este, por seu lado, também se recolhera ao aposento que lhe fora destinado, com o coração transido de angústias, e passou a noite nas mais cruéis tribulações de espírito. Ele passara como o sopro do gênio do mal junto daquela formosa e interessante menina, e lhe fizera entrever um paraíso de amor e de ventura para abismá-la imediatamente num pego de amarguras. Aquela mimosa flor do deserto, que havia encontrado em seu caminho, de tão belo e puro matiz, tão rica de seiva e de perfume, vinha encontrá-la agora raquítica e pálida como goivo despencado de uma grinalda mortuária. E essa flor, que risonha e louçã se havia espanejado a seus olhos ofertando-lhe todo o perfume de seu cálix, ele a havia desdenhado e passado além com os olhos embebidos em não sei que falsa miragem... e fora esse desdém, que lhe mirrara o seio entornando nele o gérmen da destruição. E agora que desiludido e arrependido voltava sobre seus passos em busca da flor, cujo perfume lhe ficara guardado no coração, ainda seria tempo? poderia ele ainda com o bafejo de seu amor restituir-lhe o alento e a vida?... Quem sabe?

(continua...)

« Primeiro‹ Anterior...2829303132...Próximo ›Último »
Baixar texto completo (.txt)

← Voltar← AnteriorPróximo →