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#Crônicas#Literatura Brasileira

Os Romances da Semana

Por Joaquim Manuel de Macedo (1861)

A medida que se ia aproximando, o estudante media cauteloso os passos e procurava fazer o menor ruido possível, empregando para isso toda a sua habilidade de caçador : ás vezes ria-se pensando na decepção por que ia passar esbarrando diante de uma mulher feia, ou pelo menos desgeitosa...

Emfim, chegou á entrada do bosquesinho, e por entre as arvores olhou, e ficou embevecido...

A sombra de uma arvore frondosa, sobre cujo tronco se sentara, estava uma moça talvez de vinte annos, delicada, formosa, encantadora ; lendo attentamente um livro, que segurava com suas mãos pequeninas e brancas ; seus cabellos negros cahião em aneis graciosos e immensos sobre uns hombros e um collo admiraveis; seus olhos, que ás vezes levantava para o céo, erão grandes, negros e brilhantes.

Baptista não mentira: aquellamoça era realmente encantadora.

Como porém esta creatura angélica, que parecia ter sido educada com tanto zelo, com tanto extremo, esta moça cujas mãos erão tão finas, e tinhão a cór tão branca, esta menina tão delicada, e por assim dizer de fôrmas tão vaporosas e de espirito que se dizia tão romanesco, viera esconder-se, sepultar-se naquelle obscuro cantinho, na casa de tão pobres lavradores ?

Não era, não podia ser uma infeliz mulher perdida pelo vicio, não : a pureza brilhava nos seus olhos e na sua face.

Como explicar então o mysterio ?...

O estudante não se movia do lugar onde estava, com as mãos no peito comprimia a respiração anhelante : dominava-o sobretudo o receio de ver ao mais leve ruido desapparecer como um sonho aquella mulher encantadora.

A caçada estava de todo esquecida : o compadre Baptista como que não existia no mundo : debalde os cães se tinhão approximado perseguindo as pacas levantadas... Luciano não ouvia o latido dos cães, nem os gritos descompassados de Baptista.

E duas longas horas passarão rápidas como um instante para o estudante absorto.

Emfim o moça fechou o livro, levantou-se, e com um andar gracioso retirou-se para a humilde casa de seus tios...

Luciano deixou seus olhos irem presos aos pés mimosos da mulher formosa... até que ella desappareceu de todo...

— E as pacas, compadre?... perguntou Baptista rindo e batendo-lhe no hombro.

IV.

Aquella joven que de um modo sem duvida romanesco apparecêra aos olhos de Luciano, era verdadeiramente bella; mas a imaginação do estudante emprestou-lhe ainda encantos indiziveis, e lh'a afigurou mil vezes mais formosa.

Arrancado do seu extase pela retirada da bella incognita e pelas palavras pronunciadas por Baptista, Luciano sentio que uma flamma violenta lhe abrazavaja o coração, e que uma mulher que apenas havia duas horas vira pela primeira vez, devia fazer a gloria ou o martyrio da sua vida.

Pôde ser que houvesse exaggeração nesse subito sentir; um estudante porém raramente se apaixona de outro modo, e trinta vezes que se apaixone, é sempre assim ; se poucos são os estudantes que se casão antes de ser doutores, é porque poucas são as moças que sabem aproveitar-se opportunamente da violencia das paixões que inspirão; o que salva os estudantes de casamentos imprudentes não é a reflexão é a duração ephemera de suas paixões: cada um delles, quando deixa a academia, leva no coração a lembrança de cem amores e de cem romances, que acabarão antes de tempo ou ficarão por acabar.

Ora, aquelle novo amor qne começava para Luciano tinha todas as condições de um verdadeiro amor de estudante; porque sobretudo havia nelle o encanto do romanesco e do mysterio, que abrião espaço aos mais arrojados vôos da imaginação.

A bella incognita tinha-se mostrado inesperadamente.

Luciano nem a conhecia, nem ao menos lhe sabia o nome, e a encontrara de subito no seio da solidão e á margem de um lago.

Não era preciso mais para que o estudante morresse de amores por ella.

Baptista, encarregado de colher informações mais positivas a respeito da formosa moça, veio ainda mais augmentar o mysterio que a rodeava, porque soube e declarou a Luciano que a bella incognita não era sobrinha de Antonia, como se suppunha, mas uma menina que ainda no berço fora confiada á sua irmã, e cujos pais devião ser bastante ricos, pois que pagavão com uma avultada pensão os cuidados de sua educação. O motivo de sua vinda para aquelle lugar do

interior da província não tinha sido a morte da irmã de Antonia, e sim a necessidade de íurtar a interessante jovem ás pesquizas e talvez á perseguição deparentes inimigos : o segredo da sua vida e do seu retiro era tão profundamente guardado, que nem mesmo Pereira e sua mulher sabião o seu nome.

Decididamente, Luciano não podia escapar a tanta magia. No fim de tres dias amava a sua incógnita, como nunca Petrarca amou a Laura, nem Torquato Tasso a Eleonora.

(continua...)

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