Letras+ | Letródromo | Letropédia | LiRA | PALCO | UnDF



Compartilhar Reportar
#Romances#Literatura Brasileira

Til

Por José de Alencar (1872)

  Já ele teria dado cabo do rival, se pudesse, mas como não se atrevesse a atacá-lo de frente, espreitava ocasião de atirar-lhe o bote certeiro, e desde muito rondava disfarçadamente pela venda do Chico Tinguá, que suspeitavam de ser o inculca e espia do capanga foragido. 

 Tais eram as disposições do Gonçalo quando chamou o Filipe para dizer-lhe em particular: 

- O patrício quer mesmo pilhar o Jão Fera? perguntou ele. 

- Mas decerto, homem! 

- E não sabe onde ele se encafua? 

- Que esperança! Pois ainda estava aqui? 

- E se eu lhe ensinasse a toca do bicho? 

- Abra o preço, amigo. 

- Duzentos bicos? 

- Topado. 

- Mas há de ser com um ajuste... 

- Diga lá. 

- Isto fica entre nós dois só. Negócio de muitos não serve. 

- É assim mesmo. 

- Pois então moita. Toca pra dentro, antes que os camaradas aventem. Olhe que o Tinguá é ressabiado, hein! Vá andando por aí afora. Passando este morro, atrás do outro, há um rancho. Eu já me boto pra lá. É só enquanto avio aqui outro negocinho.  

Este curto diálogo travara-se no canto da casa, junto da cerca, onde havia um grosso toco de árvore, denegrido pelo fogo da coivara que ali passara outrora. Ainda quando menos os preocupasse o assunto, dificilmente distinguiria qualquer dos interlocutores, ali a dois passos dele, o vulto decrépito de um negro, arrimado a uma brecha da cepa carcomida com a qual se confundia, como o escorço de uma sapopema. 

  Seguiu Filipe o aviso de Gonçalo, e, pagando a despesa à Nhanica, mulher do Tinguá, que fazia no balcão as vezes do marido na ausência dele, pôs-se a caminho com os companheiros. 

  Partiam eles por um lado, que do oposto avistava-se um cavaleiro a galope. Era o Barroso que descambando o outeiro, na rápida guinilha do castanho, veio parar à porta da venda. 

- Já está por cá? perguntou o Gonçalo que o esperava no terreiro. 

- Ora! O milho que a mula comeu quando cheguei, já teve tempo de gralar! tornou o Gonçalo rindo-se da sua pilhéria. 

- Pois bom proveito lhe faça a roça! 

  Retorquindo assim ao Pinta, dirigiu-se o Barroso à vendeira: 

- Quedê este homem? 

- Ele não está, nhor, não! 

- Onde foi? 

- Na vila, nhor, sim. 

- Quando volta? 

- Volta logo. 

- O diabo o leve e mais quem o ature. 

  Saiu o Barroso da venda fumando e a respingar contra o Chico Tinguá que lhe havia pregado um famoso logro; qual fosse, não o dizia ele; mas despicava-se em ferrar o dente no pobre do vendeiro. 

- Que lhe fez cá o homem? inquiriu Gonçalo. 

- É um refinado tratante, ele e mais o tranca do Jão Bugre. 

- O patrão também tem negócio com esse danado? disse Gonçalo. 

- Pois o negócio era com ele; mas o patife não ata nem desata; e já a coisa me cheira a caçoada. 

- Que quer? O senhor foi se meter com ele: não tinha que ver! 

- Então não é o que dizem? 

- Qual! Gabolice tudo! Não deixava de ser valente. Lá isso é verdade. Mas onde vê, já o encostei, e só com este braço. Não é debalde que me chamam de suçuarana! 

- Com tanto que me avie o diabo depressa. 

- Não custa. É só falar; o mais fica por minha conta. Eu cá não sou lerdo como o Bugre. Ainda bem o ajuste não está feito, que eu já ando com a obra em meio. 

- Pois vamos acabar com isto de uma vez. 

  Cavalgaram os dois de novo e seguiram pela estrada na mesma direção que havia tomado pouco antes o Filipe e sua troça. 

  Neste momento o casco da cabeça do negro, lisa como um quengo, surdia por cima da velha cepa queimada, e dois olhos que pareciam carbúnculos, se alongaram pelo caminho além.  

- Eh! Branco mesmo!... resmungou uma voz trôpega. 

 

XXIII 

Nhá Tudinha 

 

  Era pela volta das oito horas. 

  Nhá Tudinha entrava e saía, andando de um lado para outro, na labutação do costume. Não por necessidade, que só por gênio vivia ela nessa contínua lida caseira desde que amanhecia até o escurecer.  

Tinha essa mulherzinha baixa e rolha tal prurido da pele que não podia estar um momento sossegada. Por força que se havia de ocupar alguma coisa; e para que lhe rendesse a tarefa, muitas vezes desfazia o que já estava pronto, a fim de Ter o gosto de arranjar de novo. 

  Nunca sentia-se tão feliz e contente como nos dias em que a apoquentavam de trabalho. Correr daqui para ali, revolver os cantos da casa, abrir e fechar portas, acudir da varanda à cozinha, e dar vazão a tudo; nisso consistia o seu maior prazer nesse mundo. 

  Quem a visse naquela dobadoura da manhã à noite, ficaria admirado de seu ar lépido e agudo; pois decerto não se podia esperar semelhante volubilidade naquele corpo rechonchudo, com suas perninhas curtas e socadas. 

  Achava-se então nhã Tudinha em uma de suas boas vezes. O São João estava à porta; e ela, que tinha, e com muita razão, o seu garbo de doceira afamada, por costume antigo se pusera na obrigação de mandar em dias de festa os mimos feitos por suas mãos, no que estava o chiste, às pessoas de amizade, cujo rol começava necessariamente pelo compadre Luís Galvão, padrinho de Miguel. 

  Por isso já de véspera andava ela às voltas com o alguidar e o forno. 

(continua...)

« Primeiro‹ Anterior...2829303132...Próximo ›Último »
Baixar texto completo (.txt)

← Voltar← AnteriorPróximo →