Por José de Alencar (1875)
Além de que Pedro Camargo era filho natural ainda não reconhecido, seu futuro dependia exclusivamente da vontade do pai, que podia abandoná-lo como a um estranho, deixando-o reduzido à indigência. Esta circunstância influiu muito no espírito de Emília; não por si, que não tinha ambição: mas era esposa e mãe.
E esse tempo já havia nascido também uma filha que chamou-se Aurélia, por ter sido este o nome da mãe de Pedro Camargo, infeliz rapariga, que morrera da vergonha de seu erro.
Convencida do perigo de revelar o segredo de seu casamento, Emília condenou-se a uma existência não somente obscura, mas suspeita. Bem custava à sua virtude o desprezo injusto que a envolvia, e o escárnio que a pungia; mas era por seu marido e por seus filhos que sofria. Refugiava-se no isolamento, confortava-se com a esperança da reparação.
Cresceram os dois filhos de Camargo; ambos eles receberam excelente educação. As liberalidades do velho fazendeiro permitiam que Pedro tratasse da família com decência e abastança; tanto mais quanto não tinha ele coisa com que distraísse dinheiro daquele honesto emprego, a não ser o seu modesto vestuário.
Haviam decorrido doze anos depois do casamento de Pedro Camargo e estava ele com trinta e seis, quando seu caráter fraco e irresoluto foi submetido a uma prova cruel.
Por diversas vezes mostrara o fazendeiro ao filho desejos de vê-lo casado; mas essas veleidades sem alvo determinado passavam, e as labutações da vida rural distraíam o velho das preocupações domésticas. Pedro Camargo quitava-se deste perigo com um pequeno susto.
Afinal, porém, o pai exigiu formalmente dele que se casasse, e indigitou-lhe a pessoa já escolhido. Era a filha dum rico fazendeiro da vizinhança; tinha ela completado os quinze anos. Antes que a notícia deste dote sedutor chegasse à corte, tratou o velho Camargo de arranjá-lo para o filho.
Pedro opôs à vontade do pai a resistência passiva. Nunca se animou a dizer não; mas também não se moveu para cumprir as recomendações ou antes ordens que lhe dava o fazendeiro. Este esbravejava; ele abaixava a cabeça, e passada a tormenta, caía outra vez na inércia.
Quando o fazendeiro viu que apesar dos seus ralhos e gritos o filho não se decidia a visitar a moça, irou-se por tal modo que ameaçou expulsá-lo de casa, se não montasse a cavalo naquele mesmo instante para ir à fazenda vizinha ver a noiva e reiterar ao pai o pedido feito em seu nome.
Pedro Camargo não disse palavra. Desceu à estrebaria; selou o animal; pôs na garupa sua maleta; e partiu, mas não para a fazenda vizinha. Foi Ter a um rancho, onde contava demorar-se o tempo preciso para dar alguma direção à sua vida.
Durante esta provança tinha continuado a escrever à mulher; mas ocultou-lhe o transe por que estava passando, para não afligi-la.
A resistência à vontade do pai, a quem acatava profundamente, e as sublevações da sua consciência contra o receio de confessar a verdade, abalaram violentamente o robusto organismo desse homem forte para os trabalhos físicos, mas não feito para essas convulsões morais.
Pedro Camargo foi acometido de uma febre cerebral, a sucumbiu no rancho aonde procurara um abrigo, longe dos socorros e quase ao desamparo. Apenas teve para acompanhá-lo em seus últimos instantes um tropeiro que vinha para a corte.
Trazia o infeliz consigo cerca de três mil cruzeiros que desde certo tempo começara a juntar com intenção de estabelecer-se nalguma modesta rocinha onde pudesse viver tranqüilo com a família.
A sorte não o consentiu. Confiou ele o dinheiro ao tropeiro pedindo-lhe que o entregasse de sua parte à sua mulher. Recomendou-lhe porém que não contasse o desamparo em que o vira, para não acabrunhá-la ainda mais.
Cumpriu o tropeiro o encargo com uma probidade, de que ainda se encontram exemplos freqüentes nas classes rudes, especialmente do interior.
Emília cobriu-se do luto que não despiu senão para trocá-lo pela mortalha. Mais negro porém e mais triste do que o vestido era o dó de sua alma, onde jamais brotou um sorriso.
II
A viuvez tornou ainda mais isolada e recolhida a existência de Emília, acrescentando-lhe a indiferença e desapego do mundo.
O único elo que a prendia à terra eram seus filhos; mas tinha o pressentimento de que não permaneceria muito tempo com eles. O marido a chamava; abandonou-se àquela atração que a aproximava do ente a quem mais amava, e a desprendia aos poucos do espólio que ainda a retinha neste vale de lágrimas.
Só uma inquietação a afligia, ao pensar no próximo termo de seu infortúnio; era a lembrança do desamparo em que ia ficar sua filha Aurélia, já nesse tempo moça, na flor dos dezesseis anos.
De sua família, não podia Emília esperar arrimo para a órfã. As relações, cortadas por ocasião de seu casamento, nunca mais se haviam reatado. Os parentes continuavam a considerá-la mulher perdida; e evitavam o contágio de sua reputação.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)ALENCAR, José de. Senhora. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1847 . Acesso em: 27 jan. 2026.