Por José de Alencar (1873)
Já o galeão, que o governador pusera à disposição do presidente da comarca para transportálo em sua correição, estava sobre amarra, defronte do Rossio do Carmo, aprestado para a viagem e só esperava o magistrado para levar d’âncora e fazer-se ao mar.
A viagem do ouvidor era naquela época fato importante, e pois servia de tema à parlice das calçadas e boticas. Sucedeu que ouvindo falar da próxima partida do Dr. Pedro de Mustre, a qual estava para a madrugada seguinte, o Padre Rafael Cardoso soltou uma risadinha sarcástica.
— Vê-lo-emos!
— Cuida V. Rev.ma que não se partirá o ouvidor?
— Não sei, tornou o padre, metendo-se na concha. Se nesta terra, onde tudo anda em bolandas, se consente comércio com excomungados!...
— Mas então?...
Rompera essa exclamação do pasmo que deixaram na roda as palavras encobertas do padre.
— Deus lhes dê as boas-noites, disse o reverendo embrulhando-se na capa; e sem mais abalou.
Derramou-se imediatamente pela cidade o boato assustador de que o Dr. Pedro de Mustre ia ser excomungado pelo prelado, se àquela hora da noite, sete dadas, já não estava. Uns recebiam a nova persignando-se; outros volviam os olhos em torno, como se receassem o contacto do réprobo; e por toda a parte o rebate ia assoprando no ânimo da população o terror e o assombro.
Não foi Ivo dos últimos a saber da novidade; e atinando com a razão do conflito armado entre o prelado e o ouvidor, sem mais detença tomou seu partido.
Imediatamente deitou-se para o Beco do Cotovelo; mas em vez de buscar a casa bateu à rótula da tia Pôncia:
— Quem é? perguntou a regateira acudindo ao bater.
— Sou eu, tia Pôncia, não me conhece?
— Ah! o enjeitadinho?... Ora, esta minha língua escorrega, que é um Deus nos acuda. Mas não foi por mal, menino. E para bem dizer não é crime ser enjeitado, ainda que... Está bem, isto agora não vem ao caso. Então, menino, que bom vento o trouxe por cá? É grande novidade?
— Pois não sabe o que vai pela cidade?
— Eu?... Sou lá alguma abelhuda mexeriqueira para andar metendo o nariz por toda a parte! Mas visto isso, sucedeu alguma cousa? O que é, menino? Ande, não se faça de rogado! Diga de uma feita!
— Ora, faça-se de novas? Então ainda lhe não soou que o prelado ia excomungar o ouvidor?
— Abrenuntio!... Credo! Quem se pode julgar seguro quando a gente grande leva dessas!... Mas é que alguma ele fez, o tal doutoraço, que também não é lá boa rês. Eu desde que vi aquele toutiço de frade, que lhe tirei as inquirições.
— O ouvidor não fez nada de mais, tia Pôncia. O prelado, ou lá sua gente, que eu não duvido fosse ele mesmo, começou à desinquietar a família do tabelião, e como este não esteve pela graça, deram-lhe uma assuada. Era o caso de devassa, e o Dr. Pedro de Mustre por queixa do Sebastião Ferreira, tratou logo de tirá-la, como tinha de obrigação. Daí vem tudo.
— O caso é este?... disse a velha piscando os olhinhos. Pois, menino, adeus, que tenho mais em que cuidar.
Fechou a Pôncia a rótula; mas poucos instantes decorridos, o Ivo oculto numa esquina a viu sair à sorrelfa embrulhada na mantilha e enfiar rua acima a trote batido. Era o que ele esperava.
Uma hora depois nos quatro cantos da cidade corria a voz de que o motivo da excomunhão fulminada pelo prelado não era outro no fundo, senão a raiva de ver burlados os seus requebros pela filha do tabelião.
A tia Pôncia tinha lançado em uma ou duas casas de terço, por onde passou, aquela semente que brotou com rapidez espantosa. O povo murmurava: e teria dado desde logo sinais de descontentamento, se não fosse a hora da noite, pois já estavam muitos recolhidos.
Em todo o caso o motim ficava armado pelas comadres, tão jeitosamente como o fariam as gazetas, que são as comadres do tempo de agora.
XXII
UMA CERIMÔNIA QUE JÁ NÃO SE VÊ HOJE EM DIA, APESAR
DE AINDA HAVER PROCISSÕES E MASCARADAS DE IGREJA
Amanheceu o dia 3 de novembro sob a grave expectação de um grande acontecimento.
Muito antes das primeiras e tênues alvoradas, abriam-se as portas das casas e os moradores vinham à soleira, na esperança de colher algum vago rumor, que lhes comunicasse o começo do sucesso extraordinário que todos esperavam, mas ninguém previa qual fosse.
Avistando-se uns aos outros, inquiriam-se mutuamente acerca do caso que os punha em alvoroto; mas nada com isso adiantavam, pois nada mais sabiam além do zunzum, que tinha corrido a noite passada, e a que dera causa a indiscrição do Padre Rafael Cardoso.
Quando a primeira barra listrou o horizonte sereno e esclareceu os cimos da Jurujuba, o Dr. Pedro de Mustre Portugal saiu de sua casa, e acompanhado por sua comitiva, composta de dois beleguins e um galego, dirigia-se ao porto a fim de embarcar para o Espírito Santo.
À porta os vizinhos e alguns curiosos que tinham vindo ao cheiro da novidade, se despediam do magistrado com os costumados votos:
— Boa viagem, senhor ouvidor!
— Deus o acompanhe!
— Amém! E o traga a salvamento.
— Que vossa mercê torne, como vai, na paz do Senhor!
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)ALENCAR, José de. Garatuja. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1841 . Acesso em: 26 jan. 2026.