Por Machado de Assis (1876)
Levantou-se enfim; levantou-se abatida e cansada. Viu-se ao espelho; a descor da face e a linha roxa que lhe circulava as dificilmente podiam deixar de impressionar a família. Helena disfarçou como pôde esses vestígios da tempestade; explicou-os do modo mais verossímil: o cansaço da véspera e a insônia de toda uma noite. A explicação não achou obstáculo no ânimo da tia e do irmão. Somente o Padre Melchior, presente a ela, fitou na moça um olhar dubitativo, que a obrigou a baixar os cílios.
Se Helena padecia, o lugar de Estácio não era ao pé dela? Assim pensou o sobrinho de D. Úrsula, que em todo esse dia resolveu não sair de casa. Cercou-a de cuidados, buscou distraí-la, pediu-lhe que fosse repousar um instante. Para justificar a explicação que dera, Helena obedeceu às instruções do irmão. Este foi encerrar-se no gabinete, onde se ocupou em examinar e colecionar alguns papéis. Era o dia marcado para solicitar de Eugênia o consentimento matrimonial, e ele não cogitava em ir ao Rio Comprido. Na irmã, sim; na irmã pensava ele, ora relendo as páginas de sua predileção, ora mandando saber se dormia sosse- gada, ora contemplando o desenho com que ela o presenteara na véspera. Sentia-se tão feliz naquela aurora do ano!
Pouco antes do jantar, ouviu no corredor um rumor de saias, e não tardou que a irmã aparecesse à porta. Vinha como fora; mas a Estácio pareceu que efetivamente o descanso e o sono lhe haviam restaurado as forças. A razão era o sorriso estudado que lhe avivava o rosto. Helena parou e Estácio foi ter com ela, travou-lhe da mão, fê-la entrar.
Estás melhor? perguntou.
Estou boa.
Não dizia eu que era melhor desistir da idéia da reunião? Essas festas prolongam- se, e fatigam, sobretudo as pessoas franzinas...
Helena ergueu os ombros.
Anda sentar-te um pouco.
Primeiro há de responder-me a uma coisa.
Que é?
Que dia é hoje? perguntou ela.
Ano-Bom.
Lembra-se do que me prometeu?
Perfeitamente. Vês estes papéis? disse ele mostrando sobre a secretária uma porção de papéis classificados e postos por ordem. Ocupei-me até agora em liquidar o passado; faltam-se umas últimas contas, que o procurador há de trazer amanhã. Depois, irei...
Helena abanou a cabeça com ar de desaprovação.
Não, disse ela; não há de ir depois, há de ir hoje mesmo. Que têm as contas com a autorização que deve pedir a Eugênia? Vá logo de noite. Sou supersticiosa; creio que o pedido feito no dia de hoje é de excelente agouro. Dará um ano feliz.
Minha intenção era ir dentro de quatro ou cinco dias, respondeu Estácio, depois de um silêncio; mas não tenho dúvida em fazê-lo. Uma vez preenchida a formalidade...
Pedi-la-á imediatamente ao pai.
Não!
Por quê?
Porque precisarei meditar ainda vinte e quatro horas, pelo menos. Vinte e quatro horas não é muito para quem tem de amarrar-se eternamente. Quero sondar meu próprio espírito, e...
Mas tudo isso é uma extravagância! interrompeu Helena sentando-se na borda da rede em que Estácio costumava ler. Pretenderá você recuar depois de lhe falar, a ela?
Oh! não! Mas, uma vez que caminho para solução tão grave, não há inconveniente em ir pé ante pé. Admiras-te? perguntou ele, vendo que a irmã fazia um gesto de impaciência.
Zango-me.
Mas...
Você é insuportável. Falta ao que prometeu.
Já disse que hei de cumprir.
Não recuará?
Não.
Irá pedi-la hoje mesmo?
A ela.
A ela e ao pai.
Ao pai escreverei uma carta.
Pois seja uma carta! Contanto que acabe com isso. O casamento será...
Quando convier ao Dr. Camargo.
Antes do fim do mês.
Tão cedo!
Dou-lhe mês e meio. Nem uma hora mais! Estou morta por vê-los casados, tanto por você como por ela, coitada! que o ama tanto.
Crês? perguntou vivamente Estácio.
Se creio! Posso afirmá-lo. Não será amor como você quisera que fosse, mas é o amor que ela lhe pode dar, e é muito ... Está dito! Palavra?
Estácio estendeu silenciosamente a mão, que Helena apertou.
Vou confiar todo o meu destino à cabeça mais leve do universo, disse Estácio, com os olhos fitos no chão. Não é de seu coração que me queixo; mas de seu espírito, que nunca deixou as roupas da infância. Demais, à medida que me aproximo da hora solene, sinto que me repugna o estado conjugal. É tão boa a minha vida de solteiro! tão cheios os meus dias...
Helena tapou-lhe a boca com uma das mãos; com a outra fez-lhe um gesto para que se calasse. Depois, fugiu. Uma vez só, Estácio refletiu longamente na situação em que se achava; reconheceu que estava moralmente obrigado a pedir Eugênia, desde que seus corações se tinham aberto um para o outro, celebrando um contrato, que ele só não podia romper. A consciência rebelou-se contra as irresoluções do coração, e a decisão foi curta.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)ASSIS, Machado de. Helena. Rio de Janeiro: Garnier, 1876.