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#Tratados#Literatura Brasileira

Tratado descritivo do Brasil em 1587

Por Gabriel Soares de Sousa (1587)

Pedro de Góis foi um fidalgo muito honrado, cavaleiro e experimentado, o qual andou na costa do Brasil com Pedro Lopes de Sousa, e se perdeu com êle no Rio da Prata; e pela afeição que tomou deste tempo à terra do Brasil, pediu a el-rei D. João, quando repartiu as capitanias, que lhe fizesse mercê de uma, da qual S. A. lhe fez mercê, dando-lhe trinta léguas de terra ao longo da costa, que se começariam onde se acabava a capitania de Vasco Fernandes Coutinho, e daí até onde acaba Martim Afonso de Sousa, e que, não as havendo entre uma capitania e outra, que lhe dava somente o que houvesse, o que não passaria dos baixos dos Pargos. Da qual capitania foi tomar posse numa frota de navios, que à sua custa para isso fez, que proveu de moradores, armas e o mais necessário para tal empresa, com a qual frota se partiu do porto de Lisboa, e fez sua viagem com próspero tempo, e foi tomar terra e porto na sua capitania, e desembarcou no rio Paraíba, onde se fortificou, e fez uma povoação em que esteve pacificamente os primeiros dois anos, com os gentios goitacases seus vizinhos, com quem teve depois guerra cinco ou seis anos, dos quais se defendeu com muito trabalho e risco de sua pessoa, por lhe armarem cada dia mil traições, fazendo pazes, que lhe logo quebravam, com o que lhe foram matando muita gente, assim nestas traições como em cercos, que lhe puseram, mui prolongados, com o que padeceu cruéis fomes, o que não podendo os moradores sofrer apertaram com Pedro de Góis rijamente, que a despovoasse, no que ele se determinou obrigado destes requerimentos e das necessidades em que o tinham posto os trabalhos, e ver que não era socorrido do reino como devera. E vendo-se já sem remédio, foi forçado a despejar a terra, e passar-se com toda a gente para a capitania do Espírito Santo, onde estava a esse tempo Vasco Fernandes Coutinho, que lhe mandou para isso algumas embarcações. E como Pedro de Góis teve embarcação, se tornou para estes reinos mui desbaratado, dos quais voltou a ir ao Brasil por capi-tão-mor do mar com Tomé de Sousa, que neste Estado foi o primeiro governador-geral, com quem ajudou a povoar e fortificar a cidade do Salvador, na baía de Todos os Santos.

Nesta povoação que Pedro Góis fez na sua capitania gastou toda a sua fazenda que tinha no reino, e muitos mil cruzados de Martim Ferreira, que o favoreceu muito com pretensão de fazerem por conta da companhia grandes engenhos, o que não houve efeito pelos respeitos declarados neste capítulo.

C A P Í T U L O XLV

Em que se diz quem são os goitacases, sua vida e costumes.

Pois que temos declarado quase toda a costa que senhoreavam os goitacases, não é bem que nos despeçamos dela passando por eles, pois temos dito parte dos danos que fizeram aos povoadores do Espírito Santo e aos da Paraíba, os quais antigamente partiam pela costa do mar da banda do sul com os tamoios, e de norte com os papanases, que viviam entre eles, e os tupiniquins, e como eram seus contrários, vieram a ter com eles tão cruel guerra que os fizeram despejar a ribeira do mar, e irem-se para o sertão, com o que ficaram senhores da costa até confinar com os tupiniquins, cujos contrários também são, e se matam e comem uns aos outros, entre os quais estava por marco o rio de Cricaré.

Este gentio foi o que fez despovoar a Pedro de Góis, e que deu tantos trabalhos a Vasco Fernandes Coutinho. Esse gentio tem a cor mais branca que os que dissemos atrás, e tem diferente linguagem; é muito bárbaro; o qual não granjeia muita lavoura de mantimentos: plantam somente legumes, de que se mantêm, e a caça, que matam às flechadas, porque são grandes flecheiros. Não costuma esta gente pelejar no mato, mas em campo descoberto, nem são muito amigos de comer carne humana, como o gentio atrás; não dormem em redes, mas no chão, com folhas debaixo de si. Costumavam estes bárbaros, por não terem outro remédio, andarem no mar nadando, esperando os tubarões com um pau muito agudo na mão, e, em remetendo o tubarão a eles, lhe davam com o pau, que lhe metiam pela garganta com tanta força que o afogavam, e matavam, e o traziam à terra, não para o comerem para o que se não punham em tamanho, perigo, senão para lhes tirar os dentes, para os engastarem nas pontas das flechas. Tem esse gentio muita parte dos costumes dos tupi-nambás, assim no cantar, no bailar, tingir-se de jenipapo, na feição do cabelo da cabeça e no arrancar os mais cabelos do corpo e outras gentilidades muitas que, por escusar prolixidade, as guardamos para se dizerem uma só vez.

C A P Í T U L O XLVI

Em que se declara, em suma, quem são os papanases e seus costumes.

Parece conveniente este lugar para brevemente se dizer quem são os papanases, de quem atrás fizemos menção, e porque passamos o limite de sua vivenda nos tempos antigos, não é bem que os guardemos para mais longe.

(continua...)

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