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#Romances#Literatura Brasileira

Bom-Crioulo

Por Adolfo Caminha (1895)

O comandante aproximou-se também, mas retirou-se logo com o seu desdenhoso aspecto de fofa nobreza: — “Não se iludam, não se iludam!”

E daí a pouco largava um escaler sem flâmula, conduzindo o marinheiro para o hospital.

Fica-te malvado, fica-te! exclamou Bom-Crioulo, voltando-se para o couraçado, em caminho: — Fica-te!

Aleixo nesse dia estava de folga, e muito cedo, cousa de um hora, veio à terra impelido por uma grande saudade que o fazia agora escravo da portuguesa. Receava encontrar Bom-Crioulo, ter de o suportar com seus caprichos, com o seu bodum africano, com os seus ímpetos de touro, e esta lembrança entristecia-o como um arrependimento. Ficara abominando o negro, odiando-o quase, cheio de repugnância, cheio de nojo por aquele animal com formas de homem, que se dizia seu amigo unicamente para o gozar. Tinha pena dele, compadecia-se, porque, afinal, devia-lhe favores, mas não o estimava: nunca o estimara!

Subiu devagar, pé ante pé, a escada do sobradinho, meticulosos, agarrandose à parede, ouvido alerta, comprimindo a respiração. — Felizmente a porta de cima estava aberta...

De vez em quando pisava em falso e os coturnos de bezerro gemiam surdamente. — Era o diabo se o Bom-Crioulo estivesse...

Foi andando sempre cauteloso, té à sala de jantar. Ninguém! Enfiou pela cozinha; e, da janela que abria para o quintal, viu lá baixo, vergada sobre um montão de roupa úmida, a portuguesa em tamancos, arregaçada e sem casaco, às voltas, cantarolando. O instinto fê-la voltar-se e olhar para cima; seu primeiro movimento foi um grito de surpresa e alegria: — Oh! o pequenino, o meu pequenino! já lá vou. Espera, sim?

Aleixo pediu silêncio, com o dedo na boca, e, indicando o sótão, perguntou, debruçando-se à janela, sem Bom-Crioulo estava...

— Qual Bom-Crioulo! rompeu D. Carolina alto e sem mistério, estabanadamente. Qual Bom-Crioulo! Tua negra está só, meu pequenino! Já lá vou.

Mas o grumete não se conteve: desceu ao quintal para examinar aquela fartura de mulher em trajos de lavadeira, que seus olhos viam extasiados.

Com efeito, a portuguesa estava irresistível para um adolescente nas condições de Aleixo, bisonho em aventuras dessa ordem, e cuja virilidade apenas começava a destoucar-se.

D. Carolina vestia camisa e saia curta que lhe dava pelo joelho; a cabeça estava coberta com um grande lenço de chita amarrado por baixo do pescoço.

— Não venhas, meu pequeno, disse ela, percebendo as intenções de Aleixo. Olha, deixa-me acabar isto, sim?

O grumete formalizou-se: — “Oh! podia acabar podia acabar...” E logo, aproximando-se:

— Vim apenas vê-la de perto...

— Estás caçoando, hein! estás caçoando com a tua velha... — Caçoando, não. Estou falando sério.

A portuguesa desatou numa risada límpida e gostosa, de uma sonoridade vibrante, sacudindo os quadris, cabeceando histericamente:

— Ora o meu pimpolho! Ora o rico pimpolhozinho!

E ria, ria num desespero. Aleixo encavacou:

— Está bom, vou-me embora.

— Oh! não, não... Brincadeira! Se vais, fico zangada. Vê lá, hein! vê lá...

E com fingida ternura, ameigando a voz:

— Fica, meu bonitinho, fica, junto à tua negra...

Ele sorriu vagamente e entraram a conversar como bons amigos.

Estiveram ali, debaixo do telheiro de zinco, um ror de tempo — o grumete sentado à beira do tanque, perna trançada, a portuguesa muito açodada na faina de concluir a lavagem.

Fora daquele pequeno espaço refrescado pela água, brilhava o sol com uma intensidade rútila e abrasadora. O capim seco do coradouro ardia, muito raso, muito desolado e outoniço. Na vizinhança, um papagaio de estima berrava estridentemente. Havia grande calma. A água da bica não cessava de cantar no tanque, escorrendo, escorrendo...

Aleixo dependurou a jaqueta de flanela azul e deixou-se ficar em camisa de meia, ouvindo cantar a água, enquanto D. Carolina ia enxaguando a roupa.

Falaram em Bom-Crioulo e riram à custa do negro, baixinho, à socapa.

— Boa criatura! sentenciou a portuguesa com um quê de ironia. — Para o fogo! acrescentou Aleixo.

Não sabiam do “rolo”. A portuguesa disse apenas que o outro saíra na véspera, depois do meio dia, e não regressara. — Naturalmente fora preso... Um relógio deu horas.

— Quantas? perguntou a mulher.

— Quatro, disse o grumete.

— Jesus! Vou acabar, vou acabar! Fica pr’amanhã o resto.

— É! Basta de trabalho, isso não vai a matar, disse Aleixo erguendo-se.

E seus olhos pousavam traiçoeiramente sobre o colo nu, sobre a espádua nua de D. Carolina, cheios de desejo, ávidos de gozo.

Ela, como se sentisse no próprio corpo as ferroadas daquele olhar, como se lhe experimentas e o calor vivo, a força magnética, o poder físico, material e irresistível, chegou-se ao grumete e disse-lhe ao ouvido estas palavras, que produzira, nele o efeito indizível e vago de um estremecimento nervoso: — Vamos tomar banho?...

— Aqui?

— Por que não?

— Podem ver...

— Fecha-se a porta da rua. Não tenho inquilinos agora...

(continua...)

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