Por Inglês de Sousa (1891)
Um soluço comprimido abalou o auditório, como se uma corrente simpática tivesse reunido todas as pessoas presentes na expansão do mesmo sentimento.
O Costa e Silva parecia aniquilado. De mão ao peito, olhos baixos, era uma estátua da contrição e do arrependimento. O Mapa-Múndi, suava, torturado.
Olhando para eles, vendo-os vencidos, padre Antônio de Morais deixou escapar um sorriso de triunfo, e entrou numa peroração brilhante, cheia de eloqüência, repassada do mais poderoso sentimento religioso. O povo, subjugado, tremia e admirava. Nunca a tribuna sagrada, em Silves, fora levantada àquela altura. Nunca naquele pobre e obscuro recinto do velho templo arruinado ecoara uma voz tão sonora, tão vibrante e entusiástica, tão rica em rasgos de verdadeira eloquência. Umas vezes singelo e chão, baixando ao nível da compreensão dos tapuios ignorantes e das mulheres do povo, outras, alteando-se até o estilo puramente literário, encantando e dominando o auditório somente pela música da voz e pela sonoridade retumbante de grandes frases que pareciam encher a modesta sala da igreja paroquial, padre Antônio tinha a doçura do pai que fala a filhos estremecidos, o carinho da mãe que embala o pequenino doente, a calma do amigo que aconselha, a severidade do juiz que castiga, a raiva da vítima que se vinga. O seu rosto refletia, como num mármore polido, os sentimentos que se sucediam no largo peito, arfante sob a sobrepeliz de rendas brancas. Os olhos brilhavam-lhe com o fulgor da cólera, depois aveludavam-se, ameigavam-se para acentuar as palavras doces que saíam dos lábios, depois, ainda, fixos, grandes, encarando entes ou cenas invisíveis, tinham a profundeza escura dos abismos... A boca severa, convulsa, dizia maldições, ameaças e castigos, mas logo desatava-se em murmúrio brando, semelhante ao ciciar da brisa das campinas, em que se ouvem o ruído leve das folhas levadas pelo vento e um vago som de beijos. A sua alta estatura impunha-se à multidão. Da elevada posição em que se achava parecia ter baixado do céu para castigar os maus e abraçar os bons. Dizia de novo o martírio, a angústia de Maria Santíssima, a ingratidão dos homens, o terrível nada do mundo. Tinha orações que açoitavam, que faziam o auditório vergar-se como árvores batidas pelo tufão do sul, ditos que punham uma angústia inexprimível no coração dos homens, um doloroso desalento no peito fraco das mulheres, gestos de compaixão e de dor fazendo correr lágrimas de arrependimento. Havia uma hora que o sermão durava. O povo desabituado, vencido pela emoção, abatido pelo calor que se desprendia dos corpos com emanações de suor e de perfumes de trevo, de patchuli e de manjerona, parecia uma cera mole que o padre amoldava a seu talante. Parca era a luz que penetrava pelas vidraças estreitas e embaçadas. Do alto do telhado, às pausas do orador, os morcegos chiavam, e as vespas e cabas, deixando os ninhos e cortando subitamente a nave em diagonal, zumbiam descontínua e lugubremente. Os raios do sol, coando pelos vãos das telhas e pelas altas janelas, davam tons macilentos às grandes imagens velhas, imóveis sobre os altares, com uma aparência de desolada miséria. As almas penadas dos retábulos e dos grandes quadros parietais, desmaiavam na fogueira, inspirando horror e lástima. Do teto, suspensa por compridas e finas correntes de ferro, uma grande lâmpada de azeite, fracamente iluminada, pendia em frente ao altar-mor, projetando uma sombra esguia sobre o pavimento da igreja, e quando o vento que entrava pela porta lateral da sacristia, a balançava de leve, a sombra varria o povo ajoelhado, impressionando as velhas beatas assustadas. O calor aumentava, o suor banhava as frontes, era enorme a opressão dos peitos. O pregador pôs-se a falar na eternidade, nessa terrível concepção que abala os corações mais fortes e confunde os espíritos mais lúcidos. E quando pronunciava em voz grave e lenta as palavras - Para sempre!
Para sempre! parecia que a sua voz acompanhava o pêndulo invisível do tempo no eterno e monótono balanço. Depois, por uma transição rápida terminando o discurso, disse que a misericórdia divina era infinita e convidou o povo a dizer com ele a oração dominical na esperança de abrandar a cólera celeste.
Mas em vez de o acompanhar na oração, vendo-o de braços estendidos e cabeça baixa a murmurar - Padre-nosso que estais no céu - com submissão humílima, e como se a humildade e o aviltamento daquele padre, havia pouco tão severo e grandioso, provasse mais a magnitude da cólera celeste de que todo o seu discurso, o auditório, no auge do terror e do arrependimento, pôs-se a bradar angustiado:
— Misericórdia, misericórdia!
E na ânsia de se vilipendiar em público, castigando a carne pecadora e provando o arrependimento que lhe ganhara o coração, toda a gente se pôs a bater na cara com ambas as mãos, produzindo um ruído seco e prolongado como uma salva de palmas, na platéia dum teatro.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)AZEVEDO, Aluísio Azevedo. O missionário. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16663 . Acesso em: 27 mar. 2026.