Por Domingos Olímpio (1903)
— Depois? Enquanto durou o dinheiro, quase um ano, fiquei com a tal velha que foi a minha asa-negra. Tomou conta de mim como de uma besta de carga; fazia de mim o que queria; mandava e eu me sujeitava, calejada, estando por tudo sem protestar, sem me aborrecer. A. velha, que era toda agrados enquanto eu estava rica, virou para me insultar e, uma vez por outra, me atirava à cara que era necessário ganhar com que pagar o pirão que eu comia, porque não era minha escrava...
— Não prenderam Bentinho?...
— Qual prisão, qual nada!... Ficou solto, e respondeu o jurado quando muito bem quis. O pai dele, o coronel Manel Fernandes era o maioral dono da terra.
— Ficou um ano, dizia você...
— Pouco mais ou menos, contando do dia da briga, até quando a velha morreu de um nó na tripa. Dei graças a Deus por me haver livrado de semelhante bruxa, e resolvi voltar para a casa de meu pai, embora ele, que era teimoso e ríspido, me matasse; mas, em caminho, tentou-me o demônio e fui rolando de um lado para outro, de povoação em povoação, até que a seca me apanhou. E aí está, minha camarada, como vim bater aqui.
Ela, com efeito, peregrinara pelo vasto sertão, de miséria em miséria, rastolhando, perdida como um pedaço de pau arrastado pela correnteza do rio, caindo nas cachoeiras, mergulhando nos rebojos, surgindo adiante, para bater de novo sobre pedras, tornando a ser arrebatado, até que, ao baixar das águas, pára, coberto de paul e ervas secas, garranchos e flores, que transportou de longe, esperando a enchente na próxima estação, e continuando a trágica jornada, até apodrecer em ribas desoladas, ou perder-se na imensidade do oceano.
É essa a história da peregrinação mundana das desgraçadas, que se desterram no seio amigo da família, quebrando o suporte dos afetos puros, e vagando sem rumo, na ebriedade de gozos efêmeros, à mercê da fatalidade intangível e cega.
CAPÍTULO XIII
Esteve-se Luzia absorta, fitando em Teresinha demorado olhar aceso de admiração, como se lhe ela se revelasse sob a forma estranha e sugestiva de uma heroína provada nos mais rudes lances da luta pela vida, e conservando ainda o coração sensível aos nobres impulsos de ternura, de dedicação e piedade do infortúnio alheio. Os episódio romanescos, que ouvira num enlevo de surpresa e espanto, como as crianças ouvem, tímidas, maravilhosas histórias de fadas e princesas encantadas, ou as proezas de lobisomem e cavalos sem cabeça, vagando pelos campos, nas noites tétricas em que os jacurutus sinistros piam à beira dos rios; todos aqueles casos da paixão dominadora arrastando, lentamente, para a voragem, a rapariga franzina, indiferente ao perigo, sem saudades da casa paterna e sem remorso da culpa que a poluíra, incapaz de resistir, e reincidindo no pecado como um vicioso na absorção de licores capitosos que o intoxicam, flutuando na embriaguez da volúpia e despertando maculada e resignada à própria vergonha, assumiam, na sua imaginação excitada, proporções gigantescas de feitos valorosos, extraordinárias façanhas de uma criatura forte, disfarçada sob ilusórias aparências de debilidade doentia. Disseram-lhe que o sofrimento embotava as delicadas fibras do coração; que o pecado o esterilizava, como o sol esteriliza a terra, e estiolava as florações sadias da semente do bem; entretanto, Teresinha era a negação viva dessas verdades afirmadas por uma moral de convenção, sentimental e absurda. Tinha a superioridade da mulher contente de sofrer pelo seu amor, como um crente pela sua fé, o martírio ultrajante do desprezo, o vilipêndio de viver execrada; aceitara, com resignação de forte, as conseqüências todas do primeiro passo, dado no enlevo de um sonho delicioso, para o declive fatal, onde ninguém mais se detém e se equilibra. Deveriam ser fortes, admiráveis, as mulheres que sobrevivessem às provações do opróbrio, com a alma imaculada; e Luzia, apesar de seus músculos exuberantes, se sentia aniquilada, ao pensar em ser colhida por um só dos incidentes da pitoresca vida de Teresinha; morreria extenuada como um pássaro cativo na arapuca. Seria horrível ver morrer o homem amado, o abandono, o ser surrada pelo amante, brutalmente sensual, e, todavia, lamentar-lhe a morte... Seria horrível, seria monstruosa essa escravidão da mulher desbriada ao senhor do seu corpo, essa passividade de animal, de coisa a mudar de dono. Ocorria-lhe, então, que não havendo experimentado essa abjeção, não tinha direito de maldizer da sua sorte, incomparavelmente mais propícia que a de Teresinha, a heróica rapariga que se não queixava.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)AZEVEDO, Aluísio Azevedo. O touro negro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7415 . Acesso em: 25 mar. 2026.