Por Aluísio Azevedo (1881)
Principiou expondo minuciosamente o Largo dos Remédios, com a sua ermida toda branca, seus bancos em derredor; muitos ariris, muita bandeira, muito foguete, muito toque de sino. Descreveu com assombro o luxo exagerado em que se apresentavam todos, todos! para a missa das seis e para a missa das dez nas quais, dizia ele circunspectamente, reúne-se a nata da nossa judiciosa sociedade!...” Era tudo em folha, e do mais caro, e do mais fino. Nesse dia todos luxavam, desde o capitalista até o ralé caixeiro de balcão: velho ou moço, branco ou preto, ninguém lá ia, sem se haver preparado da cabeça aos pés; não se encontrava roupa velha, nem coração triste!
— As quatro horas da tarde, acrescentou o narrador, torna-se o largo a encher. Pensará talvez o meu amigo que tragam a mesma fatiota da manhã...
— Naturalmente...
— Pois engana-se! e tudo outra vez novo! são novos vestidos, novas calças, novas...
— Etc., etc.! Vamos adiante.
— Afirmam alguns estrangeiros... e dizendo isto tenho dito tudo!... que não há, em parte alguma do mundo festa de mais luso!...
E a voz do maçante tomava a solenidade de um juramento.
— O que lhe posso afiançar, doutor, é que não há criança que, nessa tarde, não tenha a sua pratinha amarrada na ponta do lenço. Aparecem cédulas gordas moedas amarelas; troca-se dinheiro; queimam-se charutos caros, no bazar (há um bazar) as prendas sobem a um preço escandaloso! Digo-lhe mais: nesse dia não há homem, por mais pichelingue, que não gaste seu bocado nos leilões, nas barracas, nos tabuleiros de doce ou nas casas de sorte; nem há mulher senhora ou moça-dama, que não arrote grandeza, pelo menos seu vestidinho novo de popelina. Vêem-se enormes trouxas de doce seco, corações unidos de cocada, navios de massa com mastreação de alfenim jurarás dourados, cutias enfeitadas dentro da gaiola pombos cheios de fitas frascos de compota de murici, bacuri, buriti, o diabo, meu caro senhor! As pretas-minas cativas, ou forras surgem com os seus ouros as suas ricas telhas de tartaruga as suas ricas toalhas de rendas, suas belas saias de veludo. suas chinelas de polimento seus anéis em todos os dedos aos dois e aos três em cada um... E este povo mesclado. coberto de luso, radiante, com a barriga confortada e o coração contente, passeia, exibe-se, ancho de si pensando erradamente chamar a atenção de todos, quando aliás cada qual só pensa e repara em si próprio e na sua própria roupa!
Raimundo ria-se por delicadeza, e espreguiçava-se na cadeira, bocejando.
— À noite, continuou o Freitas, ilumina-se todo o largo. Armam-se grandes e deslumbrantes arcos transparentes, com a imagem da santa e os emblemas do Comercio e da Navegação. que Nossa Senhora dos Remédios é padroeira do Comércio, e é este que lhe dá a festa. Mas bem, faz-se a iluminação — armas brasileiras estrelas vasos caprichosos, o nome da santa, tudo a bico de gás. não contando uma infinidade de balõezinhos chineses que brilham por entre as bandeiras, os florões os ariris, as casas de música; em uma palavra fica tudo, tudo, claro como o dia!
Raimundo soltou um suspiro profundo e mudou de posição.
— Há também para os moleques, um pau-de-sebo balanços e cavalinhos. E verdade! o doutor sabe o que e um pau-de-sebo?...
— Perfeitamente Tenha a bondade de não explicar.
— Com franqueza! Se não sabe, diga, que eu posso...
— Ora por amor de Deus! faz-me o favor em não se incomodar juro-lhe! Estou impaciente pelo resultado da festa. Continue!
— Pois sim, senhor Dão oito horas.. Ah. meu caro amigo! então surge de todos os cantos da cidade uma aluvião interminável de famílias, de velhos, moços, meninos, mulatinhas e negrinhas que enchem o largo que nem um ovo! Pretos de ambos os sexos e de todas as idades desde o moleque até o tio velho, acodem, trazendo equilibradas nas cabeças imensas pilhas de cadeiras, e, com estas cadeiras, formam-se grandes rodas mesmo na praça, ao ar livre, e as famílias, ou ficam ai assentadas, ou, a titulo de passeio, acotovelam-se entre o povo. Fazem-se grupos, a gente ri, discute, critica, namora, zanga-se, ralha..
— Ralha?
— Ora! Já houve uma senhora que castigou um moleque a chicote, lá mesmo no largo!
— A chicote?
— Sim, a chicote! Aquilo, meu caro doutor, é uma espécie de romaria! As famílias levam consigo potes de água, cuscuz, castanhas assadas, biscoitos e o mais . E tudo isto ao som desordenado da pancadaria de três bandas de música, dos gritos do leiloeiro e da inqualificável algazarra do povo!
Raimundo quis levantar-se; o outro obrigou-o a ficar sentado, pondo-lhe as mãos nos ombros.
— Estamos no apogeu da festa! exclamou o maçante.
— Ah! gemeu Raimundo.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)AZEVEDO, Aluísio Azevedo. O mulato. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16537 . Acesso em: 25 mar. 2026.