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#Romances#Literatura Brasileira

O Livro de uma Sogra

Por Aluísio Azevedo (1895)

E as coisas assim corriam bem. Ele perseguia e cercava Palmira por toda a parte e em todos os lugares, no passeio, nos teatros, nas compras à rua do Ouvidor; mas, quando me via, antes de ver minha filha, perturbava-se logo, sem ânimo de vir ter conosco e contentando-se apenas em cumprimentar-nos com o chapéu. Coitado!

tinha-me medo!

Ah! se ele soubesse todavia quanto o meu coração é bom!

Pareceu-me chegada a ocasião de preparar o espírito de minha filha para a campanha já travada. Conversei largamente com ela. Falei-lhe muito do seu casamento, não em tom de mãe ralhadora, mas no de amiga confidente; falei-lhe como se fosse apenas uma sua irmã mais velha. Palmira, felizmente, compreendeu e compenetrou-se do louvável alcance da minha norma de proceder. Disse-lhe claramente que a sua felicidade dependia daqueles alicerces; e que ela me deixasse, a mim, parecer às vezes impertinente e dominada por espírito de contrariedade; que deixasse, confiante no futuro; não era natural que estivesse eu em erro, porque toda a complicada arquitetura do edifício daquela felicidade tinha a sua base na experiência dos fatos essenciais da vida doméstica e no profundo estudo da desgraça do amor conjugal. Ela, ameigando-me contente jurou que de corpo e alma se entregaria às minhas mãos, e que nem só me obedeceria sempre, mesmo depois de casada, como ainda havia de ajudar-me na execução dos meus desígnios.

Abraçamo-nos, satisfeitas e concertadas com aquela conferência.

— Olha! disse-lhe, em remate. Asseguro-te é que, até hoje, mãe nenhuma pensou na felicidade de sua filha com tamanha dedicação, nem fez por ela os sacrifícios que por ti afronto, minha Palmira. O menos que me pode acontecer é ser amaldiçoada por teu futuro marido, por quem aliás devia eu ter o direito de ser amada como verdadeira protetora. Ah! não me iludo neste ponto! Não procuro enganar-me — bem sei o que me espera!...

No dia seguinte a esta conversa, que sem dúvida ia ter uma grande influência moral no destino de minha filha, mandei preparar as malas e parti com ela para Petrópolis, combinando entre nós duas que de nada se daria parte ao pretendente. Manobra de guerra! Queria provocar o inimigo. A minha retirada brusca era simples negaça feita ao assaltante. Convinha que Leandro, desde logo, se fosse habituando ao meu sistema estratégico.

Produziu efeito. Ele, três dias depois, surgia-nos por lá, com um ar de hesitação solerte e um grande ramo de camélias frescas. Recebi por minha parte a visita um pouco friamente, e nenhuma de nós duas insistiu com ele para que se demorasse. O rapaz, logo à primeira despedida, foi-se, escabreado e vermelho de confusão.

Como no outro dia, encontrando-nos na rua, se embandasse conosco para um passeio à Renana e declarasse que passaria o resto do mês em Petrópolis, tocamos na manhã seguinte para a cidade, sem que ele desse pela nossa retirada. Palmira tentara interceder desta vez pelo namorado; arriscara mesmo a súplica de um dia mais de demora; eu, porém, cortei-lhe a palavra com um olhar, em que a pobre criança leu toda a inutilidade da sua pretensão.

Foi um mês depois disso que se deu o pedido de casamento.

Era domingo; tínhamos acabado de jantar e havíamos passado para o gabinete de trabalho que fora de meu marido, quando, depois de ouvir parar um carro à porta da rua, veio o criado anunciar-me que o Sr. Leandro, vestido de casaca, estava à espera na saleta do corredor e desejava falar-me.

Compreendi logo do que se tratava: César já me tinha preparado; mas nem por isso foi menos agudo o choque que senti no coração. Troquei um olhar com Palmira, que abaixou as pálpebras enrubescendo. Mandei que o criado conduzisse o visitante para o salão, e disse depois a minha filha, cujo crescente sobressalto lhe fazia arfarem os seios, que se não nos apresentasse sem ser chamada; passei-lhe com os olhos uma rápida revista da cabeça aos pés, fiz-lhe ligeiras correções no penteado, dei-lhe um beijo e saí do gabinete.

Ó meu Deus! ia travar-se o grande momento, que de antemão me fazia tremer de medo; medo de que o ridículo, num só instante, derribasse todos os meus castelos de mãe amorosa e sonhadora. O que iria passar-se naquela sala entre mim e o pretendente de minha filha?... Mas era preciso não hesitar no que estava por mim determinado, porque assim exigia a felicidade dela! Entrei um instante no quarto do oratório e, numa ligeira súplica, pedi coragem a Deus; segui depois até ao toucador, alisei melhor os cabelos sobre as fontes, corri os olhos rapidamente pela roupa, e fui ter com a visita.

Entrei na sala vagarosamente, afetando grande tranqüilidade; havia, porém, de estar ainda ofegante e pálida.

Leandro mostrava-se francamente comovido. Ao ver-me, precipitou-se ao meu encontro e balbuciou algumas palavras de cortesia, que lhe não passaram dos lábios.

Fi-lo assentar-se e assentei-me perto dele.

(continua...)

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