Por Aluísio Azevedo (1895)
E tudo isso era praticado com tamanha seriedade, com tanto afeto e respeito, que a velha principiou a enxergar no Coruja um noivo capaz de fazer a felicidade da filha e, por conseguinte, a sua felicidade dela, Margarida.
Mas o pior era que, a despeito dos conselhos maternos, Inez tratava o seu dedicado professor com a mesma dubiedade de maneiras, com a mesma frieza e, pode-se dizer até, com a mesma diferença com que tratava a toda gente. Seus gestos e seus olhares estavam como a dizer: A mim tanto se me dá seis como meia dúzia... Casar com este ou casar com aquele, para mim é tudo a mesma coisa, contanto que não me incomodem e não me obriguem a ter de tomar uma resolução. Querem que eu case com o Sr. Miranda? Pois seja, não digo o contrário, mas, por amor de Deus, deixem-me em paz!...
A mãe, porém, que não tinha aquela flegma e entendia que sem a sua intervenção nada se arranjaria, resolveu tomar o negócio a seu cuidado.
- O Sr. Miranda nunca pensou em casar?... perguntou-lhe ela uma vez, sem mais preâmbulos.
André corou e respondeu que não podia ainda pensar nisso.
- Ainda é muito cedo..., disse.
E, abaixando os olhos e a voz:
- Além de que eu não devo esperar semelhante coisa... Conheço-me perfeitamente. sei quanto sou feio.. . quanto sou antipático... Onde iria descobrir uma mulher que me aceitasse?...
- Quem sabe lá!... retrucou a velha, olhando com intenção para o lado da filha. Quem sabe lá, seu Miranda!... As; vezes a gente nem desconfia e as coisas estão nos entrando pelos olhos!.
André tornou a corar, mas desta vez sorrindo e levantando a vista para sua discípula. Inez, porém, não fugia nem mugia. Ali estava, como uma empada, tão pronta para casar no dia seguinte como para não casar nunca.
A velha, percebendo isso e confiando muito pouco no gênio iniciativo do professor, teimou com tal insistência nas suas ilusões, que o rapaz não teve remédio senão entrar no assunto.
-Ah! eu não digo que... sim, quer dizer, se eu encontrasse uma menina de bom gênio, que me estimasse, não digo que não; teria até multo prazer com isso.
- Pois há! acudiu a velha; há uma menina nessas condições! E ali está ela defronte de vós! Não é verdade, Inezinha, que de bom grado aceitarias o Sr. Miranda para teu marido?
Inezinha disse que sim com a cabeça, e a velha acrescentou, muito comovida:
- Pois então, meus filhos, abracem-se em minha presença. Quero ver isto assentado de pedra e cal! Vamos, vamos! Não tem de que se mostrar tão envergonhados... . Então, Inez! então, Sr. Miranda ...
Os dois taciturnos namorados ergueram-se em silêncio e deram entre si um abraço de pura formalidade.
- Agora, volveu D. Margarida, é cuidarmos de decidir quando há de ser o grande dia!
O Coruja, sempre metódico e cauteloso, declarou que achava bom esperar um pouco. Nada de precipitações!... Ele estava no princípio de sua carreira, ainda não podia realizar o casamento; mas, se es coisas caminhassem para a frente, como era de esperar, em breve tudo se poderia fazer.
Desde então as suas constantes visitas à casa da discípula tomaram um caráter mais exclusivo e mais familiar. Aparecia agora mais cedo e assentava-se ao lado da noiva, no mesmo lugar onde, desde o princípio, se habituara a dar as suas lições.
O estudo durava em geral duas horas, no fim das quais se afastavam os livros e começavam todos os três a conversar até ao bater das nove.
Coruja, fácil como era para se escravizar aos hábitos, no fim de algum tempo já não podia passar sem aqueles calmos serões à luz do velho candeeiro de D. Margarida; já não podia dispensar a xicarinha de café, que ele ouvia moer no pilão, no quintal; e precisava sentir ao seu lado, durante aquelas horas certas, o vulto passivo e silencioso de Inez. Seu coração imaculado e casto foi pouco a pouco se deixando vencer por um sentimento até aí desconhecido para ele.
Era um amor muito transparente, muito calmo, que esperava com evangélica paciência o dia da ventura, sem a mais ligeira perturbação dos sentidos.
V
Desde que André se mudou para o colégio, a casa de Teobaldo foi aos poucos perdendo o seu digno aspecto de asseio e de ordem, até se transformar em verdadeira república de estudantes.
A Ernestina ficou pasma.
- Como este rapaz tem mudado!... exclamava ela a cada instante, sem atribuir sequer ao outro, ao feio, a alma da primitiva limpeza e do primitivo arranjo, que tanto a maravilharam.
Agora, Teobaldo já não tinha, como dantes, certo escrúpulo em conservar a casa decente. Os seus companheiros da pândega, que lhe pareciam com mais freqüência, já não lhe ouviam dizer em certas ocasiões: "Não; não façam isso, para não afligir o Coruja!
Ele não gosta destas brincadeiras!..."
Ernestina suportava-lhe as estouvices porque não tinha outro remédio: adorava-o cada vez mais; sofria em vê-lo tão extravagante, tão sem correção e sem ,juízo, mas sofreria ainda pior se não o pudesse ver absolutamente.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)AZEVEDO, Aluísio Azevedo. O coruja. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7406 . Acesso em: 18 mar. 2026.