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#Romances#Literatura Brasileira

Filomena Borges

Por Aluísio Azevedo (1884)

As repetidas viagens, o atrito com as populações estranhas, a familiaridade com os costumes de mil povos diversos, a experiência das comoções transcendentes, deram-lhe grande desembaraço aos movimentos, certa elegância máscula, de trappeur, que de alguma forma dizia bem com os seus músculos atléticos. Agora tinha exclamações em todas as línguas, anedotas de toda a espécie, termos e frases de todo o mundo. E as correrias, os exercícios, os perigos, fizeram-no intrépido, aventuroso, despejado de maneiras, enérgico como um herói do romantismo.

Por outro lado, o constante entusiasmo de Filomena pelas coisas do espírito acabara por dominá-lo: ensinara-lhe a ter, ou pelo menos suportar de cara alegre certos prazeres delicados, como a música dos clássicos, a conversa sutil das senhoras de boa sociedade, os segredos da literatura, as linhas misteriosas da arquitetura, os primores de estatuária e o valor dos quadros célebres.

Ele! O Borges, aquele mesmo que, em Tebas, classificara o granito vermelho do Syena — boa pedra para construção! — Quem o diria?...

Alguns olhos femininos principiavam de voltar-se para ele com certa insistência; as mulheres descobriam-lhe já na elegância do todo e no espírito da conversa, pretextos de amor e elementos de sedução.

De volta ao Rio de Janeiro, os amigos mal o reconheceram. Acharam-no transformado em tudo; descobriram-lhe novos dotes e novos defeitos, porém estes em número muito maior que aqueles. Fizeram-lhe boas e más ausências.

O Borges, o querido Borges, que até aos quarenta anos não conhecera o gostinho de uma inimizade sequer, ficou pasmado quando, alguns dias depois de sua chegada à pátria, começou de redemoinhar em torno dele um enxame de maledicentes, que o intrigavam, descompunham e malqueriam, tecendo intrigas, publicando mofinas, remetendo-lhe cartas anônimas, cheias de injúrias, procurando covardemente, por todos os meios e modos, injetar-lhe o fel e a amargura no coração, como se, ofuscados pelas aparências, não pudessem admitir um tão completo exemplo de felicidade. As injúrias versavam principalmente sobre o caráter da mulher.

Então um desgosto sombrio principiou a persegui-lo; abominou a pátria — esse covil de maus e de invejosos — qualificou ele, revezando o seu tédio!

Em breve, qualquer maledicência a seu respeito, que lhe chegava aos ouvidos, punha-o num estado lastimável de irritação. E, no despenhadeiro de seu azedume, tudo foi aos poucos lhe parecendo mau e mesquinho; chegou a desconfiar da mulher; e supô-la sem amor, sem gratidão, capaz talvez de uma deslealdade; suspeitou de todos que o cercavam, detestou a sociedade, e, por não encontrar sobre quem descarregasse diretamente o seu ressentimento, bramou contra o atraso do Brasil, contra a falta de distrações, contra a ignorância geral do público, contra a incompetência dos poderes, contra toda a "podridão social enfim"!

Uma terra de bugres! dizia e repetia ele aos amigos, que o visitavam todas as noites. Uma terra de bugres! Aqui, um homem, para não morrer de tédio, para divertir-se um bocado, precisa atirar-se aos vícios, ou não sair de casa! — País de lama!

E para esquecer-se de seu desgosto, jogava.

De resto, o governo português acabava de o fazer barão de Itassu, e o Rio de Janeiro fariscava em torno de sua casa, atraído pelo som da música e pelo barulho dos pratos.

A casa! A casa, ou antes o museu do Borges, que outra coisa não era esse ninho de raridades de que se falava em toda a Corte, dessas magnificências do luxo antigo e moderno, desses ricos objetos da arte de todos os tempos e de todas as paragens. A casa transformara-se, como o dono.

Tudo foi reformado. Exibiram-se novos trastes, novas cortinas, tapeçarias, peles, cachemiras, bronzes, faianças, cristais, porcelanas, quadros, estatuetas, aquários, álbuns, mosaicos, vasos florentinos, lustres de vermeil, espelhos venezianos talhados à bisseau, carótides de Jean Goujon, servindo de peanhas a esculturas de Germam Pilou, e uma variedade interminável de tetéias e relíquias, que a baronesa colecionara por todo o mundo. Expuseram-se velhas cadeiras com espaldar e assento de couro de Córdova, lavrado, e tachado de metal amare]o; leitos à Renascença de colunas retorcidas e métopes talhados em madeira fusca; jarras do Oriente, sarapintadas de hieróglifos; objetos preciosos de marfim, manufaturados na China; molduras delicadíssimas de porcelana, a Luiz XIV, representando grinaldas coloridas; consolos de brêche-antique, sustentados por delfins de olhos e barbatanas douro, luzido; sem contar as otomanas asiáticas, os divãs, os fauteuils, as etagères de charão, de palissandra, de ébano; enfim o que podia haver de raro, de singular, de extraordinário. Não era uma casa, era um prolongamento do Hotel Cluny. Cada objeto, cada móvel, cada peça representava uma época, um reinado, uma escola.

(continua...)

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