Por Bernardo Guimarães (1858)
Ao som de soltos hinos
Tripudiava n'alma, vai de manso
Para os lânguidos sonhos descambando,
Sonhos divinos, quais só tê-los sabe
Ditoso amante, quando a fronte inclina
No regaço da amada, e entre as delícias
De um beijo adormecera.
Basta pois, — que o prazer não só habita
Na mesa dos festins, entre o alvoroço
De jogos, danças, músicas festivas...
Vertei, ó meus amigos,
Vertei também no cíato da vida
Algumas gotas de melancolia;
Cumpre também banquetear o espírito,
Na paz e no silencio inebriá-lo
Cos místicos aromas que se exalam
Do coração, nas horas de remanso:
Na solidão, ao respirar das auras
Se acalme um pouco o férvido delírio
Dos atroados bródios.
E ao túmulo suceda a paz dos ermos
Bem como a noite ao dia!
Quanto é grato depois de ter sumido
Largas horas em risos e folguedos,
Deixando estanque a taça do banquete,
Ir respirar o hálito balsâmico
Que em torno exalam flóridas campinas,
E reclinado à' sombra da mangueira
Fruir em solidão esse perfume
De tristeza, de amor e de saudade,
Que em momentos de plácido remanso
Do mais íntimo d'alma se evapora!
Vertei, brisas, vertei na minha fronte
Com macio murmúrio alma frescura;
Fagueiras ilusões, vinde inspirar-me;
Aéreos cantos, quérulos rumores,
Doces gorjeios, sombras e perfumes,
Com risonhas visões vinde embalar-me,
E adormecei minh'alma entre sorrisos.
Longe, bem longe destes doces sítios
O torvo enxame de cruéis pesares...
Deixai-me a sós fruindo
A taça misteriosa onde a poesia
A flux verte seu néctar.
Busquem outros sedentos de tristezas,
De dores só nutrir o pensamento,
E quais duendes pálidos vagueiem,
Entre os ciprestes da mansão funérea,
Lições severas demandando às campas;
Meditações tão graves não me aprazem;
Longe, tristes visões, fúnebres larvas
De agoureiro sepulcro
Longe também, ó vãos delírios d'alma,
Glória, ambição, futuro. — Oh! não venhais
Crestar com o bafo ardente
A viçosa grinalda dos amores.
Nos jardins do prazer colham-se rosas,
E com elas se esconda o horror da campa....
Deixai que os insensatos visionários
Da vida o campo só de abrolhos junquem,
Lobrigando ventura além da campa;
Míseros loucos... que os ouvidos cerram
A voz tão meiga, que ao prazer os chama,
E vão correndo após um bem sonhado,
Oco delírio da vaidade humana....
De flores semeai da vida as sendas,
E com elas se esconda o horror da campa...
A campa! — eis a barreira inexorável,
Que nosso ser inteiro devorando
Ao nada restitui o que é do nada!.
Mas enquanto se oculta a nossos olhos
Nos longes nebulosos do futuro,
Nas ondas do prazer, que mansas correm,
Larguemos a boiar a curta vida,
Bem como a borboleta matizada,
Que desdobrando ao ar as leves asas
Contente e descuidosa se abandona
Ao brando sopro de benigno zéfiro.
III
Venez...............................................................................
L'air est tiède, et là—bas dans les forêts prochaines
La mousse épaisse et verte abonde au pied des chênes.
(V. Hugo)
Descamba o sol — e a tarde no horizonte
Saudosos véus desdobra...
Do manso rio na dourada veia
Tremem ainda os últimos reflexos
Do dia, que se extingue;
E os píncaros agudos, onde pousam
Do sol poente os raios derradeiros,
Ao longe avultam quais gigantes feros,
Que a fronte cingem com diadema d'ouro.
Ah! eis a hora tão saudosa e meiga,
Em que o amante solitário vaga
A cismar ilusdes, doces mistérios
De sonhada ventura...
E vem, ó tarde, suspirar contigo,
Enquanto não desdobra o manto escuro
A noite a amor propícia....
Afrouxa a viração — mole sussurro
Suspira apenas na sombria veiga,
Qual voz sumida a murmurar queixumes.
É junto a ti, meu bem, que nestas horas
Me voa o pensamento. — Ah! não vens inda
Pousar aqui de teu amante ao lado
Sobre este chão de relva?
Vem, ninfa, vem, meu anjo, aqui te aguarda
Quem só por ti suspira....
Da tarde as auras para ti desfolham
Cheirosas flores na macia relva,
E para te embalar em doces êxtases,
Murmura a solidão meigos acordes
De vagas harmonias:
Vem, que ermo é tudo, e as sombras
Da noite, mãe de amor.
Ah! tu me ouviste; — já ligeiras roupas
Sinto leve rugir; — estes aromas
São as tuas madeixas, que recendem.
Oh! Bem-vinda sejas,
Entre meus braços, doce amiga minha!
Graças à aragem, diligente serva
Dos ditosos amantes, que levou-te
Meus suspiros, e trouxe-te a meu seio!
Vem, meu querido amor, vem reclinar-te
Neste viçoso leito, que a natura
Para nós recamou de musgo e flores,
Em diáfanas sombras escondido:
Desata as longas tranças,
E a seda espalha das madeixas negras
Por sobre os níveos ombros;
Desprende os véus ciosos, deixa os seios
Livremente ondearem; — quero vê-los
Em tênues sombras alvejando a furto,
No afã de amor ansiosos arquejarem.
Da boca tua nos mimosos favos
Oh! Deixa-me sorver num longo beijo
Dos prazeres o mel delicioso,
De amor toda a doçura.
Eu sou feliz! — cantai minha ventura,
Auras da solidão, aves do bosque;
Astros do céu, sorride a meus amores,
Flores da terra, derramai perfumes
Em torno deste leito, em que adormece
Entre os risos de amor o mais ditoso
Dos seres do universo!
Brisas da noite, bafejai frescura
Sobre esta fronte que de amor delira,
Com cantos alentai-me, e com aromas,
Que em tamanha ventura desfaleço.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)GUIMARÃES, Bernardo. Inspirações da tarde. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16582 . Acesso em: 24 fev. 2026.