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#Romances#Literatura Brasileira

As Mulheres de Mantilha

Por Joaquim Manuel de Macedo (1870)

À ordem de seu senhor um escravo trouxe um grande copo de vinho do Porto ao soldado que o bebeu todo, e voltou para a cidade a galope do seu cavalo. 

Que é isso, Jerônimo? perguntou Antônio. 

Toma e lê. 

Enquanto Antônio lia, Jerônimo refletia. 

Jerônimo, disse Antônio, entregando ao amigo a carta e o bilhete; isto é um atentado incrível! Os sacrários de nossas casas não são tascas sujeitas à fiscalização imoral de sacrílegos; as tuas e as minhas pistolas não bastam: quando a autoridade ataca as casas, é direito e dever de todos defendê-las com trabucos. 

Jerônimo riu-se com um rir horrível. 

Que rir é esse? 

Olha, Antônio; eu nunca fui citado em minha vida, e isto é citação, a que só faltou a vergonha do meirinho à porta!... 

É assim! 

Eu nunca fui injuriado por alguém, e nesta carta há insultos, há injúrias que eu não hei de perdoar. 

Nem eu. 

Há até ameaça de perseguição a minha mulher, a minhas filhas, e a ti!. 

Antônio quis falar, e rugiu, gaguejando uma praga. 

E ainda há insulto maior do que todos os que contém esta carta infernal... há este bilhete, e neste bilhete a extrema afronta... há nela a intenção de seduzir o pai para em seguida e por conta da gratidão seduzir a filha!. 

Dá-me outra vez o bilhete. 

Jerônimo entregou-o a Antônio, que o leu de novo, e disse com voz rouca: 

Tens razão; há. 

Pois bem: quero vingar-me. 

Conta comigo. 

Sim; mas por ora te conservarás de parte. 

Eu o exijo. 

Conforme, que vais fazer?. 

Obedecer. 

Jerônimo! 

Farei o que devo: o vice-rei me ordena que me apresente a dar-lhe contas de mim, irei; mas dormir com a suspeita de um crime me é impossível; amanhã ao meio-dia é muito tarde para a minha honra: hei de ir hoje, hei de ir já; não quero desculpar-me ao oficial-de-sala, quero queixarme do vice-rei ao vice-rei. 

E eu? 

Ficarás aqui, velando por minha família; se eu não voltar, é que me mandaram pôr a ferros; porque vou falar português claro, português do bom tempo dos nossos avós, português leal, nobre e sem medo. 

E se não voltares? 

Procederás como te aconselhar a honra e a amizade combinadas com a prudência. 

Vai, Jerônimo. 

Antônio, tu não deixarás minha mulher e minhas filhas!... 

Vai; eu ficarei aqui; mas se te puserem a ferros, o que é possível, também tenho o meu plano. 

Qual é? 

Custe o dinheiro que custar, tua mulher e tuas filhas terão asilo seguro no convento d’Ajuda. 

E tu?... 

Depois de havê-las posto em segurança, farei com que me ponham também a ferros. 

Antônio! 

Vai, Jerônimo. 

Esses dois homens se conheciam: cada qual mais honrado e mais teimoso, sabiam ambos que era inútil toda disputa para mudar a resolução tomada por um deles; entendiam-se bem: eram amigos desde o tempo da pobreza: tinham-se relacionado sobre o mar, vindo ambos para o Brasil no mesmo barco, em cuja tolda  haviam dormido juntos ao relento; tinham jurado amizade e proteção um ao outro, e com o trabalho e a economia enriquecido quase ao mesmo tempo, e em firme e constante estima recíproca. Eram amigos como dois irmãos amigos; as filhas de Jerônimo podiam contar com um segundo pai em Antônio, e tanto mais que este sempre decidido e pertinaz celibatário por exagerado espírito de perfeita independência individual, não tinha família que lhe ocupasse o coração. 

Jerônimo tinha chamado um escravo e mandado selar um cavalo para si e aprontar dois pajens, e tendo combinado com Antônio uma explicação que servisse para poupar cuidados à mulher e às filhas que bem poderiam alvoroçar-se, sabendo o verdadeiro motivo da sua ida à cidade, despediu-se da família, e partiu às sete horas da noite. 

A senhora Inês não se iludiu; mas conteve-se por amor das filhas; não dirigiu pergunta alguma a Antônio; tomando porém por pretexto a possibilidade de encontros sinistros à noite no caminho da Gamboa, abriu o oratório, fez acender as velas e às nove horas da noite foi rezar com Irene e Inês, sendo nesse piedoso ato acompanhada pelo velho compadre. 

As duas meninas repetiam as orações ditadas por sua mãe, e embora o fizessem com a maior atenção e fé, sentiam-se como que receosas de algum mal iminente; porque para elas era extraordinária aquela oração a horas, em que de costume já se achavam recolhidas. 

Ficou dito que o gabinete, onde estava o oratório, era contíguo ao que fora destinado a Isidora, a qual, ouvindo a oração da família hospitaleira, foi de manso e sem que a percebessem, ajoelhar-se também, mas um pouco afastada das três senhoras e de Antônio, e rezou em voz baixa e sumida. 

No meio da ladainha de Nossa Senhora a fadiga e a comoção tolheram a voz à senhora Inês que a entoava; houve uma pausa de cruel ansiedade para esta que se empenhava em ocultar sua aflição; logo porém uma voz de suavíssimo e firme contralto se desprendeu, continuando a entoar a ladainha, e terminada esta, prosseguiu, dirigindo as orações. 

– Rezemos um credo, disse enfim Isidora, pela vida, segurança e felicidade do chefe desta família! 

(continua...)

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