Por Pero de Magalhães Gândavo (1576)
Esta província Santa Cruz está situada naquela grande America, uma das quatro partes do mundo. Dista o seu principio dous grãos da equinocial para a banda do Sul, e daí se vai estendendo para o mesmo sul até quarenta e cinco grãos. De maneira que parte dela fica situada debaixo da Zona tórrida e parte debaixo da temperada. Está formada esta Província á maneira de uma harpa, cuja costa pela banda do Norte corre do Oriente ao Ocidente e está olhando direitamente a Equinocial; e pela do Sul confina com outras Províncias da mesma America povoada e possuídas de povo gentílico, com que ainda não temos comunicação. E pela do Oriente confina com o mar Oceano Áfrico, e olha direitamente os Reinos de Congo e Angola até o Cabo de Boa Esperança, que é o seu oposto. E pela do Ocidente confina com as altíssimas serras dos Andes e fraldas do Peru, as quais são tão soberbas em cima da terra qui se diz terem as aves trabalho em as passar. E até hoje um só caminho lhe acharão os homens vindos do Peru a esta Província, e este tão agro que em o passar perecem algumas pessoas caindo do estreito caminho que trazem, e vão parar os corpos mortos tão longe dos vivos que nunca os mais vem, nem podem ainda que queiram dar-lhe sepultura.
Destes e doutros extremos semelhantes carece esta Província Santa Cruz porque com ser tão grande não tem Serras, ainda que muitas, nem desertos nem alagadiços que com facilidade se não possam atravessar. Alem disto é esta Província sem contradição a melhor pera a vida d.C. homem que cada uma das outras de America, por ser comumente de bons ares e fertilíssima, e em grão maneira deleitosa e aprazível á vista humana. O ser ela tão salutifera e livre de enfermidades, procede dos ventos que geralmente cursam nela: os quais são Nordestes e Sues, e algumas vezes Lestes e Lessuestes. E como todos estes procedam da parte do mar, vem tão puros e coados, que não somente não danam; mas recreiam e acrescentam a vida do homem. A viração destes ventos entra ao meio dia pouco mais ou menos e dura até de madrugada: então cessa por causa dos vapores da terra que o apagam, e quando amanhece as mais das vezes está o Céu todo coberto de nuvens, e assim as mais das manhãs chove nestas partes, e fica a terra toda coberta de névoa por respeito de ter muitos arvoredos que chamam a si todos estes humores. E neste intervalo sopra um vento brando que na terra se gera, até que o sol com seus raios o acalma, e entrando o vento do mar acostumado, torna o dia claro e sereno, e faz ficar a terra limpa e desimpedida de todas estas exalações.
Esta Província é à vista mui deliciosa e fresca em grão maneira: toda está vestida de mui alto e espesso arvoredo, regada com as águas de muitas e mui preciosas ribeiras de que abundantemente participa toda a terra, onde permanece sempre a verdura com aquela temperança da primavera que cá nos oferece Abril e Maio. E isto causa não haver lá frios, nem ruínas de inverno que ofendam as suas plantas, como cá ofendem às nossas. Em fim que assim se houve a Natureza com todas as cousas desta Província, e de tal maneira se comedio na temperança dos ares, que nunca nela se sente frio nem quentura excessiva.
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Baixar texto completo (.txt)GÂNDAVO, Pero de Magalhães. História da Província Santa Cruz, a que vulgarmente chamamos Brasil. Lisboa: Oficina de António Gonçalves, 1576. Disponível em domínio público em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=17411. Acesso em: 26 nov. 2025.