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#Tratados#Literatura Brasileira

Tratado da Terra do Brasil

Por Pero de Magalhães Gândavo (1576)


A Capitania dos llhéos está trinta lagoas da Bahia de Todos os Santos em quatorze graus e dous terços; e de Francisco Giraldes na qual tem posto Capitão de sua mão. Pode haver nela duzentos vizinhos. Tem um Rio onde os navios entram, o qual está junto da povoação, divide-se em muitas partes pela terra dentro, servemse os moradores por ele pela suas fazendas em almadias. Há nesta Capitania oito engenhos dassucre. Dentro da povoação está um mosteiro de padres da Companhia de Jesus que agora se faz novamente.Sete lagoas da mesma povoação pela terra dentro está uma lagoa doce que tem três lagoas de comprido e três de largura e tem dez, quinze braças de fundo e daí pra cima. Sai dela um Rio pequeno pelo qual vão lá ter barcos. Tem esta lagoa um local neste Rio, tão estreito, que apenas cabe um barco por ele, e depois que anda dentro quase não sabe determinar por onde entrou. Tem tanta abundância d’água que podem andar nela quaisquer não, por grandes que sejam, á vela; e assim quando venta muito, alevantam-se ali ondas tão furiosas como se fosse no meio do mar com tormenta. Tem muita infinidade de peixes grandes e pequenos. Criam-se nela muitos peixes-bois, os quais têm o focinho como de boi e dous cotos com que nadam á maneira de braços; não têm nenhuma escama nem outra feição de peixe senão o rabo. Matam-nos com arpões, são tão gordos e tamanhos que alguns pesam trinta, quarenta arrobas.É um peixe muito saboroso e totalmente parece carne e assim tem o gosto dela; assado parece lombo de porco ou de veado, coze-se com couves, e guisa-se como carne, nem pessoa alguma o come que o tenha por peixe, salvo se o conhecer primeiro. As fêmeas têm duas mamas pelas quais mamam os filhos, criam-se com leite (cousa que se não acha noutro peixe algum): também há destes em algumas baías e rios desta Costa e posto que se criem no mar costumam beber água doce, por isso acodem muitos a esta lagoa ou a parte onde algum ribeiro se meta no mar. Também há muitos tubarões nesta lagoa, e lagartos e muitas cobras. E acham-se nela outros monstros marinhos de diversas maneiras. Há muitas terras e mui viçosas ao redor dela, e muita caça; é neste rio que sai da lagoa muita fertilidade de peixe. Finalmente que uma das abastadas terras de mantimentos que há no Brasil é esta Capitania dos Ihéos.


CAPÍTULO V

DUMA NAÇÃO DE GENTIO QUE SE ACHA NESTA CAPITANIA


Pelas terras desta Capitania até junto do Espirito Santo, se acha uma certa nação de gentio que veio do sertão há cinco ou seis anos, e dizem que outros indios contrários destes, vieram sobre eles a suas terras, e os destruirão todos e os que fugirão são estes que andam pela Costa. Chamam-se Aymorés, a língua deles é diferente dos outros indios, ninguém os entende, são eles tão altos e tão largos de corpo que quase parecem gigantes; são mui alvos, não têm parecer dos outros indios na terra nem têm casas nem povoações onde morem, vivem entre os matos como brutos animais; são mui forçosos em extremo, trazem uns arcos mui compridos e grossos conforme a suas forças e as flechas da mesma maneira.Estes indios têm feito muito dano aos moradores depois que vieram a esta Costa e mortos alguns portugueses e escravos, porque são inimigos de toda gente. Não pelejam em campo nem têm ânimo para isso, põem-se entre o mato junto de algum caminho e tanto que passa alguém atiram-lhe ao coração ou a parte onde o matem e não dispensam flechas que não na empreguem. Finalmente, que não têm rosto direito a ninguém, senão a traição fazem a sua. As mulheres trazem uns pães tostados com que pelejam.Estes indios não vivem senão pela flecha, seu mantimento e caça, bichos e carne humana, fazem fogo debaixo do chão por não serem sentidos nem saberem onde andam. Muitas terras viçosas estão perdidas junto desta Capitania as quais não são possuídas dos portugueses por causa destes indios. Não se pode achar remédio pela os destruírem porque não têm morada certa, nem saem nunca dentre o mato: E assim quando cuidamos que vão fugindo ante quem os persegue, então ficam atras escondidos e atiram aos que passam descuidados. Desta maneira matam alguma gente. Tantos quantos indios há no Brasil são seus inimigos e temem-nos muito, porque é gente atraiçoada. E assim onde os há nenhum morador vai a sua fazenda por terra que não leve quinze vinte escravos consigo de arcos e flechas. Estes Aymorés são mui ferozes e cruéis, não se pode com palavras esclarecer a dureza desta gente. Não andam todos Juntos, derramam-se por muitas partes, e quando se querem ajuntar assoviam como pássaros ou como bogios de maneira que uns aos outros se entendem e se conhecem Também os portugueses matam alguns deles, e têm muitos destruídos principalmente nesta Capitania dos llhéos, e guardam-se muito deles, porque já sabem suas manhas e conhecem mui bem sua malícia.


CAPÍTULO VI

DA CAPITANIA DE PORTO SEGURO

(continua...)

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