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#Ensaios#Literatura Brasileira

Antônio José

Por Machado de Assis (1879)

Evidentemente, o judeu achou na aventura pagã o mesmo que lhe acharam Plauto, Molière e Camões — um assunto prestadio às combinações cênicas, e, demais, singularmente próprio para as chufas do Bairro-Alto. Desnecessário é dizer os trâmites dessa travessura de Júpiter, que, namorado de Alcmena, toma a gura do marido e vai à casa dela, acompanhado de Mercúrio, que copia as feições de Sósias, criado de Antrião. O nosso poeta seguiu no principal a fábula que encontrou nos antecessores, fazendo-lhe todavia as alterações suscitadas pelo gosto próprio e das plateias. Assim, o Sósias de Plauto, de Molière e de Camões é na peça de Antônio José um Saramago. Não lhe mudou ele o essencial; trocando-lhe o nome, obedeceu ao sistema de dar aos criados nomes burlescos. O de Jason, nos Encantos de Medeia, chama-se Sacatrapos; há nas outras óperas um Caranguejo, um Esfuziote, um Chichisbéu. São nomes, não valem mais que nomes. Nem Molière chamou Dandin ao principal personagem de uma de suas comédias senão para o caracterizar desde logo de um modo jovial; não pretendeu outra cousa. Contudo, a observação em relação a Antônio José tem o valor de um rasgo signicativo.

Cotejando o Antrião de Antônio José com os de seus antecessores, vê-se o que ele imitou dos modelos, e o que de sua casa introduziu. Já disse que no principal os seguiu a todos; mas nem sempre soube escolher, e darei disso um exemplo claro. Camões, que não sendo poeta cômico, era todavia homem de tato e gosto, corrigiu, antes de Molière, o desenlace do Antrião de Plauto. Na comédia deste, logo depois de explicar Júpiter os equívocos da situação e de anunciar ao marido de Alcmena que o lho desta é seu, mostra-se Antrião inteiramente satisfeito e glorioso com o desenlace. Camões suprimiu tão singular contentamento, e o mesmo fez Molière; em ambos os poetas, Antrião ouve silencioso as declarações do pai dos deuses, sem que Alcmena assista a elas. Antônio José não só não seguiu nessa parte os modelos recentes, mas até carregou a mão sobre o que imitou de Plauto. A alegria do seu Antrião e da sua Alcmena é tão franca, tamanho é o alvoroço dos dous esposos, que realmente chega a ofender as leis da verossimilhança, ainda tratando-se de um caso divino. Neste ponto Antônio José antes inadvertido do que obrigado do gosto público. Outro caso. Nas comédias anteriores não há nenhum lugar em que Alcmena veja ao mesmo tempo os dois Antriões, e isto não só era necessário para prolongar e justicar os equívocos, mas até o exigia a verossimilhança, porque, desde que Alcmena chegasse a ver juntos os dous exemplares exatos do marido, saía da boa-fé que serve de fundamento à sua ilusão, para cair no maravilhoso e no inextricável. E é justamente o que acontece na comédia do judeu.

Vamos agora ao que o judeu imitou diretamente de Molière. Há na comédia daquele um caráter, o de Cornucópia, mulher de Saramago, que não tem equivalente na de Plauto, nem na de Camões, e que só na de Molière existe. “Molière (é observação de La Harpe), fazendo de Cléanthis mulher de Sósias, inventou uma situação paralela à de Antrião e Alcmena, dando-lhe porém diferente aspecto; Cléanthis pertence ao número das esposas que, “por serem honestas, cuidam ter o direito de ser insuportáveis”. Ora bem, a situação e o caráter de Cléanthis transportou-os o judeu para o seu Antrião, e não se pode dizer encontro fortuito, senão deliberado propósito. Basta cotejá-los com espírito advertido; a diferença é de tom, de estilo; substancialmente, a invenção é a mesma; as próprias ideias reproduzem-se às vezes na obra do judeu. Assim, logo na cena em que Mercúrio transformado em Saramago (Sósias) encontra a mulher deste, achamos o traço comum aos dois poetas.

Na comédia de Molière:

CLÉANTHIS

Regarde, traître, Amphytrion;

Vois comme pour Alcmène il étale de amme.

Et rougis là-dessus du peu de passion

Que tu témoignes pour ta femme.

MERCÚRIO

Hé! mon Dieu! Cléanthis, ils sont encore amants.

Il est certain âge où tout passe;

Et ce qui leur sied bien dans ces commencements,

En nous, vieux mariés, aurait mauvaise grâce.

Il nous ferait beau voir, attachés face à face,

À pousser les beaux sentiments!

CLÉANTHIS

Mérites-tu, pendard, cet insigne bonheur

De te voir pour épouse une femme d’honneur?

MERCÚRIO

Mon Dieu! tu n’es que trop honnête;

Ce grand honneur ne me vaut rien.

Ne sois point si femme de bien,

Et me romps un peu moins la tête.

Agora Antônio José:

CORNUCÓPIA — Também nosso amo trazia bastante fome, e contudo está dizendo à nossa ama tanta cousa galantinha que faria derreter uma pedra.

MERCÚRIO — Com que é o mesmo nossos amos do que nós? Eles casadinhos de um ano, e nós há um século? Eles senhores e rapazes, e nós velhos e moços?3 Eles dous jasmins e nós dous lagartos? E nalmente eles com amor, e nós, ou pelo menos eu, sem nenhum?

(continua...)

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