Por Machado de Assis (1877)
José Cândido saiu da casa do capitão com a alma a nadar-lhe em um mar de júbilo. Eleitor! José Cândido sentira nascer-lhe essa ambição algumas semanas antes; se é que ela nasceu, se é que suas ambições podiam nascer. Existia desde o princípio dos tempos; coexistiu com o caos. Desagregando-se da confusão das coisas, ficou no espaço à espera que nascesse José Cândido. José Cândido nasceu, ela penetrou-lhe no cérebro, onde residiu escondida até quase trinta anos. Um dia rebentou como um aneurisma. José Cândido tinha a paixão eleitoral, mas só a paixão eleitoral, não a política. Era um cabalista de primeira força. Ele vivia no tempo das eleições três vezes mais do que no resto dos tempos. Por isso amava as dissoluções da Câmara. Era a sua única ocupação, mas valia por trinta.
Tinha roda, dispunha de votos; era exímio no meio de angariar votos contrários, em trocar cédulas, preparar fósforos, reunir invisíveis.
Não lhe perguntassem qual era o seu partido; ele era do partido do capitão. Houve um tempo em que o capitão entendeu conveniente fazer uma reviravolta; José Cândido não se alterou; ficou no mesmo lugar; ficou fiel ao capitão. Este era a sua bandeira, o seu programa, o seu sistema. Suas idéias, princípios, simpatias, eram as simpatias, princípios e idéias do capitão; fora dele era tudo abominável. E o capitão sabia de que força era o correligionário. Quis um dia arranjar-lhe uma patente de alferes, na Guarda Nacional, e ele recusou, com uma abnegação romana. José Cândido era desinteressado, puro, incorruptível.
Um dia, porém, (fatal dia!) a ambição eleitoral deitou a ponta do nariz de fora. José Cândido sentiu bater-lhe o coração fortemente, mais fortemente do que batia, quando ele ia falar a Emília, sua prima, filha da sra. Inácia. Que seria? Consultou-se; recuou aterrado. Uma feiticeira de Macbeth bradava-lhe aos ouvidos : “ Eleitor! sim; por que não? Ele os fazia, podia manipular-se a si próprio. Que seria preciso? Apoio? Contava com o capitão. Dinheiro? O pai lhe daria algum quando soubesse que o filho ia ser eleitor. Esta idéia e que o trazia desde tanto tempo distraído, absorto, acima do tempo e do espaço.
Não eram muitas nem decisivas as esperanças que Fabrício lhe dera; mas as primeiras ambições são fáceis de iludir. José Cândido saiu da casa do capitão certo de ver já o seu nome proclamado aos quatro vento do universo. Ele próprio sentia em si um ar mais seguro, alguma coisa menos ínfima. Seus olhos pareciam dizer às esquinas, aos prédios, às calçadas da rua: Vede; este é um dos bem-aventurados da terra!
Ia neste sonho, quando ao passar a última esquina, perto de casa, sentiu alguém que lhe puxava pela aba do paletó.
III
A pessoa era uma mulher; a mulher era a sra. Inácia.
— Onde vai você, Juca? disse ela.
José Cândido sentira alguma coisa semelhante a um trambolhão moral; sua alma caiu no chão. Sorriu, contudo, apertou a mão à sra. Inácia, perguntou como iam todos.
— Todos vão bem; a Emília é que...
— Que tem? doente?
— Não; mas anda aborrecida. Você onde vai?
— Para casa.
— Vamos lá à casa primeiro.
— Vamos.
A sra. Inácia morava perto; seguiram os dois, a falar de coisas indiferentes, ela atenta, ele distraído.
— Que é que você tem, Juca? disse repentinamente a sra. Inácia.
— Eu?
— Sim; você.
— Nada.
— É impossível. Noto que você anda há algum tempo distraído, meio aluado, falando pouco, assim não sei como...
— Reparou nisso? disse José Cândido com um ar de magnífica superioridade.
— Reparei. Que é?
José Cândido parou.
— Há coisas, disse ele, superiores ao entendimento de uma senhora. Em geral, as senhoras não pensam nos negócios públicos... Eu penso nos negócios públicos. A sra. Inácia não entendeu; ficou a olhar para ele, alguns instantes. Depois disse: — Mas você anda distraído.
— Por isso mesmo.
— Isso mesmo o quê?
José Cândido levantou os ombros.
— Falemos de outra coisa, disse ele; falemos de linhas e alfinetes. Onde comprou o seu xale?
— Na Rua do Carmo, explicou a sra. Inácia; não custou muito caro.
— Não?
— Dez mil-réis.
— Está bom! murmurou José Cândido com os olhos e o pensamento no eleitorado. A sra. Inácia mordia-se de zanga; não tinha alcançado nada e queria saber tudo ou alguma coisa: 1º porque podia ser namoro, e ela afagava a idéia de casá-lo com a filha; 2º porque não queria perder a fama da sagacidade e jeito, que adquirira no bairro; 3º finalmente, porque tinha o olho em uma dúzia de xícaras que havia em casa do primo Mateus.
Três boas razões.
Estavam perto da casa dela; a sra. Inácia parou.
— Juca, vou pedir a você uma coisa.
— Diga.
— Você há de me dizer o que é que tem.
— Mas por quê? que tenho eu?
— Alguma coisa; você não anda bom.
José Cândido já não podia esconder o desdém que lhe causava o triste vulgo, e a pergunta da sra. Inácia encheu a medida de seu infinito desprezo. Contudo era preciso explicar-se.
— Se eu lhe dissesse o que tenho, a senhora não entendia...
— Isso agora!
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)ASSIS, Machado de. Um Ambicioso. Jornal das Famílias. Rio de Janeiro, 1877.