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#Anedotas#Literatura Brasileira

Um almoço

Por Machado de Assis (1877)

— E podes crer que ele te é grato. Ainda hoje, perguntando-lhe eu, à mesa do almoço, se te conhecia há muitos anos, falou de ti com um entusiasmo! um ardor!...

— Sim?

— Não imaginas.

José Marques não escondeu, nem procurou fazê-lo, a boa impressão que lhe causara a notícia de Madureira. Afagou as barbas, abotoou e desabotoou o paletó, enfim expectorou este aforismo:

— A verdadeira paga do benefício é a gratidão do beneficiado.

— Não há outra, opinou Madureira. Infelizmente, são raros os agradecidos.

— Raríssimos, confirmou José Marques. Eu, pela minha parte, tenho visto poucos. Mas não me engano com aquele. O Seixas nunca se há de esquecer de mim. Nem é fácil. Tu eras capaz de esquecer um homem que te desse a vida e o pão?

— Nunca.

— Pois!

No fim do mês Seixas foi ter com José Marques para lhe dizer que amortizara parte da dívida contraída na loja de roupa. Havendo algumas pessoas presentes, não quis ele dizer logo ao que vinha; José Marques apressou-se a chamá-lo de parte, onde lhe ouviu a boa notícia.

— Não havia pressa, observou ele.

— Convém pagar quanto antes. Todas as dívidas devem ser pagas; esta mais depressa que as outras, porque é preciso desempenhar a tua honrada palavra, e ao mesmo tempo mostrar que não lançaste a semente do benefício em terra estéril...

— Quem te diz isso, homem? Estás contente com o Madureira?

— Estou.

— Também ele contigo.

— Sim? Tanto melhor.

— Agora, é fazeres por ser bom cavalheiro. Eu digo de ti o que devo e mereces, porque não entendo que a prova de amizade consista somente em certos benefícios. Nem só de pão vive o homem. Vive de pão e de crédito. O Madureira sabe o que és e o que vales.

— Obrigado, Marques! disse Seixas estendendo-lhe a mão.

— Onde vais?

— Vou à casa.

— Espera um pouco...

— Se puderes dispensar-me era favor.

— Tens algum negócio urgente?

— Urgentíssimo.

Seixas saiu e dirigiu-se para o Beco do Cotovelo, entrou em casa e lá ficou até o dia seguinte. Era noite; ocupou-se em apurar um assunto de que trataremos no capítulo

seguinte.

III

Seixas não fora sempre combatido da fortuna. Tempo houve em que a cidade o viu brilhar entre os elegantes de calças cor de flor de alecrim. Dotado de aceitável figura, de uns olhos insinuantes e vivos, feriu alguns corações ingênuos, que em vão esperaram o bálsamo matrimonial. Muitos deles recorreram a outros; alguns ainda esperam boticário próprio. Um desses, em despeito das posturas canônicas e civis, aceitou os conselhos de Seixas, curandeiro de má morte, que transviou o irrefletido coração, de que tudo resultou uma menina gentil como os amores. A menina e a mãe viviam em casa de uma velha parenta, casa que Seixas freqüentou algum tempo, mas de onde o arredaram os lances da fortuna.

Na véspera do dia em que José Marques o encontrou no Passeio Público, Seixas fora ver a sua Elvirinha, criança de quinze anos, de quem se despediu com lágrimas, no meio de grande espanto da mais família, que não atinou logo com a causa daquela aflição. Era a despedida da morte. Arrancado a tempo do fatal abismo em que ia cair, Seixas lembrava se agora da filha, e sonhava uma família e uma casa. O sonho não combinava muito com a realidade. Seixas compreendia perfeitamente que a sua sorte era ainda mais precária que os recursos. Mas ao mesmo tempo uma esperança vaga lhe falava no coração, voz consoladora ou pérfida, a última felicidade dos desamparados. Era esta voz que lhe contava antecipadamente as alegrias do futuro, dizendo-lhe à guisa das feiticeiras de Macbeth:

— Tu serás sócio do Madureira!

A predição não era extravagante. Madureira tratava-o com tamanha benevolência e distinção, que a idéia de o fazer seu sócio podia nascer-lhe um dia de manhã, sem pasmo para ninguém.

Seixas não falou nisso a José Marques. Ia vê-lo todas as semanas, falavam de várias coisas, mas nunca daquela esperança acariciada no peito do guarda-livros. As visitas de Seixas a José Marques, hebdomadárias durante os primeiros três meses, passaram a ser quinzenais, depois mensais, depois casuais. Seixas melhorara a olhos vistos, nas cores e no vestuário. Logo que pôde contraiu de novo o vício do charuto, deixado algum tempo antes do projeto do suicídio. José Marques folgava em contemplá lo... Nunca houve joalheiro que olhasse com mais amor e desvanecimento para uma obra sua. Dir-se-ia que ele o inventara.

— Agora, sim! estás outro! exclamava ele. Olhem-me estas bochechas! Quem diria que são as mesmas faces encovadas e amarelas daquele pobre Seixas do ano passado? Não te vexes de ser gordo, homem!

— Pois eu havia de vexar-me? murmurava o guarda-livros.

— Parece! estás assim não sei como...

— São os teus olhos!

E logo que se separavam:

— É insuportável este Marques, dizia Seixas consigo; é um verdadeiro língua-de-trapo! Um dia José Marques foi ter com Seixas, a pedir-lhe para entrar de irmão em uma ordem terceira.

— Não sei se posso agora fazê-lo, disse este; meus recursos...

(continua...)

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