Por Machado de Assis (1994)
D. CAT. (a D. FRANCISCA) Não é? (A CAMÕES) E vós que lhe dissestes? CAMÕES Eu? nada... ou quase nada. Era tão inopinado o louvor que me tomou a fala. E, contudo, se eu pudesse responder agora... agora que recobrei os espíritos... dir-lhe-ia que há aqui (Leva a mão à fronte.) alguma cousa mais do que simples versos de desenfado... dir-lhe-ia que... (Fica absorto um instante, depois olha alternadamente para as duas damas, entre as quais se acha.) Um sonho... As vezes cuido conter cá dentro mais do que a minha vida e o meu século... Sonhos... sonhos! A realidade é que vós sois as duas mais lindas damas da cristandade, e que o amor é a alma do universo!
D. FRA. O amor e a espada, senhor brigão!
CAMÕES (alegremente). Por que me não dais logo as alcunhas que hão de ter posto os poltrões do Rocio? Vingam-se com isso, que é a desforra da poltroneria... Não sabeis? Naturalmente não; vós gastais as horas nos lavores e recreios do paço; mora aqui a doce paz do espírito...
D. CAT. (com intenção). Nem sempre.
D. FRA. (a CAMÕES, sorrindo). Isto é convosco; e eu, que posso ser indiscreta, não me detenho a ouvir mais nada. (Dá alguns passos para o fundo).
D. CAT. Vinde cá...
D. FRA. Vou-me... vou a consolar o nosso Caminha, que há de estar um pouco enfadado... Ouviu ele o que El-rei vos disse?
CAMOES Ouviu; que tem?
D. FRA. Não ouviria de boa sombra.
CAMÕES Pode ser que não... dizem-me que não.
(A D. CATARINA) Pareceis inquieta...
D. CAT. (a D. FRANCISCA). Não vades, não vades; ficai um instante.
CAMÕES (a D. FRANCISCA). Irei eu.
D. FRA. Não, senhor; irei eu só. (Sai pelo fundo).
CENA VIII
CAMÕES, D. CATARINA DE ATAIDE
CAMÕES (com uma reverência). Irei eu. Adeus, minha senhora D. Catarina de Ataíde!
(D. CATARINA dá um passo para ele.) Mantenha-vos Deus na sua santa guarda
D. CAT. Não... vinde cá
(CAMÕES detém-se) Enfadei-vos? Vinde um pouco mais perto. (CAMÕES aproxima-se.) Que vos fiz eu? Duvidais de mim?
CAMÕES Cuido que me queríeis ausente.
D. CAT. Luís! (Inquieta.) Vede esta sala, estas paredes... falarmos a sós... Duvidais de mim?
CAMÕES Não duvido de vós, não duvido da vossa ternura; da vossa firmeza é que eu duvido.
D. CAT. Receais que fraqueie algum dia?
CAMÕES Receio; chorareis muitas lágrimas, muitas e amargas... mas, cuido que fraqueareis.
D. CAT. Luís! juro-vos ...
CAMÕES Perdoai, se vos ofende esta palavra. Ela é sincera, subiu-me do coração à boca. Não posso guardar a verdade; perder-me-ei algum dia por dizê-la sem rebuço. Assim me fez a natureza, assim irei à sepultura.
D. CAT. Não, não fraquearei, juro-vos. Amo-vos muito, bem o sabeis. Posso chegar a afrontar tudo, até a cólera de meu pai. Vede lá, estamos a sós; se nos vira alguém...
(CAMÕES dá um passo para sair.) Não, vinde cá. Mas, se nos vira alguém, defronte um do outro, no meio de uma sala deserta, que pensaria? Não sei que pensaria; tinha medo há pouco, já não tenho medo... amor sim... O que eu tenho é amor, meu Luís.
CAMÕES Minha boa Catarina.
D. CAT. Não me chameis boa, que eu não sei se boa, nem má.
CAMÕES Divina sois!
D.CAT. Não me deis nomes que são sacrilégios.
CAMOES Que outro vos cabe?
D. CAT. Nenhum.
CAMÕES Nenhum? Simplesmente a minha doce e formosa senhora D. Catarina de Ataíde, uma ninfa do paço, que se lembrou de amar um triste escudeiro, sem reparar que seu pai a guarda para algum solar opulento, algum grande cargo de camareira-mor. Tudo isso havereis, enquanto que o coitado de Camões, irá morrer em África ou Ásia...
D. CAT. Teimoso sois! sempre essas idéias de África...
CAMÕES ou Ásia. Que tem isso? Digo-vos que, às vezes, a dormir, imagino lá estar, longe dos galanteios da corte, armado em guerra, diante do gentio. Imaginai agora...
D. CAT. Não imagino nada; vós sois meu, tão-só meu, tão-somente meu. Que me importa o gentio, ou o turco, ou que quer que é, que não sei, nem quero? Tinha que ver, se me deixáveis, para ir às vossas Áfricas... E os meus sonetos? Quem mos havia de fazer, meu rico poeta?
CAMÕES Não faltará quem vo-los faça, e da maior perfeição.
D. CAT. Pode ser; mas eu quero-os ruins, como os vossos... como aquele da Circe, o meu retrato, dissestes vós.
CAMÕES( recitando ).
Um mover de olhos, brando e piedoso,
Sem ver de que; um riso brando e honesto,
Quase forçado; um doce e humilde gesto
De qualquer alegria duvidoso...
D. CAT. Não acabeis, que me obrigaríeis a fugir de vexada.
CAMÕES De vexada! Quando é que a rosa se vexou, porque o sol a beijou de longe?
D. CAT: Bem respondido, meu claro sol.
CAMÕES Deixai-me repetir que sois divina. Natércia minha, pode a sorte separar-nos, ou a morte de um ou de outro; mas o amor subsiste, longe ou perto, na morte ou na vida, no mais baixo estado, ou no cimo das grandezas humanas, não é assim? Deixai-me crê-lo, ao menos; deixai-me crer que há um vínculo secreto e forte, que nem os homens, nem a própria natureza poderia já destruir. Deixai-me crer... Não me ouvis?
D. CAT. (enlevada). Ouço, ouço.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)ASSIS, Machado de. Tu só, tu, puro amor. In: ASSIS, Machado de. Obra completa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1994. v. 2.