Por Machado de Assis (1862)
É apenas o começo; não passas ainda de um quase-ministro. Que acontecerá quando o fores de todo?
MARTINS
Tal preço não vale o trono.
SILVEIRA
Ora, aprecia lá a minha filosofia. Só me ocupo dos meus alazões, mas quem se lembra de me vir oferecer artigos para ler e estômagos para alimentar? Ninguém. Feliz obscuridade!
MARTINS
Mas a sem-cerimônia...
SILVEIRA
Ah! querias que fossem acanhados? São lestos, desembaraçados, como em suas próprias casas. Sabem tocar a corda.
MARTINS
Mas enfim, não há muitos como este. Deus nos livre! Seria uma praga! Que maçante! Se não lhe falas em cavalos, ainda aqui estava! (batem palmas) Será outro?
SILVEIRA
Será o mesmo?
Cena IV
Os mesmos, CARLOS BASTOS
BASTOS
Meus senhores...
MARTINS
Queira sentar-se. (sentam-se) Que deseja?
BASTOS
Sou filho das musas.
SILVEIRA
Bem, com licença.
MARTINS
Onde vais?
SILVEIRA
Vou lá dentro falar à prima.
MARTINS
(baixo)
Presta-me o auxílio dos teus cavalos.
SILVEIRA
(baixo)
Não é possível, este conhece o Pégaso. Com licença.
Cena V
MARTINS, BASTOS
BASTOS
Dizia eu que sou filho das musas... Com efeito, desde que me conheci, achei-me logo entre elas. Elas me influíram a inspiração e o gosto da poesia, de modo que, desde os mais tenros anos, fui poeta.
MARTINS
Sim, senhor, mas...
BASTOS
Mal comecei a ter entendimento, achei-me logo entre a poesia e a prosa, como Cristo entre o bom e o mau ladrão. Ou devia ser poeta, conforme me pedia o gênio, ou lavrador, conforme meu pai queria. Segui os impulsos do gênio; aumentei a lista dos poetas e diminuí a dos lavradores.
MARTINS
Porém...
BASTOS
E podia ser o contrário? Há alguém que fuja à sua sina? V. Exa. não é um exemplo? Não se acaba de dar às suas brilhantes qualidades políticas a mais honrosa sanção? Corre ao menos por toda a cidade.
MARTINS
Ainda não é completamente exato.
BASTOS
Mas há de ser, deve ser. (depois de uma pausa) A poesia e a política acham-se ligadas por um laço estreitíssimo. O que é a política? Eu a comparo a Minerva. Ora, Minerva é filha de Júpiter, como Apolo. Ficam sendo, portanto, irmãs. Deste estreito parentesco nasce que a minha musa, apenas soube do triunfo político de V. Exa., não pôde deixar de dar alguma cópia de si. Introduziu-me na cabeça a faísca divina, emprestou-me as suas asas, e arrojou-me até onde se arrojava Píndaro. Há de me desculpar, mas agora mesmo parece-me que ainda por lá ando.
MARTINS
(à parte)
Ora dá-se.
BASTOS
Longo tempo vacilei; não sabia se devia fazer uma ode ou um poema. Era melhor o
poema, por oferecer um quadro mais largo, e poder assim conter mais comodamente todas as ações grandes da vida de V. Exa.; mas um poema só deve pegar do herói quando ele morre; e V. Exa., por fortuna nossa, ainda se acha entre os vivos. A ode prestava-se mais, era mais curta e mais própria. Desta opinião foi a musa que me inspirou a melhor composição que até hoje tenho feito. V. Exa. vai ouvi-la. (mete a mão no bolso)
MARTINS
Perdão, mas agora não me é possível.
BASTOS
Mas...
MARTINS
Dê cá; lerei mais tarde. Entretanto, cumpre-me dizer que ainda não é cabida, porque ainda não sou ministro.
BASTOS
Mas há de ser, deve ser. Olhe, ocorre-me uma coisa. Naturalmente hoje à tarde já isso está decidido. Seus amigos e parentes virão provavelmente jantar com V. Exa.; então no melhor da festa, entre a pêra e o queijo, levanto-me eu, como Horácio à mesa de Augusto, e desfio a minha ode! Que acha? é muito melhor, é muito melhor.
MARTINS
Será melhor não a ler; pareceria encomenda.
BASTOS
Oh! Modéstia! Como assenta bem em um ministro!
MARTINS
Não é modéstia.
BASTOS
Mas quem poderá supor que seja encomenda? O seu caráter de homem público repele isso, tanto quanto repele o meu caráter de poeta. Há de se pensar o que realmente é: homenagem de um filho das musas a um aluno de Minerva. Descanse, conte com a sobremesa poética.
MARTINS
Enfim...
BASTOS
Agora, diga-me, quais são as dúvidas para aceitar esse cargo?
MARTINS
São secretas.
BASTOS
Deixe-se disso; aceite, que é o verdadeiro. V. Exa, deve servir o país. É o que eu sempre digo a todos... Ah! não sei se sabe: de há cinco anos a esta parte tenho sido cantor de todos os ministérios. É que, na verdade, quando um ministério sobe ao poder, há razões para acreditar que fará a felicidade da nação. Mas nenhum a fez; este há de ser exceção: V. Exa. está nele e há de obrar de modo que mereça as bênçãos do futuro. Ah! os poetas são um tanto profetas.
MARTINS
(levantando-se)
Muito obrigado. Mas há de me desculpar. (vê o relógio) Devo sair.
BASTOS
(levantando-se)
Eu também saio e terei muita honra de ir à ilharga de V. Exa.
MARTINS
Sim... mas, devo sair daqui a pouco.
BASTOS
(sentando-se)
Bem, eu espero.
MARTINS
Mas é que eu tenho de ir para o interior de minha casa; escrever umas cartas.
BASTOS
Sem cerimônia. Sairemos depois e voltaremos... V. Exa. janta às cinco?
MARTINS
Ah! quer esperar?
BASTOS
Quero ser dos primeiros que o abracem, quando vier a confirmação da notícia; quero antes de todos estreitar nos braços o ministro que vai salvar a nação.
MARTINS
(meio zangado)
Pois fique, fique.
Cena VI
Os mesmos, MATEUS
MATEUS
É um criado de V. Exa.
MARTINS
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)ASSIS, Machado de. Quase Ministro. In: ASSIS, Machado de. Teatro de Machado de Assis. São Paulo: Martins Fontes, 2003. (texto originalmente representado em 22 nov. 1862, Rio de Janeiro).