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#Contos#Literatura Brasileira

Tentação

Por Adolfo Caminha (1896)

— Deus a leve, nhá Delaida... vá com Deus!... Não lhe hei de querer mal, não, minha filha...

Adelaide — aquele coração terno de ave mansa — chorava também, um choro mudo que pungia.

— Basta, basta! — interrompeu Evaristo, limpando a face magra. — Acabem com isso...

No fundo, ele também estava comovido, e homem nervoso, não podia ver outra pessoa chorar.

O boleeiro perguntou para dentro se era só a caixa de chapéu, a maleta e a gaiola...

— Só — respondeu Evaristo.

Adelaide embarcou aos olhos curiosos da vizinhança, que tinha o ar compungido, depois embarcou Evaristo, ouviu-se um — adeusinho! — e o carro estremeceu.

Balbina, em pé no meio da rua, levava ainda uma vez a aba do casaco aos olhos.

...Foi assim que o bacharel Evaristo de Holanda se desenterrou de Coqueiros — "humilde e saudoso lugarejo de província" — como depois mandava dizer, em carta aos amigos.

Figurava a Corte do Império uma terra legendária de aventuras e de muito dinheiro, onde, com algum trabalho, qualquer homenzinho podia fazer fortuna em poucos anos, ou, quando mais não fosse, galgar posições, eminências cobiçadas, conquistar nome - celebrizar-se. Devorava os jornais do Rio, na biblioteca; lia tudo quanto na grande capital se publicava em prosa e verso; não era estranho ao movimento literário, aos saltos-mortais da política, às artes; interessava-se, como republicano, pela saúde do monarca e pelos escândalos mais ou menos ruidosos da Rua do Ouvidor; enfim, o Rio de Janeiro era, a seus olhos estáticos de provinciano, a quintessência da civilização - Paris em ponto pequeno.

Formado em direito, casara aos vinte e oito anos com uma rapariga órfã, chamada Adelaide - essa de coração meigo como o das pombas — que o amava desde o primeiro ano do curso e que o vira certo domingo numa festa de igreja. Adelaide era pobre, mas isso o não demovia de suas boas intenções: queria exatamente uma moça pobre, que o idolatrasse. Ele também nada possuía, mesmo nada: estudara à custa de um parente do Rio Grande, que lhe estabelecera parca mesada até que recebesse o título de bacharel. Antes, porém, do último ano acadêmico, pôde arranjar (a gente sempre se arranja...) um emprego, não muito rendoso, que conservou, a despeito da inútil carta doutoral, renunciando, com extraordinária isenção, à esmola que lhe vinha todos os meses do Rio Grande. — "Era tempo de se libertar!"

Não consultou a ninguém sobre o casamento; um belo dia soube-se que o

Holanda, filho do finado juiz de direito, estava casado com uma moça pobre, mas "bonitinha"...

E estava. Casou sem ruído, sem luxo, indo logo morar em Coqueiros e acabando por achar aquilo muito fora da civilização, incompatível com a sua natureza irrequieta de homem que não veio ao mundo para morrer obscuro "num lugarejo humilde de província..."

Luís Furtado é que lhe metera na cabeça o Rio de Janeiro. — "Por que não te mudas para o Rio? — escrevia ele. — Uma coisa é a gente viver na província e outra coisa é respirar numa atmosfera civilizada. Sei de mim que estou muito bem, muitíssimo bem. Dou-me com o João Alfredo e com os principais personagens da política fluminense. Minha mulher está gorda e não quer saber de outra vida; diz que o Rio de Janeiro é um paraíso (expressão dela) e que tudo o mais, que não for o Rio de Janeiro, no Brasil, é caboclada, é selvageria. O Raul, meu filho mais velho, boteio no colégio, no Internato Meneses Vieira, por insuportável. A Julinha é que está um encanto, uma delícia! Já fala, já diz mamãe, papai, bala, totó... Não imaginas. É uma graça ouví-la chamar — diabo, diabo, diabo! Enfim, meu Evaristo, a nossa casa, em Botafogo, se não é um palácio, também não é uma choupana... Vamos entrar na estação lírica."

E concluía instando para que o amigo fizesse um sacrifício, abandonasse aquela vida de província, trocando a monotonia de Coqueiros pela Rua do Ouvidor, pela civilização, por um chalezinho em Botafogo.

Evaristo ficava triste, mordia a ponta do bigode, passava a mão na cabeça, refletindo, parafusando, oscilando entre o presente e o futuro, entre a quietação provinciana e o tumulto de uma cidade grande cheia de movimento e de sensações. 'Té que um dia, não obstante os ingênuos receios de Adelaide, optou pelo Rio de Janeiro e escreveu a Luís Furtado, autorizando-o a arranjar-lhe um emprego decente, é claro.

Meses depois Luís Furtado comunicava-lhe a sua nomeação para o Banco

Industrial.

O Maranhão chegou ao Rio num domingo luminoso e calmo. Adelaide enjoara horrivelmente, sem sair do camarote, sem gozar dos aspectos da viagem, numa indolência estúpida, com a cabeça a doer, os olhos mortos de fadiga, debaixo dos lençóis, muitíssimo pálida. Oh, aquele maldito cheiro de azeite e de alcatrão, que vinha da proa, dava-lhe tonteiras, embrulhava-lhe o estômago, causava-lhe arrepios de náusea! Sempre meiga, porém, não se queixava, não se revoltava contra o marido, que, em parte, era o culpado. Bem que estavam tranqüilos na província!

(continua...)

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